28-03-08 - Grã-Bretanha: Criacionismo está a avançar
Grupos que se opõem a Darwin ganham terreno nas escolas.
LONDRES – Após o culto de Domingo em Westminster Chapel, onde os adoradores foram exortados a empreender o espírito da “cultura de guerra” fomentado por Sir Winston Churchill durante a II Guerra Mundial, o taxista James McLean emitiu o seu veredicto sobre a teoria da evolução de Charles Darwin.
"A Evolução é uma mentira, e está a ser ensinada nas escolas como sendo um facto, estando a conduzir os nossos miúdos na direcção errada," disse McLean, numa conversa no exterior. "Porém agora pessoas como Ken Ham estão a fazer em pedaços a teoria da evolução."
Os Europeus têm visto primariamente o conflito entre evolucionistas e criacionistas como um fenómeno Americano, mas recentemente este atravessou o Atlântico desencadeando combates em Itália, Alemanha, Polónia e, notavelmente, na Grã-Bretanha, onde Darwin nasceu e publicou o seu clássico em 1859.
Os defensores de Darwin estão a voltar à luta. Em Outubro, o Conselho da Europa, autoridade protectora dos direitos humanos, condenou todas as tentativas para se trazer o criacionismo às escolas da Europa. Acusou as “teorias” que se baseiam na Bíblia e “dogmas religiosos” de ameaçar enfraquecer as “sãs práticas educacionais.”
As escolas estão cada vez mais a concentrar-se nesta batalha pela conquista de corações e mentes.
Um ramo Britânico da organização Respostas em Génesis, que partilha um website com a sua contraparte Americana, tem conseguido introduzir o ponto de vista criacionista nas aulas de ciências num significativo número de escolas apoiadas pelo estado na Grã-Bretanha, disse Monty White, director do grupo.
"Nós vamos às escolas cerca de 10 a 20 vezes por ano e levamos os estudantes a questionarem o ensino que recebem sobre a teoria evolucionista," disse White, que fundou o ramo Britânico há sete anos. "E deixamos-lhes na biblioteca uma caixa de livros."
O criacionismo aqui ainda é um assunto marginal comparado com o seu impacto no debate cultural e político nos Estados Unidos. Mas o despontar do fervor é parte do avanço do Cristianismo em muitas partes da Europa. Os Cristãos dizem que as suas fileiras estão a engrossar devido à repulsa do hedonismo e do materialismo da sociedade moderna. Ao mesmo tempo, a assistência nas igrejas tradicionais está a declinar.
"As pessoas andam em busca de espiritualidade," disse White numa entrevista no seu escritório em Leicester, a 145 km a norte de Londres. "Penso que elas se fartaram de não encontrar a verdadeira felicidade. Elas conseguem obter um carro maior, mas isso não as torna mais felizes. Elas embebedam-se, mas na manhã seguinte estão com ressaca. Eles drogam-se, mas as drogas afundam-nas. Porém o que elas encontram no Cristianismo é perdurador."
Outras organizações Britânicas têm-se associado nesta cruzada. Um grupo chamado Verdade na Ciência tem enviado milhares de DVD’s não solicitados, a todas as escolas na Grã-Bretanha, argumentando que a humanidade é resultado de um “projecto inteligente”, não de evolução Darwiniana.
Ademais, a AH Trust (Confiança), uma organização de caridade, anunciou ter planos para levantar dinheiro a fim de construir um parque temático Cristão no noroeste da Inglaterra com um estúdio de televisão com 5.000 lugares sentados para ser usado na produção de filmes de inspiração Cristã. E várias estações de TV estão edicadas a temas Cristãos.
Toda esta actividade tem animado os espíritos em Westminster Chapel, uma igreja evangélica com 165 anos que não está associada à vizinha Westminster Abbey, onde Darwin está sepultado.
Greg Haslam diz aos 150 crentes na Chapel (termplo) que eles estão num conflito com o secularismo que só pode ser ganho se derem ouvidos à exortação de Churchill para nunca se ceder.
"A primeira coisa que tendes de fazer é tomardes consciência de que estamos em guerra, e identificar o inimigo, e aprender a derrotá-lo,” disse ele.
Há um sentimento, no interior do templo, que os Cristãos estão a resistir com sucesso à tendência para uma Grã-Bretanha completamente secular.
"As pessoas têm-se estado a afastar de Deus; isso não é de agora," disse o congregante Chris Mullins, funcionário público. "Mas a igreja cristã parece estar a crescer e eu estou muito animado com isso. Numa sociedade muito secular muitas pessoas estão a voltar-se para Deus."
O currículo escolar geralmente defende que a teoria de Darwin tem o suporte de muitas descobertas científicas que agora podem ser consideradas como factos. Mas Mullins crê que o criacionismo também merece ser ouvido nas salas de aulas.
"Observando as evidências, o criacionismo pelo menos parece uma “teoria” digna de ser examinada,” disse ele. “Pessoalmente, penso que é verdade e penso que a verdade acabará por triunfar. É apenas uma questão de tempo.”
Terry Sanderson, presidente da Sociedade Secular Nacional da Grã-Bretanha, um grupo fundado em 1866 para limitar a influência dos líderes religiosos, disse que os grupos que advogam uma interpretação literal da Bíblia estão a fazer progressos.
"O criacionismo está a trepar nas escolas," disse ele. "Há uma pressão constante para fazer vingar estas ideias nas escolas."
A tendência extravasa o Cristianismo evangélico. Sanderson disse que o governo Britânico está a financiar cerca de 100 escolas Islâmicas mesmo apesar delas ensinarem a versão Corânica do criacionismo. Ele disse que o governo teme impor a teoria da evolução no currículo escolar para que isso não seja considerado uma medida anti-Islâmica.
O Conselho da Europa insurgiu-se no outono passado depois de Harun Yahya, um proeminente criacionista muçulmano na Turquia, ter tentado colocar o seu extenso livro de 600 páginas, "O Atlas da Criação", nas escolas públicas em França, Suíça, Bélgica e Espanha.
“Estas tendências são muito perigosas,” disse numa entrevista Anne Brasseur, autora do relatório do Conselho da europa.
Brasseur disse que os recentes combates na Itália e na Alemanha ilustram a táctica dos criacionistas. Ela disse que as escolas Italianas receberam ordem para parar com o ensino da evolução quando Silvio Berlusconi era Primeiro-ministro, apesar do decreto ter tido pouco efeito prático. Na Alemanha, disse ela, um ministro da educação do estado permitiu que o criacionismo fosse ensinado abreviadamente nas aulas de biologia.
A ruptura entre a teologia e a evolução na Europa é relativamente recente. Durante muitos anos as pessoas que defendiam pontos de vista evangélicos também apoiavam a corrente principal da teoria científica, disse Simon Barrow, co-director da Ekklesia, grupo de investigação de orientação Cristã sedeado em Inglaterra. Ele disse que a divisão foi importada dos Estados Unidos na década passada.
”Há muita influência Americana, e há muitos recursos morais, políticos e financeiros a fluir dos EUA para cá,” disse ele. “Agora temos mais grupos religiosos extremistas a tentarem conseguir um ponto de apoio.”
Em alguns casos, as escolas têm-se tornado campos de batalha. Richard Dawkins, o biólogo e escritor da Universidade de Oxford, autor do best-seller internacional do ano passado “Deus, um Delírio,” faz frequentemente palestras dirigidas a estudantes sobre as “maravilhas da evolução” só para descobrir que os pontos de vista dos estudantes já estão modelados pelo lobby criacionista.
”Penso que é tão triste as crianças serem enganadas por esses mitos de segunda categoria,” disse ele.
“A teoria da evolução é uma das peças mais poderosas que o pensamento científico produziu e a evidência disso é esmagadora. Penso que o criacionismo é pernicioso porque, se não se conhece muito, soa bastante plausível e é fácil de entrar nas escolas e de subverter as crianças.”
White, director da organização Respostas em Génesis Britânica, está bem ciente de que o programa escolar do grupo é contencioso. O grupo tem removido informação sobre si do seu website para evitar pessoas antagónicas.
O grupo opera uma loja com 100.000 Euros em valores como CD’s, livros e banda desenhada que promove o criacionismo, mas ele diz que só envia palestrantes e materiais às escolas que convidam a organização Respostas em Génesis para fazer uma apresentação.
White, com 63 anos de idade, disse que foi educado ateu e, depois de obter doutoramento em Química, abraçou a fé Cristã em 1964.
Ele diz que quando lhe pedem para falar a turmas de ciências, ele desafia a exactidão da datação radioactiva que revela que o mundo tem milhares de milhões de anos e diz que a Bíblia tem uma descrição mais exacta sobre o modo como a humanidade começou. Pessoalmente, ele crê que a Terra tenha entre 6.000 e 12.000 anos de idade.
Usualmente apercebo-me que a discussão decorre sobre a ciência, ciência e ciência, e depois, quando a lição termina, um ou dois alunos dizem, ‘Podemos falar sobre outras coisas?’ e sento-me com eles e normalmente eles querem falar sobre o Cristianismo,” disse ele. “Eles querem saber, porque é que creio em Deus, porque creio na Bíblia e como posso ter a certeza de que ela é a Palavra de Deus.
Dawkins sente o efeito. Ele disse que fica desanimado quando visita as escolas e obtém questões dos estudantes que obviamente têm sido influenciadas por material da organização Respostas em Génesis. “Eu recebo continuamente os mesmos pontos bastante estúpidos, oriundos directamente dos seus panfletos,” disse ele.
White está a preparar a visita de Ken Ham,que pregará em Westminster Chapel nesta Primavera. Entretanto, ele está satisfeito com os pequenos grupos que advogam a ciência da criação e se reunem agora regularmente em Oxford, Edinburgh, Northampton e outras cidades Britânicas.
O movimento criacionista está claramente a crescer,” disse ele. “Há mais grupos do que havia há cinco anos. Há mais pessoas como eu a sair para palestrar sobre a matéria, e há mais interesse. Há grupos destes a formarem-se por toda a parte.”
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