Atos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XXX – Atos 17:1-15 (2)

OS JUDEUS INCITAM A PERSEGUIÇÃO
Além da oposição que haviam enfrentado desde o início, levantar-se-ia agora uma perseguição que forçaria Paulo e Silas a deixar Tessalónica sob o manto das trevas.
Os Judeus, invejosos do sucesso de Paulo em ganhar tantos para o Cristo, que eles rejeitavam, recorreram novamente a métodos sujos para frustrar o seu ministério. Evidentemente temendo, entre os Gentios, dar à sua hostilidade uma aparência puramente judaica, eles incitaram os pagãos contra os apóstolos, como os Judeus de Antioquia e Icónio tinham feito em Listra (Atos 14:19). Aqui, no entanto, eles rebaixaram-se a níveis ainda mais baixos do que os Judeus em Listra, tomando para si certos homens maus dentre a ralé,[1] eles "ajuntando o povo, alvoroçaram a cidade", assaltando a casa de Jasom,[2] onde Paulo e Silas tinham evidentemente permanecido, e procuraram levá-los para o povo[3] (17:5). Não conseguindo encontrá-los, porém, eles arrastaram Jasom e alguns dos outros irmãos levando-os aos governantes da cidade, exclamando: "Estes que têm alvoroçado o mundo, chegaram também aqui!" (Ver. 6). Isto era um verdadeiro elogio. Será que isso pode ser dito de nós, uma vez que o mundo está claramente do avesso!
No entanto, a acusação que eles pretendiam não era verdadeira, nem era verdade que Paulo e os seus associados tinham violado os decretos de César ou tentado incitar à rebelião (Ver. 7). Porém, os Judeus verbalizaram a acusação que espalhando-se amplamente na Roma Imperial era sempre mais propensa a captar a atenção dos magistrados - a de traição contra o imperador. Essa foi a mesma falsa acusação que foi trazida contra o próprio Senhor quando levada perante Pilatos (Lucas 23:2).[4]
A que extremos de intolerância e injustiça o fanatismo religioso pode levar os homens! Os Judeus levantaram o tumulto, mas acusaram os Cristãos de o fazer. Eles mesmos acreditavam nas suas Escrituras que o Messias iria derrubar os reinos deste mundo para reinar sobre eles, e eles teriam sido os primeiros a aceitar um rei que destruiria Roma, se tão-somente ele os deixasse nos seus pecados. Todavia, agora eles professam lealdade a César! A sua maldade foi muito mais acentuada que a dos perseguidores pagãos de Paulo em Filipos. Ali o erro foi logo corrigido, e publicamente. Contudo o ódio aqui foi mais profundo. De facto, antes de terminarem, os Judeus de Tessalónica perseguiram Paulo até Bereia para o molestar ainda mais, do mesmo modo que os Judeus de Antioquia e Icónio o perseguiram até Listra.
Tanto o povo de Tessalónica como os seus governantes ficaram naturalmente perturbados ao ouvir estas coisas, assim como "Herodes ... ficou perturbado ... e toda Jerusalém com ele", ao ouvir falar de outro "Rei dos Judeus" (Mt 2:2,3) pois ambos os povos e governantes sabiam que um conflito poderia resultar de qualquer desafio à autoridade de Roma. Os governantes aqui, no entanto, mostraram mais moderação do que os magistrados militares de Filipos, pois tendo recebido "satisfação", ou fiança, de Jason e dos outros, deixaram-nos ir.
Nestas circunstâncias parecia imprudente que os apóstolos permanecessem em Tessalónica, visto que a sua presença na cidade tenderia a agitar mais as coisas. Além disso, uma assembleia considerável já havia sido estabelecida ali. Portanto, os irmãos enviaram-nos de noite a Bereia, uma pequena cidade a cerca de cinquenta quilómetros a oeste. Mas não foi fácil para o apóstolo deixar tão grande multidão de crentes recém conversos, mas tão completamente convertidos a Cristo. Pouco tempo depois, ele escreveu-lhes sobre terem sido “privados [deles] por um momento de tempo, de vista, mas não do coração" e de terem procurado “com grande desejo ver o [seu] rosto” (1 Ts 2:17). E com respeito às boas notícias da sua fé e amor, que lhe foram trazidas por Timóteo, o apóstolo escreveu:
“Por esta razão, irmãos, ficamos consolados acerca de vós, em toda a nossa aflição e necessidade, pela vossa fé,
“Porque agora vivemos, se estais firmes no Senhor” (1 Tes. 3:7,8).
E eles estavam!
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[1] A palavra traduzida por "vadios" é literalmente “ociosos” e refere-se aos preguiçosos que estavam sempre prontos para o mal. Uma boa tradução seria “arruaceiros”.
[2] Se este Jason é o mesmo que é mencionado em Romanos 16:21, ele era parente de Paulo.
[3] Ou à turba, ou perante a assembleia popular.
[4] Apesar de perante o sumo-sacerdote Judaico Ele ter sido acusado de blasfémia (Mat. 26:60,61).
Atos dispensacionalmente Considerados
Cornelius R. Stam



