
IGREJAS ESTABELECIDAS EM TESSALÓNICA E BEREIA
PAULO EM TESSALÓNICA
“E, passando por Anfípolis e Apolônia, chegaram a Tessalónica, onde havia uma sinagoga de judeus.
“E Paulo, como tinha por costume, foi ter com eles e, por três sábados, disputou com eles sobre as Escrituras,
“Expondo e demonstrando que convinha que o Cristo padecesse e ressuscitasse dos mortos. E este Jesus, que vos anuncio, dizia ele, é o Cristo.
“E alguns deles creram e ajuntaram-se com Paulo e Silas; e também uma grande multidão de gregos religiosos e não poucas mulheres distintas.
“Mas os judeus desobedientes, movidos de inveja, tomaram consigo alguns homens perversos dentre os vadios, e, ajuntando o povo, alvoroçaram a cidade, e, assaltando a casa de Jasom, procuravam tirá-los para junto do povo.
“Porém, não os achando, trouxeram Jasom e alguns irmãos à presença dos magistrados da cidade, clamando: Estes que têm alvoroçado o mundo chegaram também aqui,
“Os quais Jasom recolheu. Todos estes procedem contra os decretos de César, dizendo que há outro rei, Jesus.
“E alvoroçaram a multidão e os principais da cidade, que ouviram estas coisas.
“Tendo, porém, recebido satisfação de Jasom e dos demais, os soltaram.”
- Atos 17:1-9
MUITOS GREGOS CREEM
Partindo de Filipos, Paulo e Silas fizeram o seu caminho ao longo da grande estrada Romana para oeste, chegando a Tessalónica, conhecida agora como Salónica, situada no Mar Egeu, a cerca de 160 quilómetros de distância. Eles não pararam para evangelizar Anfípolis e Apolónia, duas cidades ao longo do caminho, sem dúvida concluindo que a primeira poderia ser alcançada através de Filipos e a segunda através de Tessalónica, um centro populoso a partir do qual o Evangelho poderia ser amplamente proclamado. De facto, mais tarde somos informados que de Tessalónica "a Palavra do Senhor" de facto “se espalhou" por toda a "Macedónia e Acaia" (I Ts 1.8).
Mais, havia uma sinagoga[1] em Tessalónica e ainda era costume de Paulo procurar esses lugares primeiro. Isto acontecia em parte, sem dúvida, porque os judeus, crendo no verdadeiro Deus, e reunindo à sua volta prosélitos e Gentios interessados, proporcionavam-lhe um bom ponto de partida para proclamar a Cristo. Mas no programa de Deus havia outra razão importante. Israel, como nação, havia rejeitado a Cristo e como nação já estava a ser posta de parte, ficando o estabelecimento do reino messiânico adiado para uma data posterior. E agora, como Paulo foi enviado "aos gentios de longe", ele ainda foi "primeiramente ao Judeu", não tendo em vista objetivamente o estabelecimento do reino, mas com o objetivo de os judeus, Jerusalém a Roma, ficarem sem desculpa para a sua rejeição de Cristo e, como ele explica: "para ver se de alguma maneira posso incitar à emulação os da minha carne e salvar alguns deles" (Rom. 11:14). O registo destes factos está em harmonia com a natureza e propósito do Livro dos Atos que, devemo-nos lembrar, não é para relatar a história do "nascimento e crescimento" da Igreja desta dispensação, mas antes para narrar a queda de Israel e para explicar porque a salvação foi enviada aos Gentios sem a sua instrumentalidade.
Durante três "sábados"[2] o apóstolo "disputou ... sobre as Escrituras" com os Judeus em Tessalónica. O ter-lhe sido permitido fazer isso por um tempo tão alargado indica o respeito que eles teriam pelos seus sérios caráter, capacidade e eloquência. Os evangelistas modernos, que dão aos seus ouvintes um mínimo de luz da Palavra e um máximo de entretenimento, devem tomar nota disso, e também devem tomar nota dos resultados surpreendentes do ministério curto de Paulo em Tessalónica.
O que Paulo pregou em Tessalónica também deve ser considerado aqui. Alguns têm pensado que Paulo, porque disputou com eles sobre as Escrituras (do Antigo Testamento), deve ter proclamado a mesma mensagem que os doze haviam proclamado: "o Evangelho do reino" e "o Evangelho da circuncisão", e têm interpretado as referências de Paulo à vinda de Cristo nas suas epístolas aos Tessalonicenses conformando-a a esta visão.
Contudo não há evidência de que Paulo tivesse proclamado o Evangelho do reino, ou da circuncisão, aqui ou em qualquer lugar em qualquer altura que fosse. Em Gál. 2:7 ele afirma enfaticamente que "o Evangelho da circuncisão" havia sido confiado a Pedro, como "o Evangelho da incircuncisão" havia sido confiado a si. Nem é dito, em nenhum lugar, que "o Evangelho do reino" lhe tivesse sido confiado ou tivesse sido pregado por ele.
“Expondo” (explicando) e "demonstrando" (Lit., estabelecendo, confrontando, ou defendendo que é assim) que o Messias, de acordo com as Escrituras tinha padecido e ressuscitado e que o Jesus que ele pregava era o Messias, Paulo estava simplesmente estabelecer a identidade de Cristo para que eles pudessem confiar nele. Esse era o ponto natural de contacto, o lugar lógico para começar.
Que Paulo não proclamou a mesma mensagem que os doze haviam proclamado é evidente nos seguintes fatos:
- Ele não os chamou a repudiar a parte da nação na morte de Cristo; parte integrante da mensagem dos doze (ver Atos 2:23,36,38 e cf. Zac. 12.10; 13.6).
- Ele não ofereceu, aqui e em parte alguma, o retorno de Cristo e o estabelecimento do Seu reino, como os doze haviam feito (Atos 3:19-21).
- Deus sabia que a possibilidade de Israel aceitar Cristo e o Seu reino já havia passado, daí o levantamento de Paulo para proclamar outra mensagem (Atos 8:1; 22:18; etc.).
- O ministério de Paulo, tanto nos Atos como nas suas primeiras epístolas, é consistentemente distinguido do dos doze (Atos 20:24; Gálatas 1:11,12; 2:2,6-9, etc.).
Nesta parte dos Atos, no entanto, temos uma transição do programa antigo para o novo. O velho desaparece gradualmente à medida que o novo toma o seu lugar. É perfeitamente natural, portanto, encontrar Paulo, aqui e em outros lugares no registo de Atos, provando aos judeus pelas Escrituras que "Jesus é o Cristo", para que alguns possam ser ganhos, levados a confiar n’Ele e para que aqueles que se unem à nação. recusando fazê-lo fiquem totalmente sem desculpa, enquanto Deus continua a colocar a nação de parte. Ele tinha que começar por aqui, pois se o Jesus que tinha sido crucificado não era o Messias, Ele seria um impostor e certamente não poderia ser o Dispenseiro da graça para um mundo perdido, nem a Cabeça do Corpo.
O ministério de Paulo em Tessalónica foi breve, mas à medida que acrescentamos ao registo dos Atos informações adicionais obtidas das suas epístolas aos Tessalonicenses, escritas logo de seguida, ficamos com uma ideia melhor de quanto foi realizado e de quanto poderia ser realizado em tão pouco tempo.
Lucas, pelo Espírito, informa-nos que "alguns" dos judeus "creram", ou melhor, foram persuadidos, e juntaram-se a Paulo e Silas, juntamente com "uma grande multidão" de “Gregos religiosos” e "não poucas" das principais mulheres da cidade, que, evidentemente, pertenciam a essa categoria. Os Gentios envergonharam novamente os Judeus, com "uma grande multidão" deles voltando-se para o Senhor em comparação com "alguns" dos Judeus. Mas, em harmonia com o propósito dos Atos, Lucas não menciona a multidão ainda maior de pagãos conquistados ao Senhor durante a curta estadia de Paulo ali.[3] Das epístolas de Paulo aos Tessalonicenses, é evidente que a igreja ali era desde o princípio composta principalmente de convertidos da idolatria, não do Judaísmo, pois ele escreve-lhes como aqueles que “dos ídolos” se tinham convertido “a Deus” (I Tes. 1:9). É claro que os Judeus convertidos na assembleia formavam uma proporção insignificante, pois Paulo escreve aos Tessalonicenses quase como se não houvesse Judeus entre eles (ver I Tes. 2:14, etc.).
Como foi realizado tanto em tão pouco tempo? Foi porque as coisas aconteceram facilmente para ele durante este período? Não, realmente; havia muita oposição, porém o apóstolo havia chegado a eles no poder do Espírito, exibindo coragem e graça raras.
Escrevendo por inspiração, o apóstolo recorda: "porque o nosso evangelho não foi a vós somente em palavras, mas também em poder, e no Espírito Santo, e em muita certeza ... mas, havendo primeiro padecido e sido agravados em Filipos,[4] como sabeis, tornamo-nos ousados em nosso Deus, para vos falar o evangelho de Deus com grande combate” (1 Tes. 1:5; 2:2). E os crentes Tessalonicenses também foram iniciados no sofrimento desde o princípio, pois o apóstolo escreve que eles "receberam a Palavra em muito tribulação" e, como de costume, "com gozo do Espírito Santo" (1 Ts. 1:6). , cf. 2:14).
Mas os novos e sofridos crentes não poderiam ter maior apoio humano do que o que os Tessalonicenses receberam de Paulo e Silas durante a sua estadia ali. Novamente, por inspiração divina e não por orgulho espiritual, o apóstolo recorda: "bem sabeis quais fomos entre vós, por amor de vós" (1 Tes. 1:5), lembrando aos Tessalonicenses como ele e Silas não os haviam tratado com “engano”, ou “imundícia”, ou “fraudulência”, mas como homens confiáveis para uma responsabilidade sagrada (2:3,4). Também não usaram de "palavras lisonjeiras, ou de bajulação", ou “pretexto de avareza”; nem procuraram a "glória dos homens", embora "como apóstolos de Cristo" pudessem ser-lhes “pesados” (2:5,6). Em vez disso, eles foram "brandos" entre estes bebés em Cristo, "como a ama que cria seus filhos". Sendo “tão afeiçoados” a eles, os apóstolos estiveram dispostos a dar-lhes “não somente o evangelho de Deus, mas ainda a” sua “própria alma" (2:7,8).
Um detalhe que talvez nos surpreenda, mais do que tudo, é que na curta estadia do apóstolo aqui, com tanto trabalho para fazer, ele até começou a trabalhar secularmente todos os dias, de modo a não precisar do seu apoio. "Porque bem vos lembrais", diz ele, "do nosso trabalho e fadiga; pois, trabalhando noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós, vos pregamos o Evangelho de Deus" (2:9).
Finalmente, o apóstolo poderia chamá-los a testemunhar deles nestes termos: "quão santa, justa e irrepreensivelmente nos houvemos para convosco, os que crestes. Assim como bem sabeis de que modo vos exortávamos e consolávamos, a cada um de vós, como o pai a seus filhos, para que vos conduzísseis dignamente para com Deus" (2:10-12).
Como poderia tal ministério falhar em produzir resultados? E produziu resultados. Produziu resultados infinitamente mais vastos e duradouros do que todo o "evangelismo" superficial e frívolo dos tempos modernos.
Diz o apóstolo: "... vós mesmos, irmãos, bem sabeis que a nossa entrada para convosco não foi vã ...., pois, havendo recebido de nós a palavra da pregação de Deus, a recebestes, não como palavra de homens, mas (segundo é, na verdade) como Palavra de Deus, a qual também opera em vós, os que crestes" (I Tes. 2:1,13). E os crentes Tessalonicenses foram, por sua vez, usados para espalhar e levar a mensagem longe, pois "por vós", diz o apóstolo, "soou a palavra do Senhor, não somente na Macedónia e Acaia, mas também em todos os lugares a vossa fé para com Deus se espalhou ..." (I Tes. 1 8).
Não admira que o apóstolo tivesse dado "sempre ... graças a Deus por ... todos" eles! (I Tes. 1:2). Não é de admirar que ele tenha exclamado: "... que ação de graças poderemos dar a Deus por vós ..." (3:9)? Não é de admirar que ele os tenha chamado de "nossa glória e gozo" (2:20)!
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[1] Alguns textos dizem, "a sinagoga," o que pode indicar que os Judeus de toda esta região eram servidos por esta única sinagoga.
[2] Ou, semanas.
[3] A menos que o versículo 4 refira "Gregos e religiosos", como alguns MSS apresentam. Estes MSS, no entanto, são provavelmente resultado da dificuldade encontrada sobre a falha de Lucas em mencionar os pagãos convertidos dos quais a igreja era composta principalmente, pois esta tradução tem pouco apoio dos MSS.
[4] As suas costas, sem dúvida, ainda estão doridas dos açoites recebidos escassos dias antes.