Atos Dispensacionalmente Considerados - CAPÍTULO XXIX – Atos 16:25-40 (Cont.)

PAULO ASSEVERA A SUA CIDADANIA ROMANA
“E, sendo já dia, os magistrados mandaram quadrilheiros, dizendo: Soltai aqueles homens.
“O carcereiro anunciou a Paulo estas palavras, dizendo: Os magistrados mandaram que vos soltasse; agora, pois, saí e ide em paz.
“Mas Paulo replicou: Açoitaram-nos publicamente, e, sem sermos condenados, sendo homens romanos, nos lançaram na prisão, e agora, encobertamente, nos lançam fora? Não será assim; mas venham eles mesmos e tirem-nos para fora.
“E os quadrilheiros foram dizer aos magistrados estas palavras; e eles temeram, ouvindo que eram romanos.
“Então, vindo, lhes dirigiram súplicas; e, tirando-os para fora, lhes pediram que saíssem da cidade.
“E, saindo da prisão, entraram em casa de Lídia, e, vendo os irmãos, os confortaram, e depois partiram.”
- Atos 16:35-40.
Quando a luz da manhã raiou, os lictores [ou, quadrilheiros] apareceram, não com uma intimação para levar Paulo e Silas a fim de serem examinados, mas com uma mensagem dos magistrados para que o carcereiro “[soltasse] aqueles homens" (Ver. 35). Tal dificilmente poderia acontecer porque os magistrados achavam que os sofrimentos sofridos por Paulo e Silas eram suficientes para pagar pelo seu "crime". A frase "E sendo já dia" indica que, por algum motivo, eles estavam com pressa em libertá-los.
Provavelmente os magistrados perceberam, ao pensarem no assunto, que eles tinham falhado em levar a cabo a gabada justiça do Império Romano ao terem espancado e aprisionado Paulo e Silas como criminosos sem inquérito ou investigação. Talvez até suspeitassem que um ou os dois fossem cidadãos romanos, e o violento terramoto que se seguiu à condenação prematura dos apóstolos pode ter perturbado ainda mais suas consciências. Sob tais circunstâncias, eles naturalmente procuraram livrar-se do caso o mais rápido possível.
O carcereiro, evidentemente contente com esta repentina mudança de acontecimentos, leva agora as boas notícias a Paulo e Silas e manda-os “[ir] em paz", mas qual a sua surpresa quando os vê recusar ir, ao ver Paulo responder com mestria concisa, que em português moderno, seria traduzido assim:
Açoitaram-nos publicamente,
sem sermos condenados,
sendo homens romanos,
lançaram-nos na prisão,
e agora, encobertamente, nos lançam fora?
Não será assim;
venham eles mesmos e tirem-nos para fora (ver. 37).
Houve ironia na frase "sendo homens romanos", pois os magistrados haviam mandado espancá-los e prendê-los sob a acusação de que "sendo judeus" eles tinham incomodado muito a cidade de Filipos. Semelhantemente, o apóstolo ressalta que eles haviam sido "lançados" na prisão "publicamente", e agora os magistrados "lançam-nos" (Gr. ballo em ambos os casos) fora "secretamente", como se eles não tivessem nenhum direito? Não, de facto! Ele irá responsabilizá-los pela sua ação ilegal. Devem vir eles mesmos e escoltar os apóstolos tão publicamente como quando os prenderam. Um perdão secreto não basta; o apóstolo exige uma justificação formal.
Agora os papéis invertem-se. Os acusados tornam acusadores e os juízes correm o risco de serem chamados a julgamento. Os magistrados estão agora em perigo tanto perante Roma, por violar a alardeada sacralidade da cidadania romana, como também perante própria cidade de Filipos, pois os seus nativos, eles mesmos cidadãos romanos, ao saber que Paulo e Silas também são romanos, podem se ressentir do desrespeito dos seus direitos. Os magistrados, sabendo disso, "temeram" (Ver. 38). Não havia nada a fazer senão capitular.
Há muitas lições a serem aprendidas da ação de Paulo aqui. Podemos estar certos de que o apóstolo não desafiou estes governantes romanos apenas pela satisfação pessoal que poderia obter daí. Não foi por orgulho, mas por um sentido adequado da dignidade do seu ministério que ele tomou essa ação. Além disso, ele pensou nos crentes Filipenses. Ele sempre foi o primeiro a sofrer pacientemente às mãos dos seus perseguidores, mas, como Barnes diz neste ponto: "onde a submissão, sem qualquer esforço para se obter justiça, pode ser seguida por vergonha para a causa ... uma obrigação maior pode requerer que alguém busque uma justificação do seu caráter e reivindique a proteção das leis."
E esta não foi a única ocasião em que Paulo afirmou os seus direitos como cidadão romano. Nós encontramo-lo a fazer isso novamente em Atos 21:39, 22:25 e 25:10,11. No entanto, nunca o encontramos a exigir os seus direitos como cidadão Hebreu. Assim, Deus enfatizaria o fato de que Paulo era preeminentemente o apóstolo dos gentios, como ele diz na sua carta aos crentes em Roma:
“Falo porém a vós que sois Gentios. Visto, pois, que EU SOU APÓSTOLO DOS GENTIOS, GLORIFICO O MEU MINISTÉRIO” (Romanos 11:13 TB).
Ainda assim sabemos que ele também era um cidadão Hebreu; simultaneamente um hebreu por nascimento (Fp 3: 5) e um romano por nascimento (Atos 22:28). Nisto ele representa o Corpo de Cristo, um corpo conjunto Judeus e Gentios crentes (1 Co 12:13). De facto, isso é ainda mais enfatizado pelo facto de que Paulo era um antigo inimigo de Deus e do Seu Cristo, agora gloriosamente reconciliado, pois lemos, a respeito de Judeus e Gentios, que Cristo morreu:
“E pela cruz reconciliar ambos com Deus em um corpo, matando com ela as inimizades” (Efésios 2:16).
Assim, como os doze foram enviados a Israel, Paulo foi enviado aos Gentios, e como os doze eram os representantes designados das doze tribos da nação de Israel redimida (Mt 19:28), Paulo era o representante designado do "um só corpo" (Col. 1:24,25).
Voltando novamente à cena local em Filipos, encontramos os magistrados a desculparem-se com Paulo e Silas, no entanto pedindo-lhes para deixar a cidade, evidentemente temendo que a sua presença continuada ali pudesse chamar a atenção para o erro dos magistrados e complicar ainda mais as coisas para eles.
Contudo os apóstolos, embora graciosamente cumprindo o pedido, não fugiram apressadamente da cidade. Com uma dignidade e autocontrolo que indicavam a justiça da sua causa, foram primeiro à casa de Lídia para confortar "os irmãos". Certamente "fogem os ímpios, sem que ninguém os persiga; mas qualquer justo está confiado como o filho do leão" (Provérbios 28:1).
Podemos ter a certeza de que sob Deus, a coragem, paciência, presença de espírito e clareza de julgamento de Paulo através desta provação, e a fidelidade de Silas como seu companheiro, colocaram a pequena igreja em Filipos numa posição muito mais vantajosa e sem dúvida isto ajudou muito a estabelecê-la.
No entanto, esses crentes não ficariam livres de perseguição, pois o Evangelho da graça de Deus, tendo se firmado na Europa, o diabo tudo faria ao seu alcance para se opor a tal. De facto, os sofrimentos que eles suportariam dar-lhes-iam uma apreciação mais profunda daquele que, ele próprio, sofrera tanto para lhes levar Cristo, de tal forma que repetidas vezes eles procuraram Paulo para "tomar parte na sua aflição" e suprir as suas necessidades. Como poderiam Lídia e a sua família, e a pitonisa libertada, e o carcereiro e a sua família, esquecerem-se dele?
Por ora, parece que tanto Timóteo como Lucas permaneceram com a igreja bebé, pois Lucas diz de Paulo e Silas que "[eles] partiram" (16:40). De facto, é possível que Lucas tenha permanecido em Filipos até à seguinte jornada apostólica de Paulo, pois a narrativa agora prossegue na terceira pessoa, não retornando à segunda novamente antes de 20:6. Timóteo, no entanto, juntou-se a Paulo logo depois, sendo isso referido em 17:14.
Assim, "o Evangelho da graça de Deus" foi pela primeira vez plantado na Europa, e ainda continua a produzir frutos, embora a mensagem gloriosa, cada vez mais plenamente revelada ao apóstolo da graça, e cada vez mais proclamada plenamente por ele, tenha desde então sido pervertida e confundida com "o Evangelho do reino" pelos próprios líderes da Igreja.
Atos dispensacionalmente Considerados
Cornelius R. Stam



