26-01-09 - Bíblia mudou vida de Ingrid Betancourt
O jornal O Público publicou uma entrevista de Ingrid Betancourt que tem como título: ”No inferno da selva não podemos aceitar um deus qualquer”.
Transcrevemos aqui o seguinte excerto:
Quando estava presa, pediu uma enciclopédia, mas deram-lhe uma Bíblia que mudou a sua vida. Pode contar-nos um pouco acerca da transformação espiritual, que sentiu quando estava na selva?
“Fui raptada a 23 de Fevereiro, e a 23 de Março o meu pai morreu. O meu pai era, e ainda é, o amor da minha vida. A forma como descobri, alguns meses depois, foi terrível. Foi um grande choque, porque quando sentimos que…(começa a chorar e fica calada). Sempre me senti abençoada, mimada pela vida. Quando tudo isto me aconteceu - o meu rapto, a morte do meu pai, a solidão da minha mãe - eu tinha duas opções: negar a existência de Deus, e pensar que tudo acontecia por acaso e sem razão, um caos sem explicação ou respostas; ou encontrar Deus. No inferno da selva não podemos aceitar um deus qualquer. O Deus ritual da nossa infância já não é suficiente. Não chega acreditar que Deus é amor, ou que não o podemos explicar. Na selva precisamos de um Deus racional. Se nossa fé não for racional, se não tivermos a certeza de que Deus existe, não conseguimos iniciar uma relação com Ele. A tradição não chega. A religião Católica não nos incentiva a ler a Bíblia, como se fôssemos intelectualmente diminuídos. É muito difícil explicar, mas o que estou a tentar dizer é que percebi, ao ler a Bíblia, que Deus não é energia, ou luz, ou partículas de gás no cosmos; Deus é humano. Por outras palavras, a sua relação connosco é uma relação de palavras, e penso que isso é fundamental: perceber que somos seres de palavras. Descobri um Deus com sentido de humor, com um sentido de autoridade, um Deus que educa, um Deus que ama, mas, acima, de tudo, um Deus que é capaz de tudo. Isto significa que Ele podia ter feito, em vez de seres humanos, robôs perfeitos programados para fazerem o bem. Por isso, a questão é: por que é que Ele nos fez pessoas com livre-arbítrio, não robôs? A resposta é bonita: um robô pode ser programado para amar, mas se não tiver a liberdade de não o fazer, o seu amor não tem valor”.