A Celebração de um Nascimento (II)

A INCARNAÇÃO
É, de forma abençoada, verdade que a natividade do nosso Senhor foi diferente do nascimento do maior dos homens. O Seu nascimento foi uma incarnação. Deus veio a este mundo “em carne”, e indubitavelmente isto deveria ser, mas raramente é, enfatizado, porém certamente não aparte do que, na própria natureza do caso, o Deus-homem veio cumprir:
“Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” ( I Tim. 1:15).
Tudo isto leva-nos novamente de volta a II Coríntios 5:16.
Não foi muito depois da Incarnação, da Crucificação, da Ressurreição, e da Ascensão do nosso Senhor Jesus Cristo que foi dado ao mundo um luminoso exemplo do que foi cumprido no Calvário.
Em Pentecostes, Pedro tinha sublinhado bem que os “últimos dias” da profecia tinham começado:
“Mas isto é o que foi dito pelo profeta Joel: E nos últimos dias acontecerá, diz Deus ...” (Actos 2:16,17).
O que é que então foi predito pelo profeta Joel? Basicamente duas coisas: que o Espírito de Deus seria derramado sobre os Seus (Acts 2:17,18), e que a ira de Deus seria derramada sobre os Seus inimigos (Versículos 19,20).
Como sabemos, o Espírito Santo foi derramado, mas não o juízo. Quando tudo estava pronto para o derramamento das taças da ira de Deus, Ele, que é “tardio em irar-Se, e grande em benignidade”, interrompeu o programa profético para salvar o Seu principal inimigo na terra, o líder da rebelião contra Deus e o Seu Cristo, Saulo de Tarso.
Do mesmo modo que os Gentios foram abandonados e espalhados sobre a face da terra em Babel, Ele agora abandonava a nação favorecida, e em pouco tempo eles foram espalhados sobre a face da terra. O que é que isto nos deixa senão um mundo de indivíduos perdidos e condenados diante de Deus? Mas:
“Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, PARA COM TODOS USAR DE MISERICÓRDIA” (Romanos 11:32).
A grande parede entre Judeus e Gentios não existe mais:
“Porquanto não há diferença entre judeu e grego; porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam.
“Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Rom. 10:12,13).
“Porque Ele [Cristo] é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio,
“… reconciliar ambos com Deus em um corpo, matando com ela as inimizades” (Efe. 2:14-16).
Segundo o programa profético foi a Cruz que fez a inimizade entre Deus e o homem, pois no Salmo 110:1 temos o Pai a dizer ao Filho:
"Assenta-te à Minha mão direita, até que ponha os Teus inimigos por escabelo dos Teus pés”.
No Salmo 2, referindo-se de novo à rebelião do homem contra Cristo, lemos que:
“Aquele que habita nos céus se rirá; o Senhor zombará deles.
“Então lhes falará na Sua ira, e no Seu furor os confundirá” (Vers. 4,5).
Ah, mas o programa profético é agora interrompido pela superabundante graça de Deus:
“Onde o pecado abundou, superabundou a graça;
“Para que, assim como o pecado reinou na morte, também a graça reinasse pela justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo nosso Senhor” (Rom. 5:20,21).
Agora a lei dá lugar à graça, e a profecia ao mistério “que desde tempos eternos esteve oculto, mas que se manifestou agora ...” (Rom. 16:25,26).
Como temos salientado, nós agora não somente não conhecemos mais os homens segundo a carne, como não conhecemos Cristo segundo a carne (II Cor. 5:16). Deus agora não está a estabelecer o Seu reino na terra; Ele está a formar o Corpo de Cristo, com uma posição e esperança nos celestiais.
Assim o apóstolo continua a dizer:
“Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (Ver. 17).
Isto não significa que para o crente em Cristo de repente todas as velhas tentações e hábitos desaparecem e tudo se torna novo, pois isto não é assim. Pelo contrário. Quando o Apóstolo diz que as coisas velhas já passaram e tudo se fez novo, ele fala do programa de Deus, e continua a explicar que neste novo programa,
“Tudo isto provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação” (Ver. 18).
No programa do Corpo de Cristo não há nenhuma Lei Mosaica que intimide, não há sacrifícios de sangue requeridos para o perdão, nem lavagens ou oblações (ofertas) - “as coisas velhas já passaram”.
“Tudo isto provém de Deus“. Foi Ele que nos reconciliou Consigo mesmo em Cristo:
“Isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pós em nós a palavra da reconciliação” (Ver. 19).
Através da morte de Cristo, Deus passou a assumir o papel de Salvador (I Tim. 1:1; Tito 1:2,3), e a porta da graça foi amplamente aberta para todos entrarem pela fé.
Quão maravilhoso!
“Porque ..., sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho” (Rom. 5:10).
Ele não pede nada do homem. Pelo contrário, em infinita graça, toma em consideração a morte de Seu Filho como pagamento pelos pecados do homem, pois tanto quanto é Seu interesse, o mundo foi reconciliado com Ele.
E agora deu-nos “o ministério da reconciliação”. Esta é a nossa “grande comissão” (II Cor. 5.18,19) e explica porque é que o livro dos Actos termina com Paulo, embaixador de Deus, na prisão. Se um dos embaixadores da América fosse lançado na prisão por um outro governo, os Estados Unidos sem dúvida que declarariam guerra a esse país no dia seguinte, porém Deus não o fez. Ele deixou Paulo na prisão, e é aqui neste ponto que termina o registo do livro dos Actos. Ele também nos deixa aqui, em território inimigo.
Assim ele explica:
“Deus estava em Cristo [isto é, no Calvário] reconciliando Consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação” (Ver.19).
Que maravilhoso podermos ir ao mais vil pecador, no nome do nosso Senhor glorificado, e dizer-lhe que uma amnistia foi proclamada, que Deus, por ora, não está a imputar ao homem os seus pecados, mas que ele pode ser reconciliado com Deus e Cristo, pela graça por meio da fé.
E é assim que o apóstolo termina esta passagem: como alguém que se ergue aqui no lugar de Cristo, agora altamente exaltado no céu, dizendo,
“De sorte que somos embaixadores da parte de Cristo, como se Deus por nós rogasse. Rogamo-vos, pois, da parte de Cristo, que vos reconcilieis com Deus.
“Àquele que não conheceu pecado, O fez pecado por nós; para que n’Ele fôssemos feitos justiça de Deus” (Vers. 20,21).
Assim, apesar de nós, na verdade, nos regozijarmos no facto do nosso Senhor ter nascido, como um bebé muito pequeno, na raça humana a fim de se tornar um de nós, conhecemo-Lo como o Deus-homem exaltado “acima de tudo”, como grande dispenseiro de graça.
(FIM)



