O Evangelho do Reino (2)

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O Conteúdo do Evangelho do Reino

     O que os ouvintes de João e do Senhor Jesus Cristo precisavam de crer? Vários textos das Escrituras facultam a resposta.

     “E, chegando Jesus às partes de Cesareia de Filipo, interrogou os seus discípulos, dizendo: Quem dizem os homens ser o Filho do homem? E eles disseram: Uns João Batista, outros Elias, e outros Jeremias ou um dos profetas. Disse-lhes ele: E vós, quem dizeis que eu sou? E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo. E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não revelou a carne e o sangue, mas Meu Pai, que está nos céus” (Mateus 16:13-17).

     Marta expressou esta mesma fé ao Senhor Jesus Cristo por ocasião da morte de Lázaro:

      “Disse-lhe Jesus: Teu irmão há de ressuscitar. Disse-lhe Marta: Eu sei que há de ressuscitar na ressurreição do último dia. Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá. Crês tu isto? Disse-lhe ela: Sim, Senhor, creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo” (João 11:23-27).

     Quando o Senhor Jesus Cristo iniciou o Seu ministério, Ele encontrou Natanael. João registou o acontecimento:

     “No dia seguinte quis Jesus ir à Galileia, e achou a Filipe, e disse-lhe: Segue-me. E Filipe era de Betsaida, cidade de André e de Pedro. Filipe achou Natanael, e disse-lhe: Havemos achado aquele de quem Moisés escreveu na lei, e os profetas: Jesus de Nazaré, filho de José. Disse-lhe Natanael: Pode vir alguma coisa boa de Nazaré? Disse-lhe Filipe: Vem, e vê. Jesus viu Natanael vir ter com ele, e disse dele: Eis aqui um verdadeiro israelita, em quem não há dolo. Disse-lhe Natanael: Donde me conheces tu? Jesus respondeu, e disse-lhe: Antes que Filipe te chamasse, te vi eu estando tu debaixo da figueira. Natanael respondeu, e disse-lhe: Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei d’Israel. Jesus respondeu, e disse-lhe: Porque te disse: Vi-te debaixo da figueira, crês? coisas maiores do que estas verás. E disse-lhe: Na verdade, na verdade vos digo que daqui em diante vereis o céu aberto, e os anjos de Deus subirem e descerem sobre o Filho do homem” (João 1:43-51).

     O que estes versículos revelam é que o conteúdo da fé era a crença que Jesus era o Messias prometido, o rei de Israel (daí a mensagem do reino). Ou seja, eles criam na identidade do Senhor Jesus Cristo - que Ele era o Messias, o Filho de Deus.

     Quando Filipe encontrou o eunuco etíope em Atos 8, o eunuco estava de saída de  Jerusalém no seu caminho de regresso à Etiópia. Enquanto viajava, ele lia Isaías 53. Filipe viu-o lendo e o Espírito Santo fê-lo chegar à sua carruagem. O etíope interrogou Filipe sobre a passagem que ele estava a ler, a saber, se o profeta falava de si mesmo ou de outro. De acordo com Lucas:

     “Então Filipe, abrindo a sua boca e começando nesta escritura, lhe anunciou a Jesus. E, indo eles caminhando, chegaram ao pé de alguma água, e disse o eunuco: Eis aqui água; que impede que eu seja batizado? E disse Filipe: É lícito, se crês de todo o coração. E, respondendo ele, disse: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus. E mandou parar o carro, e desceram ambos à água, tanto Filipe como o eunuco, e o batizou (Atos 8:35-38).

     Depois de Saulo se converter na estrada para Damasco, ele foi para a casa de Judas, onde ficou até que se recuperar da cegueira e do choque da experiência penosa por que passou. Lucas registou:

      “E logo lhe caíram dos olhos como que umas escamas, e recuperou a vista; e, levantando-se, foi batizado. E, tendo comido, ficou confortado. E esteve Saulo alguns dias com os discípulos que estavam em Damasco. E logo nas sinagogas pregava a Jesus, que este era o Filho de Deus” (Atos 9:18-20).

     Paulo foi salvo sob o Evangelho do Reino. Como resultado, ele pregou esse evangelho - que Jesus era o Filho de Deus (At 9.20). Só mais tarde Paulo recebeu um novo Evangelho (estranho aos Doze) do Senhor ascendido. O Evangelho de Paulo focava-se na obra de Cristo, a saber, que Cristo morreu pelos nossos pecados, foi sepultado e ressuscitou dos mortos (1 Coríntios 15.1-4). Foi por isso que Paulo chamou a este Evangelho de “o meu Evangelho” (Romanos 2.16, 16.25; 2 Timóteo 2.8).

 

O Cumprimento do Evangelho do Reino

     Nós temos inúmeras declarações das Escrituras – desde os lábios de João Batista aos do Senhor Jesus Cristo, - dizendo que o reino de Deus estava próximo (Mt 3.2; Mateus 4.17; Marcos 1.15).

     “Mas, se eu expulso os demónios pelo Espírito de Deus, é conseguintemente chegado a vós o reino de Deus. Ou, como pode alguém entrar em casa do homem valente, e furtar os seus bens, se primeiro não manietar o valente, saqueando então a sua casa?” (Mateus 12:28,29).

     Na passagem acima, Jesus deixou claro que o reino tinha chegado porque Ele estava a expulsar demónios pelo Espírito Santo. Ele quis dizer que o reino tinha chegado em algum tipo de manifestação espiritual? Tal visão contradiz centenas de passagens bíblicas. Porém, Deus não é o autor da confusão (1 Coríntios 14,33). Por conseguinte, o Senhor Jesus Cristo quis dizer algo diferente.

     Para entender as palavras do Senhor, precisamos de entender o pensamento judaico sobre o reino. Durante centenas de anos, Deus revelou aos profetas judeus a vinda de um reino. Era terreno, não celestial ou “espiritual”[1]. Nesse reino, o Messias reinaria como Rei sobre a nação de Israel, bem como sobre todo o mundo (Lc 1,32 cf. 1,67-79; Zacarias 14.9). Na sua essência, o reino estava onde o rei estava.

     Na passagem seguinte, Lucas diz o mesmo. No entanto, esta passagem tem sido tão mal interpretada e abusada por teólogos e pregadores que o seu sentido normal tornou-se quase ininteligível. O resultado é uma confusão enorme.

     “E, interrogado pelos fariseus sobre quando havia de vir o reino de Deus, respondeu-lhes, e disse: O reino de Deus não vem com aparência exterior. Nem dirão: Ei-lo aqui, ou, Ei-lo ali; porque eis que o reino de Deus está entre vós” (Lucas 17:20,21).

     A pergunta dos fariseus era direta. Eles queriam saber quando é que o reino profetizado chegaria. Como é que o Senhor Jesus Cristo respondeu? A tradução acima pode ser melhorada. O texto grego diz o seguinte:

     Οὐκ ἔρχεται ἡ βασιλεία τοῦ θεοῦ μετὰ παρατηρήσεως

     Uma tradução melhor seria: “o reino de Deus não vem com observação minuciosa”. O Senhor Jesus Cristo quis dizer que este reino não podia ser visto - que era invisível? Dificilmente. O Senhor estava a ser propositadamente enigmático. Estes fariseus não queriam a verdade. O interesse deles era encontrar algo que eles pudessem usar para condenar Jesus. Ele sabia disso e isso explica a Sua resposta. Porque é que o Senhor Jesus Cristo começou a ensinar em parábolas? Ele mudou a instrução simples para parábolas por uma razão primária: esconder a lição espiritual dos que desejavam permanecer espiritualmente cegos (Mateus 13.10-17). A resposta do Senhor a estes fariseus era que não era necessário forçar os olhos para ver o reino. Não era exigida "observação minuciosa", "observação atenta" ou "exame meticuloso". A passagem seguinte sustenta esse significado. Diz:

     οὐδὲ ἐροῦσιν ἰδοὺ ὧδε ἤ ἐκεῖ ἰδοὺ γὰρ ἡ βασιλεία τοῦ θεοῦ ἐντὸς ὑμῶν ἐστιν

     O que é que o Senhor Jesus Cristo quis dizer com a frase ἐντὸς ὑμῶν? Traduções que traduzem "dentro de vós" e interpretam a frase como "dentro do coração de alguém" não entendem o objetivo nem o propósito do ministério e das reivindicações do Senhor. A frase “entre vós” não significa “dentro de vós”, “dentro do seu coração”, mas “no seu meio”, sim, “entre vós”. O ponto central do reino é onde o Rei está. O reino de Deus certamente não estava no coração destes fariseus. Eles odiavam-No e queriam desacreditá-lo e destruí-lo. A maioria perde o sarcasmo de Lucas nesta passagem. Lucas estava a indicar que o reino estava no meio deles - na pessoa do Rei. Nenhuma tensão ocular era necessária para ver o reino - Ele e o reino estavam bem na frente deles!

     “E, em qualquer cidade em que entrardes, e vos receberem, comei do que vos puserem diante. E curai os enfermos que nela houver, e dizei-lhes: É chegado a vós o reino de Deus. Mas em qualquer cidade, em que entrardes e vos não receberem, saindo por suas ruas, dizei: Até o pó, que da vossa cidade se nos pegou, sacudimos sobre vós. Sabei, contudo, isto, que já o reino de Deus é chegado a vós” (Lucas 10:8-11).

     A passagem acima mostra mais uma vez que o reino tinha chegado. Mas o que dizer neste caso? Os Seus discípulos também se interrogavam sobre o assunto. Mateus registou:

     “E, estando assentado no Monte das Oliveiras, chegaram-se a Ele os seus discípulos em particular, dizendo: Diz-nos, quando serão essas coisas, e que sinal haverá da tua vinda e do fim do mundo?” (Mateus 24:3).

     Em Mateus 24, O Senhor Jesus Cristo fez a Sua grande dissertação sobre o fim dos tempos com base nas questões dos Seus discípulos. Na Sua resposta, o Senhor fez a seguinte declaração sobre o Evangelho do Reino:

     “E este Evangelho do Reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as nações, e então virá o fim” (Mateus 24:14).

     A mensagem central do Evangelho do Reino era que Deus estava prestes a estabelecer o Seu reino na Terra. Neste reino, o Messias reinaria como o maior Filho de David. Os concertos de Israel - Abraâmico, da Terra, Mosaico, Davídico e Novo - seriam cumpridos. Os versículos anteriores à declaração do Senhor sobre o Evangelho do Reino indicavam grande tumulto - engano, falsos messias, guerras, perseguição, traição e ilegalidade. O Senhor Jesus Cristo declarou que aquele que permanecesse até ao fim seria salvo. Esta salvação não era simples salvação espiritual (salvação do pecado), mas salvação física. Se alguém sobrevivesse àquele tempo terrível, viveria (seria salvo) e entraria no reino.

     O Evangelho do Reino é sinónimo do que ficou conhecido como “a grande comissão”. Em Mateus 28.18-20, o Senhor deu aos seus discípulos a incumbência a seguir. Mateus registou:

     “E, chegando-Se Jesus, falou-lhes, dizendo: É-Me dado todo o poder no céu e na terra. Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que Eu vos tenho mandado; e eis que Eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém” (Mateus 28:18-20).

     O Senhor Jesus Cristo disse aos Seus discípulos que Ele estaria com eles até ao fim dos tempos. Obviamente, o "fim dos tempos" não chegou. Portanto, o Senhor estava a falar de judeus que confiariam n’Ele. Uma geração futura de judeus crerá em Jesus como o Messias (na Sua identidade) e cumprirá a “grande comissão” proclamando o Evangelho do Reino ao mundo inteiro. Depois disso, virá o fim.

     A “comissão” da Igreja (o corpo de Cristo) é o “Evangelho da Graça de Deus”, não o “Evangelho do Reino”. Nós não completaremos a “grande comissão” porque não podemos. A Igreja está sob ordens diferentes. Deus salvou e comissionou Paulo para ser o “Apóstolo dos Gentios” (Romanos 11.13; Gálatas 2.8; 1 Timóteo 2.7) e deu-lhe a ele o “Evangelho da Graça de Deus” (1 Coríntios 15.1-4). A “comissão” da Igreja não é o Evangelho do Reino ou Mateus 28.18-20. A "comissão" da Igreja é 2 Coríntios 5,17-21.

 

Conclusão

     O “Evangelho do Reino” foi proclamado por João Batista, Jesus e os Doze. Eram as “boas notícias” do reino vindouro e requeriam arrependimento, batismo e fé que Jesus era o Messias profetizado. Foi proclamado pelos judeus apenas aos judeus (com algumas exceções, como a mulher cananeia (Mateus 15.21-28) e o centurião romano (Mateus 8.5-13). A pregação deste Evangelho foi suspensa devido à incredulidade judaica. Mas Deus reatá-la-á quando o corpo de Cristo, a Igreja, ficar completo, (no arrebatamento). Uma geração futura de judeus (João 10.16) irá abraçar e crer e cumprir Romanos 11.26 Até então, o nosso evangelho é o “Evangelho da Graça de Deus”. (Atos 20.24; 1 Coríntios 15.1-4).

_________________________________

[1] A frase “reino dos céus” é exclusiva de Mateus e usada nos seguintes versículos: Mateus 3.2, 4.17, 5.3, 10, 19-20, 6.10, 7.21, 8.11, 10.7, 11.11-12, 13.11, 24. A frase "Reino dos céus" é um genitivo da fonte que significa que a fonte do reino era o céu. Não é um genitivo locativo (ou seja, o reino não está localizado no céu) ou um genitivo descritivo ("celestial" como em um estado de espírito).

 

- Don Samdahl
(FIM)

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