Atos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XXIX – Atos 16:25-40

Acts dispensationally considered

 

A CONVERSÃO DO CARCEREIRO DE FILIPOS

A PRISÃO ABERTA POR UM MILAGRE

 

            “Perto da meia-noite, Paulo e Silas oravam e cantavam hinos a Deus, e os outros presos os escutavam.

            “E, de repente, sobreveio um tão grande terramoto, que os alicerces do cárcere se moveram, e logo se abriram todas as portas, e foram soltas as prisões de todos.

            “Acordando o carcereiro e vendo abertas as portas da prisão, tirou a espada e quis matar-se, cuidando que os presos já tinham fugido.

            “Mas Paulo clamou com grande voz, dizendo: Não te faças nenhum mal, que todos aqui estamos.

            “E, pedindo luz, saltou dentro e, todo trémulo, se prostrou ante Paulo e Silas.

            “E, tirando-os para fora, disse: Senhores, que é necessário que eu faça para me salvar?

            “E eles disseram: Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa.

            “E lhe pregaram a Palavra do Senhor e a todos os que estavam em sua casa.

            “E, tomando-os ele consigo naquela mesma hora da noite, lavou-lhes os vergões; e logo foi batizado, ele e todos os seus.

            “Então, levando-os a sua casa, lhes pôs a mesa; e, na sua crença em Deus, alegrou-se com toda a sua casa.”

- Atos 16:25-34.

   

            Que são estes sons à meia-noite? Orar! Cantar!

            Estranho! Poderá vir da masmorra onde os dois últimos prisioneiros foram lançados? Eles nem se podem ajoelhar; os seus pés estão amarrados no tronco. E cantam? Ora, apenas umas horas atrás eles tinham sido brutalmente espancados com varas e atirados para o calabouço, as suas costas dolorosamente magoadas e a sangrar pelos "muitos açoites".

            É claro que eles não conseguiam dormir - mas como podem estar a orar e a cantar nesta condição em que se encontravam e em tal lugar? No entanto, devem ser eles que ouvimos, pois são eles que têm falado às pessoas sobre a salvação por meio de Cristo.

            Que estranho e maravilhoso o que soa! Até agora, aquelas paredes só ouviam gemidos, maldições e explosões desagradáveis de raiva: agora ouvem orações e cânticos!

            Que testemunho Paulo e Silas deram de Cristo naquela meia-noite! Embora profundamente maltratados e em necessidade física, fé e alegria transbordavam quando oravam e cantavam hinos (Gr. humneo) para Deus. Eles estavam longe de estar com amargura. No seu sofrimento, e não sabendo por quanto tempo ficariam confinados a esta horrível masmorra ou que provas teriam que enfrentar a seguir, eles derramaram os seus corações em oração a Deus, invocando-O por força e ajuda. E de alguma forma Ele parecia mais próximo deles agora, em vez de mais longe, pois irrompem em cânticos de louvor uns após outros, vindo de corações transbordando de paz e alegria. "E os outros presos os escutavam."[1]

            As suas consciências estavam limpas e os seus ouvidos em sintonia com Deus - e mais, como os apóstolos em Jerusalém nas suas perseguições, “regozijando-se de terem sido julgados dignos de padecer afronta pelo nome de Jesus" (Atos 5:41). De facto, num sentido mais verdadeiro do que eles, Paulo era o apóstolo do Cristo rejeitado, cumprindo o que ainda restava das Suas aflições por amor do Seu Corpo (Col. 1:24). Assim, ele escreveu mais tarde aos santos nesta mesma cidade:

            “Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer n’Ele, como também padecer por Ele,

            “Tendo o mesmo combate que já em mim tendes visto e, agora, ouvis estar em mim” (Fil. 1:29-30).

            Sim, e o apóstolo foi mais longe do que isso, expressando-lhes o seu desejo de conhecer a Cristo mais intimamente na "comunhão dos seus sofrimentos" (Fil 3:10).

            Esta era a alegria que enchia e transbordava os corações de Paulo e Silas naquela cela escura.

            E de repente, quando oravam e cantavam, houve um terramoto tão violento que sacudiu as fundações da prisão. "E logo se abriram todas as portas, e foram soltas as prisões de todos" (Ver. 26).

            Certamente que isto foi uma intervenção divina. E mesmo que a história testemunhe que os terramotos eram frequentes nessa zona naquela época, ainda seria um milagre por ter acontecido exatamente naquele momento e feito exatamente o que fez - incluindo até a soltura das prisões de todos! Esta soltura traz inquestionavelmente o selo de milagre. Aqueles que negam isso argumentaram que um terramoto, além de afrouxar as portas, poderia muito bem ter soltado os parafusos que prendiam as correntes dos prisioneiros às paredes. Mas e os outros terminais? Diz que "foram soltas as prisões de todos", não apenas soltas das paredes. Além disso, Paulo e Silas tinham os seus pés presos no tronco!

            E agora o carcereiro desperta vendo todas as portas da prisão abertas e naturalmente supõe que os prisioneiros tivessem fugido. Nós já explicámos como estes guardas Romanos eram responsabilizados pelos prisioneiros que lhes foram confiados com as suas vidas (Veja 12:19), portanto não é estranho ver o carcereiro Filipense, na sua aflição, puxar da espada para tirar sua própria vida. O suicídio, pensaria ele, seria melhor do que a desgraça e uma execução cruel.

            Mas, de alguma forma, Paulo viu ou sentiu que o carcereiro estava prestes a suicidar-se e exclamou em voz alta da escuridão: "Não te faças nenhum mal, que todos aqui estamos" (Ver. 28). Para o carcereiro, isto deve ter parecido incrivelmente humano após o tratamento bárbaro que ele havia dado a Paulo e Silas, mas era um dos frutos naturais do Evangelho que eles estavam a proclamar.

            Mas que poder manteve todos os prisioneiros nas suas celas? Somos claramente informados de que "se abriram todas as portas " e "e foram soltas as prisões de todos" (Ver. 26). Porque é que ninguém fugiu? Cremos que a razão foi o que eles ouviram quando Paulo e Silas oravam e cantavam hinos, pelo que ficarem deve ter sido a reação provocada no coração e na mente destes pagãos àquela atitude de Paulo e Silas! Como pode ajudar a associação ao terramoto?

            Nesta altura, o carcereiro, salvo in extremis de cometer suicídio, estava completamente perplexo. Pedindo luzes (plural, provavelmente tochas), ele "entrou" e, "todo trémulo", "se prostrou ante Paulo e Silas”. Tão grande era a sua reverência por eles agora que ele nem sequer falou até os "tirar para fora" da masmorra. Então ele fez a grande pergunta que talvez já o estivesse a incomodar e que, de repente, tomou posse do seu coração e mente. Dirigindo-se a eles como "Senhores" (Gr. Kurioi), ele suplica: "que é necessário que eu faça para me salvar?" (Ver. 30).

            Tem sido argumentado por alguns que o carcereiro tinha em mente a libertação física em vez da salvação da sua alma, quando ele fez esta pergunta, mas a evidência prova que assim não é.

  1. Paulo e Silas foram indicados, durante "muitos dias" em Filipos, como homens que proclamavam "o caminho da salvação" (Vers. 17,18).
  1. O terramoto tinha terminado. Ele dificilmente poderia estar à procura de "salvação" do mesmo.
  1. Nenhum dos prisioneiros havia escapado, por isso a sua vida já não estava em perigo por aquele motivo. De facto, o carcereiro parece não ter tomado medidas imediatas para ressegurar os prisioneiros, quer porque os seus auxiliadores (Ver. 29) viram isso, quer porque a salvação da sua alma era agora a sua preocupação suprema. Deus também pode ter usado as circunstâncias para fazer com que os prisioneiros ficassem. De qualquer forma, se agora ele temesse o julgamento Romano, a sua primeira preocupação teria sido garantir que nenhum prisioneiro escapasse.
  1. O terramoto, as portas da prisão abertas, os prisioneiros não terem feito o que garantiria a sua ruína, a preocupação de Paulo pela sua vida quando ele estava prestes a cometer suicídio; tudo isto tendia a fazê-lo buscar mais do que a libertação física.
  1. Paulo e Silas evidentemente perceberam do carcereiro que ele buscava a salvação do pecado. Eles não teriam prometido libertação física em troca da fé em Cristo.
  1. O cuidado terno do carcereiro convertido para com os homens que ele tanto maltratara, e a sua alegria quando ele, "com toda a sua casa", creu, parece indicar que ele tinha estado sob a convicção do pecado.
  1. As referências à "casa" do carcereiro em relação à resposta de Paulo e à conversão do carcereiro (Vers. 31,32,33,34) estão em harmonia com os casos de Cornélio (11:14) e Lídia (16:15).

            Quão prontos os apóstolos estavam com a resposta exata que o carcereiro precisava! "Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo" (Ver. 31). Este é o núcleo da mensagem da graça.

            Quando "a multidão" perguntou a João Batista: "Que faremos então?" ele insistiu nos frutos do arrependimento e do reino (Lucas 3:9-11). Quando um doutor da lei perguntou ao nosso Senhor: "Que farei para herdar a vida eterna?" o Senhor perguntou-lhe: "Que está escrito na lei?" e instruiu-o: "Faz isso, e viverá" (Lucas 10:25-28). Quando os ouvintes de Pedro em Pentecostes perguntaram: "Que faremos?" Pedro ordenou-lhes: "arrependei-vos e cada um de vós seja batizado (...) para perdão dos pecados" (Atos 2:37,38). Porém agora, sob Paulo, a mensagem nítida e clara é: "Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo". Não importa qual seja o teu pecado, não importa qual seja a tua ignorância, não importa quais sejam os teus medos que te prendem - "Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo". Seja para a criança, com uma vida inteira de oportunidade diante dela, seja para o moribundo com apenas uns momentos de vida, a mensagem ainda é: "Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo".

            As palavras adicionadas: "e a tua casa", às vezes têm sido tomadas como uma promessa de que a fé de um membro de uma família assegura a salvação de toda a família. Se assim fosse, todo o mundo seria salvo, pois estamos todos relacionados, porém os apóstolos não quiseram dizer isso, nem este ensinamento é encontrado em algum lugar das epístolas Paulinas. O significado é simplesmente: "Isto também vale para a tua família. Eles, do mesmo modo que tu, também podem crer e ser salvos".

            Mas apesar de os apóstolos terem ido direto ao ponto, ,a resposta à pergunta do carcereiro, eles não pararam ali, como fazem alguns evangelistas e ganhadores de almas hoje. Apesar doentes e doridos, eles pregavam "a Palavra do Senhor" ao carcereiro e aos membros da sua casa, que entretanto se reuniram (Ver. 32).

            O carcereiro mostrou bem depressa evidências de que ele havia confiado sinceramente em Cristo como seu Salvador, pois "naquela mesma hora da noite" ele levou-os para outro lugar, onde havia água, e ali o outrora cruel carcereiro gentilmente lavou-lhes as feridas. Não nos é dito o que ele terá dito quando fez isso, mas imaginamos que terão havido muitas palavras de arrependimento e pedido de desculpas. E aqui também, o carcereiro "e todos os seus" foram lavados com um batismo que significava limpeza ou purificação do pecado.

            Deve-se observar novamente que Paulo não exigiu este batismo para a remissão de pecados de acordo com a "grande comissão" dada aos onze (Marcos 16:16; Atos 2:38). Este foi acrescentado depois, como nos casos de Cornélio e Lídia, e apenas porque Israel e o programa do reino ainda não haviam sido oficialmente postos de parte. Nem isto significa que Paulo pregasse ou ensinasse o batismo. Ele circuncidou justamente Timóteo, mas ele não pregou a circuncisão (Gálatas 5:11). Do mesmo modo, ele diz: "Cristo enviou-me, não para batizar, mas para evangelizar" (I Cor. 1:17) e não demoraria muito para que o "um só batismo" feito pelo Espírito em Cristo fosse tudo o que restaria ( Efésios 4:5).

            Longe de ensinar o batismo familiar ou infantil, o registo afirma que o carcereiro "na sua crença [Lit., tendo crido] em Deus alegrou-se com toda a sua casa" (Ver. 34). No entanto, homens de Deus capazes, como Albert Barnes, dirão: "Toda a narrativa nos levar a supor que tão logo o carcereiro creu, ele e toda a sua família foram batizados ... O Batismo parece ter sido realizado por causa da fé do chefe da família"! (Barnes on the New Testament, at Acts 16:34 [Barnes sobre o Novo Testamento, em Atos 16:34]. Ênfase nossa). Tais são as bases sobre as quais a doutrina do batismo familiar [de toda a casa] tem sido construído.

            E esta passagem não dá melhor apoio aos imersionistas no que diz respeito ao modo do batismo. Não há indicação de que houvesse água suficiente na prisão para submergir as pessoas. Também não é provável que houvesse. Nem há qualquer indicação de que eles foram imersos. Indubitavelmente água foi aspergida ou derramada sobre eles no mesmo lugar onde as feridas de Paulo e Silas foram lavadas e certamente "naquela mesma hora da noite" (Ver. 33). Houve um terramoto e muita agitação e é duvidoso que eles participassem numa longa cerimónia. Na verdade, lemos que eles foram batizados "logo [ou, imediatamente]" (Ver. 33).

            E agora o carcereiro leva Paulo e Silas para sua própria casa e põe uma mesa diante deles (Ver. 34). Sem dúvida, eles estavam com fome agora, pois na hora da oração, hora nona (Ver. 16, cf. 3: 1), ou seja, 15h, que o problema havia começado, e agora já passava da meia-noite. Todavia os apóstolos viram graciosamente satisfeita uma fome mais profunda, pois deve ter valido todo o seu sofrimento e humilhação para ver o carcereiro “na sua crença em Deus” alegrar-se “com toda a sua casa”.[2] Eis aqui um banquete e comunhão de facto! E a alegria do carcereiro e da sua casa é típica da alegria que sempre segue a verdadeira fé (veja 2:46,47; 8:8; Rom. 15:13; 1 Ped. 1:8).

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[1] "Os prisioneiros os escutavam" não é suficientemente forte. Eles escutavam profundamente impressionados com o que ouviam.

[2] O caso do carcereiro era muito diferente do de Cornélio, e uma demonstração maior de graça. Cornélio temia a Deus, orava, dava esmolas, etc. O carcereiro, por outro lado, mostrara umas simples horas antes como o coração pagão podia ser cruel. No entanto, ele regozijava-se na salvação com toda a sua casa.

 

 

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