O Baptismo na Água (VII)

cmo.jpgUMA GRANDE OMISSÃO

     É de facto inegável que as Escrituras têm sido citadas como motivo e base para a prática do baptismo na água na dispensação presente, por parte dos que o advogam; porém, permiti-nos os tais que, com o respeito que nos merecem as suas convicções e sinceridade, digamos serem as Escrituras por eles apresentadas a este respeito, destituídas de qualquer crédito, em virtude de, como veremos, nada terem a ver com a dispensação em que vivemos, ou nada terem a ver com o baptismo na água. Sim, veremos que tais passagens ou nada têm a ver com o baptismo na água ou, se têm, não dizem respeito à dispensação da graça — à Igreja.
 
     O que nos importa saber na clarificação de que carecemos, não é se as Escrituras ordenam a prática do baptismo na água, mas se a ordenam à Igreja — Corpo de Cristo. As Escrituras também ordenam a imolação de animais em sacrifício a Deus, a guarda do sábado, etc., e somos por elas ensinados de que tais práticas não são requeridas nem ordenadas à Igreja — Corpo de Cristo.

     Se o baptismo na água estivesse incluído no programa de Deus para a presente dispensação da graça, onde é que esperaríamos encontrar a ordem para o praticarmos? Nos chamados quatro Evangelhos? No Livro dos Actos? Se procurarmos aí a ordem, será honesto e justo escolher o baptismo para ser praticado e deixar de fora as línguas, sinais, sacrifícios, lei, circuncisão, etc., etc.? É claro que não, pois nenhum destes livros foi dirigido aos Gentios ou ao Corpo de Cristo, ou escrito a seu respeito. Foi a Paulo, "o apóstolo dos Gentios" que o Senhor, da glória, confiou "a dispensação da graça de Deus"  1 e foi ele que escreveu à "Igreja, que é o Seu corpo". Paulo escreveu mais livros que todos os outros escritores do chamado Novo Testamento juntos, ainda assim procurar-se-á em vão nas suas epístolas um único mandamento, ou mesmo uma exortação para os crentes se submeterem à prática do baptismo na água.

     Certa ocasião foi feita na rádio a seguinte pergunta a um ouvinte: "Qual a percentagem do globo terrestre que é coberta com água?" "Deixe-me pensar", disse ele. "Cem por cento", concluiu. Escusado será dizer que no estúdio os presentes rebentaram a rir.

     Porém, nós, não nos ríamos muito alto, pois uma grande maioria dos crentes tem uma concepção idêntica a respeito da palavra bíblica BAPTISMO. Têm a noção de que a palavra baptismo, em si, significa baptismo na água. Vêem água quase por todo o lado:

     Romanos 6.3,4 — água! Gálatas 3.27 — água! Efésios 4.5 — água! Colossenses 2.12 — água! Porém, nestas passagens, a palavra baptismo não se refere a baptismo na água. Não leiamos água, onde ela não existe, pois se o fizermos meteremos água!

     É triste constatar que por vezes o mundo tem uma melhor compreensão da palavra baptismo que os crentes. Os escritores seculares aludem muitas vezes, por exemplo nos seus escritos, ao que eles denominam de baptismo de fogo, significando com isso determinada experiência amarga tida.

     Tem sido a tradição eclesiástica que tem induzido milhões a pensarem em água mal ouvem ou lêem a palavra baptismo, e isso tem sido uma das causas desses milhões ficarem impedidos de compreenderem a glória do "UM SÓ BAPTISMO" de Efésios 4.5 — o baptismo pelo Espírito de I Cor. 12.13 —; o único que hoje está em vigor.

     Todo o estudioso das Escrituras sabe muito bem que para se conseguir entrar no conhecimento pleno e compreensão de uma determinada palavra ou verdade Bíblica, é de importância capital procurar nas Escrituras a sua primeira menção ou ocorrência, pois esta encerra invariavelmente a chave e o segredo do seu significado.

     Ora no que concerne à verdade do baptismo na água acontece que, aparentemente, os defensores da sua prática nunca se preocuparam com a(s) primeira(s) menção(ões) nas Escrituras, pois de outra forma não teriam adquirido as convicções deficientes e erradas que têm sobre a matéria. Estamos em crer que os crentes em geral nunca se debruçaram a sério e a fundo sobre esta questão, mas têm antes aceite sem discussão e de ânimo leve a "herança" que a "Igreja em geral" lhes legou. Em virtude de "a Igreja em geral", tanto quanto rezam os seus anais, ter praticado o baptismo na água, e como as Escrituras falam nele e o ordenam, tem sido aceite sem qualquer objecção. Contudo, se os crentes quiserem fazer um estudo sério e profundo do assunto, e o começarem a analisar desde a sua primeira menção, descobrirão que afinal, a despeito das Escrituras ordenarem a prática do baptismo na água, este não tem o significado e propósito que habitualmente lhe é conferido, nem foi ordenado ao Corpo de Cristo, para sua obediência. Tendo os crentes em geral olvidado, na análise desta questiúncula tão importante, a lei da primeira menção, perderam irremediavelmente a chave da compreensão desta doutrina bíblica, ficando ainda entregues a opiniões diversas e contraditórias, todas elas erradas, oferecendo ao mundo um testemunho que não é nada abonatório da unidade prática do Corpo de Cristo. A nossa oração e esforço é que todos cheguem à "plena certeza da compreensão" desta verdade, e se regozijem no Senhor com esse facto.

     A primeira menção da verdade do baptismo na água ocorre no Livro de Êxodo. As Escrituras revelam claramente que o baptismo ritual foi instituído no Sinai sob a Lei de Moisés. Hebreus 9.1,10 é muito elucidador a esse respeito:

     "Ora também o primeiro (concerto) tinha ordenanças de culto divino..."

     "Consistindo somente em manjares, e bebidas, e várias abluções (Gr. baptismos) e justificações da carne, impostas até ao tempo da correcção."

     Este texto das Escrituras revela que o concerto Mosaico tinha como ordenança, entre outras coisas, abluções ou lavagens — no original a palavra Grega é o termo baptismos, de onde vem a nossa palavra baptismos. O mesmo termo ocorre em Heb. 6.2 e é ali traduzido pela palavra baptismos. Vemos assim que a palavra baptismos é usada aqui para descrever as cerimónias de purificação da Lei Levítica — as lavagens. Quando induzidos ao sacerdócio os sacerdotes eram sujeitos a lavagens (Êxo. 29.4). O escritor de Hebreus chama a essas lavagens baptismos. É aqui, pois, que temos a primeira menção cronológica bíblica relativamente à verdade do baptismo na água. Em Levítico, existem para cima de vinte referências relativamente às diversas lavagens ou baptismos. Daqui vemos que o baptismo teve desde sempre um significado completamente diferente do que lhe tem sido atribuído. O baptismo na água significa lavagem ou purificação — nunca sepultura, ou outra coisa qualquer. Em Marcos 7.1-8 as palavras Gregas baptizo e baptismos são traduzidas por lavar. A contenda baptismal aludida em João 3.22-24 era acerca da purificação. Quando Paulo foi baptizado por Ananias, este disse-lhe: "Levanta-te, e baptiza-te, e lava os teus pecados" (Act. 22.16).

     Muitos crentes sinceros supõem (erradamente) que a prática do baptismo na água se trata duma inovação Neo-testamentária, uma vez que a palavra baptismo não ocorre no chamado Velho Testamento. É claro que não poderia ocorrer, pois o Velho Testamento foi escrito em Hebraico e Aramaico e a palavra baptismos é Grega — língua em que foi escrito o chamado Novo Testamento. Porém, como já vimos, o Espírito Santo chamou de baptismos as abluções ou lavagens que se praticavam no Velho Testamento. As lavagens eram baptismos e os baptismos lavagens. À volta, pois, de uns 1500 anos antes do chamado Novo Testamento ter sido escrito já os Judeus praticavam baptismos na água.

     Muitos pensam que foi João Baptista quem principiou com esta cerimónia. Tal, porém, não corresponde à verdade, como tivemos ocasião de ver. Mas, para um melhor esclarecimento do leitor sobre esta questão, basta lembrar-lhe que quando João Baptista apareceu a baptizar, os Judeus não lhe perguntaram qual era o significado desta cerimónia "estranha e nova". Eles já a conheciam desde há muito, e há muito que sabiam o seu significado, e por isso perguntaram: "Porque baptizas, pois, se tu não és o Cristo, nem Elias, nem o Profeta?" (João 1.25). Queremos enfatizar aqui muito bem: as multidões que ouviram João pregar não ficaram surpreendidas por ele baptizar os seus ouvintes, como se algo de novo e inesperado estivesse a ocorrer pela primeira vez. Eles apenas ficaram surpreendidos por ser João a baptizar, visto que ele não era o Cristo, nem Elias, nem "O Profeta". Aliás, as Escrituras indicam claramente que eles esperavam o incremento da prática do baptismo em relação à vinda do Messias (Eze. 36.25; Conf. João 1.31).

     A chamada lei da primeira menção sobre este assunto tem ido uma grande omissão que fatalmente, tem prejudicado a compreensão do povo de Deus sobre esta tão importante questão. Como tudo se torna claro e simples, quando nos dispomos a ver e a analisar as Escrituras a sério! Hebreus 9.1,10 não deixa qualquer dúvida quanto à natureza do baptismo na água: trata-se duma ordenança religiosa. "O primeiro (concerto) tinha ordenanças de culto... consistindo em... várias abluções (Gr. baptismos)...". Pois bem, as Escrituras ensinam que nesta presente dispensação nós não estamos sob quaisquer ordenanças religiosas. Notemos, por exemplo, o que Paulo nos diz em Efé. 2.14,15 e Col. 2.14-22:

     "Porque Ele (Cristo) é a nossa paz, o qual de ambos os povos (Judeus e Gentios) fez um; e derribando a parede de separação que estava no meio.

     "Na sua carne DESFEZ A INIMIZADE, isto é, a lei dos mandamentos que consistia em ORDENANÇAS, para criar em Si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz.

     "HAVENDO RISCADO A CÉDULA que era contra nós nas suas ORDENANÇAS, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a TIROU do meio de nós, CRAVANDO-A NA CRUZ...

     "Portanto ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados.

     "Que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo.

     "Se, pois, estais mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, PORQUE VOS CARREGAM AINDA DE ORDENANÇAS, como se vivêsseis no mundo,

     "Tais como: não toques, não proves, não manuseies?

     "As quais coisas todas perecem pelo uso, segundo os preceitos e doutrinas dos homens."

     Estes textos das Escrituras tornam muito claro que a morte de Cristo cumpriu a lei e aboliu todas as suas ordenanças religiosas. Se isto é assim, e é, como é que ouvimos crentes falarem acerca das "ordenanças da Igreja"? A maioria dos chamados Protestantes crê que o baptismo na água e a ceia do Senhor são duas ordenanças de obrigação perpétua para a Igreja. Onde é que foram buscar tal ensino? Não há dúvida que o baptismo é uma ordenança, mas, lembremo-nos, do Velho Testamento. No entanto a ceia do Senhor não é nenhuma ordenança, no sentido do baptismo e de outros mandamentos religiosos. A ceia do Senhor é uma celebração do Novo Testamento. Como todas as ordenanças, o baptismo era imposto, porém a ceia do Senhor nunca. O baptismo era requerido para a salvação, a ceia do Senhor nunca. O baptismo estava associado com a manifestação de Cristo a Israel (João 1.31), mas a ceia do Senhor, na sua presente forma, está associada à rejeição e ausência do Senhor. O baptismo denotava uma obra não consumada (lembremo-nos que foi Paulo quem primeiro proclamou a obra consumada de Cristo); era um símbolo de purificação que só Cristo podia efectuar, contudo a ceia do Senhor celebra a obra consumada de Cristo. O baptismo era um acto único, enquanto que a ceia do Senhor é celebrada repetidas vezes. O baptismo não estava incluído na comissão dada pelo Senhor a Paulo, porém a ceia do Senhor estava. Também é significante o facto de o baptismo na água e a ceia do Senhor nunca se encontrarem juntos nas Escrituras. É que nada têm a ver um com o outro. Certamente que se o Senhor tivesse deixado duas ordenanças obrigatórias para a Igreja, nós seguramente encontrá-las-íamos de alguma forma associadas.


1 Ler bem Efé. 3:1-10
 
(Continua)
Carlos Oliveira

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