Charles H. Mackintosh sobre a verdade de “O Mistério” (I)

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     Há mais ou menos 150 anos, o afamado e amado expositor das Escrituras, excelente escritor, Charles H. Mackintosh (na foto), sabia manejar melhor a Palavra da verdade do que muitos nossos contemporâneos Cristãos confessos. Notemos o que ele escreveu sobre a verdade do mistério, nos seus Estudos Sobre o Livro de Números, Pág. 110-113:

     "Virá, pois, um dia resplandecente em que Jeová, o Messias, se regozijará em Jerusalém e no Seu povo. Os profetas, desde Isaías a Malaquias, estão cheios das mais gloriosas e emocionantes alusões a esse ditoso e resplandecente dia. A reprodução das passagens que com ele se relacionam encheria literalmente um livro. Mas se o leitor abrir a parte final da profecia de Isaías, encontrará um exemplo do que queremos dizer; e encontrará também muitas passagens semelhantes através dos diversos livros dos profetas.

     "Não tentaremos mencionar passagens; mas queremos advertir o leitor contra o perigo de ser induzido em erro pelos cabeçalhos não inspirados desses magníficos capítulos que se referem ao fundo de Israel, tais como, por exemplo, «As bênçãos do evangelho» — «O engrandecimento da Igreja». Estas expressões são próprias para induzir em erro muitos leitores piedosos demasiado dispostos a crer que esses cabeçalhos são tão inspirados como o texto; ou, se não são inspirados, que contêm pelo menos, uma exposição correta daquilo que o texto apresenta. O facto é que não existe uma sílaba acerca da Igreja desde o princípio ao fim dos profetas. Que a Igreja pode encontrar a mais preciosa instrução, luz, conforto e edificação nesta grande parte do volume inspirado, é felizmente verdade; mas conseguirá tudo isto só na proporção em que é habilitada pelo ensino do Espírito a discernir o verdadeiro intento e objetivo desta parte do livro de Deus.

     "
Supor que podemos tirar proveito e conforto somente do que se refere exclusiva ou primeiramente a nós próprios, seria ter um conceito muito estreito, para não dizer egoísta, das coisas. Não podemos aprender com o Livro de Levítico? E todavia quem ousaria afirmar que se refere à Igreja?

     "Não, leitor, pode estar certo de que um estudo feito com calma, sem ideia preconcebida e com oração, da «Lei e os profetas» convencê-lo-á de que o grande tema tanto de uma como dos outros é o governo de Deus deste mundo em relação imediata com Israel. Verdade é que, através de «Moisés e os Profetas» há coisas que dizem respeito ao Senhor Mesmo. Isto é claro segundo Lucas 24:27. Mas é a «Ele Próprio» em Sua administração deste mundo, e principalmente de Israel. Se este facto não for claramente compreendido, o nosso estudo do Velho Testamento será pouco inteligente ou de nenhum proveito.

     "Poderá parecer a alguns dos nossos leitores uma afirmação exagerada afirmar que nada há acerca da Igreja propriamente dita em todos os profetas ou com efeito em todo o Velho Testamento; porém uma passagem ou duas da pena inspirada do apóstolo Paulo resolverá toda a questão para quem quer submeter-se realmente à autoridade das Sagradas Escrituras.

     "Assim em Romanos 16, lemos, «Ora, àquele que é poderoso para vos confirmar, segundo o meu evangelho e a pregação de Jesus Cristo, conforme a revelação do mistério que desde tempos eternos esteve oculto, mas que se manifestou agora e se notificou pelas Escrituras dos profetas (evidentemente do Novo Testamento) segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações para obediência da fé» (versos 25, 26).

     "Assim também em Efésios 3, lemos: «Por esta causa eu, Paulo, sou o prisioneiro de Jesus Cristo por vós, os gentios; se é que tendes ouvido a dispensação da graça de Deus, que para convosco me foi dada; como me foi este mistério manifestado pela revelação, como acima em pouco vos escrevi; pelo que, quando ledes, podeis perceber a minha compreensão do mistério de Cristo, o qual noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens como agora tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos, apóstolos e profetas (1); a saber, que os gentios são co-herdeiros de um mesmo corpo e participantes da promessa em Cristo pelo evangelho ... e demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério, que desde os séculos esteve OCULTO EM DEUS, que tudo criou; para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus» (versículos 1-10).

     "Mas não devemos prosseguir este interessantíssimo assunto da Igreja; temos apenas referido as passagens precedentes das Escrituras afim de esclarecermos o espírito do leitor quanto ao facto de que a doutrina da Igreja, tal como a ensina Paulo, não se encontra nas páginas do Velho Testamento; e portanto quando ler os profetas e encontrar as palavras «Israel», «Jerusalém», «Sião» não deve aplicá-las à Igreja de Deus, visto que se referem ao próprio povo de Israel, à semente de Abraão, à terra de Canaã e à cidade de Jerusalém (2).

     "Deus sabe o que diz; e portanto não devemos favorecer nada que se pareça com uma maneira ligeira e irreverente de manejar a Palavra de Deus. Quando o Espírito fala de Jerusalém, quer dizer Jerusalém; se quisesse referir-Se à Igreja tê-lo-ia dito. Não nos ocorreria tratar um documento humano respeitável como tratamos o volume inspirado. Aceitamos como certo que um homem sabe não somente o que quer dizer, como diz o que quer dizer; e se é assim a respeito de um pobre falível mortal, quanto mais a respeito do Deus vivo e único sábio, que não pode mentir?"

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(1) Os «profetas», na passagem acima reproduzida, são os do Novo Testamento, como é evidente pela forma de expressão. Se o apóstolo se referisse aos profetas do Velho Testamento, teria dito, «Os seus santos, profetas e apóstolos». Mas o ponto em que ele insiste é que o mistério nunca havia sido revelado até aos seus dias — que não havia sido dado a conhecer aos filhos dos homens noutros séculos — que estava oculto em Deus; não estava oculto nas Escrituras, mas na mente infinita de Deus.

(2) Estes termos referem-se evidentemente às profecias do Velho Testamento. Há passagens nas Epístolas aos Romanos e aos Gálatas em que todos os crentes são considerados como a semente de Abraão (Veja-se Rom. 4:8-17; Gál. 3:7, 9, 21; 6:18); mas isto é sem dúvida uma coisa muito diferente. Não temos revelação da «Igreja», assim propriamente chamada, nas Escrituras do Velho Testamento.

- Charles H. Mackintosh
Estudos Sobre o Livro de Números, Pág. 110-113

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