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07-12-08 - DNA revela o nosso (Portugueses e Brasileiros) ancestral comum aos Judeus

isaac_abravanel.jpg     Que muitos portugueses e brasileiros têm ancestrais judeus e mouros convertidos1 ao Cristianismo - os "cristãos-novos"- é algo conhecido pela história e pela presença de sobrenomes como Pereira ou Oliveira. Cientistas da Europa e de Israel, ao estudarem o cromossoma masculino Y, demonstraram agora o grau dessa presença na península Ibérica.

     O estudo revelou que, em média, os espanhóis e os portugueses têm 19,8% de genes de ancestrais judeus sefarditas2 e 10,6% de ancestrais norte-africanos. Em alguns locais, como o sul de Portugal, a mistura génica de judeus chegou a 36,3%.

     Mais do que reflectir a ocupação moura de partes da península, a pesquisa revelou o impacto da conversão forçada de muitos muçulmanos e judeus após a Reconquista cristã.

     O estudo, chefiado por Mark A. Jobling, da Universidade de Leicester, Reino Unido, foi publicado quinta-feira na revista "American Journal of Human Genetics". "O cromossoma Y foi estudado porque, de todas as partes do nosso genoma, ele mostra a maior diferenciação geográfica entre populações e, por isso, pode-nos permitir ver os efeitos de migrações na península", disse Jobling.

     Os investigadores verificaram a frequência dos chamados haplogrupos (mutações de genes do cromossoma Y) entre os homens dos dois lados do estreito de Gibraltar e entre judeus sefarditas que vivem em Israel e em outros locais do Mediterrâneo.

     Entre portugueses e espanhóis, o haplogrupo mais comum foi o chamado R1b3 * -presente em 55% dos 1.140 espanhóis e portugueses testados. Já entre os norte-africanos o mais comum era o E3b2 (54% entre 361 cromossomas testados); entre os sefarditas nenhum haplogrupo predominou, mas três deles tiveram cada um frequências em torno de 15% entre 174 cromossomas --J2, J*(xJ2) e G.

     "Nós também descobrimos traços das invasões norte-africanas no DNA mitocondrial, transmitido por mulheres", complementa outro autor do estudo, Francesc Calafell, da Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona, Espanha.

     No fim do século 15, cerca de 160 mil judeus espanhóis foram expulsos. Muitos deles foram parar a Portugal. Segundo o historiador britânico Charles Boxer, "judeu" e "português" eram praticamente sinónimos no imaginário popular espanhol no século XVII. Boxer lembra que um administrador eclesiástico no Rio de Janeiro chegou a escrever ao rei espanhol protestando contra essa prática espanhola de associar o português ao judeu.

     Entre 1500 e 1960, o Brasil recebeu 5 milhões de imigrantes europeus, dos quais cerca de 2,9 milhões da península Ibérica - 2,2 milhões de Portugal e 700 mil da Espanha.

     Este estudo tem interesse para os portugueses e brasileiros porque representa a caracterização de uma das nossas principais raízes.

     O entanto, e apesar de tudo isto, é bom saber que

     “... todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus. Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo. Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gál. 3:26-28).

1 Em 1497, os judeus que viviam em Portugal foram forçados pelo rei D. Manuel I a converter-se ao catolicismo para evitar a consumação do decreto de expulsão a que se havia comprometido, como condição para o casamento com a filha dos Reis Católicos de Espanha.

Os judeus israelitas chamam-lhes "Bnei Anussim", que significa, na língua hebraica, "filhos - ou descendentes - dos forçados". Em Portugal são popularmente conhecidos como "marranos", expressão pejorativa e injuriosa que significa porco e excomungado.

2 Sefarad é o nome hebraico que designa a Península Ibérica e sefaradí ou sefardita é o nome dado ao judeu oriundo da Espanha ou de Portugal.


Nota:
Isaac Abravanel, na foto, foi um pensador judeu português (Lisboa, 1437 - Veneza, 1508), pai do célebre filósofo renascentista Judas Abravanel, mais conhecido por Leão Hebreu. Foi ministro de D. Afonso V e esteve também ao serviço de Fernando o Católico até à expulsão (1492) dos judeus de Espanha. Escreveu comentários a vários livros da Bíblia e da Torah e obras de natureza filosófica como Pináculo da Fé (Amesterdão, 1505) e Forma dos Elementos (Salamanca, 1557).
Figura muito esquecida entre nós, no plano internacional ainda é referência obrigatória nos estudos de exegese bíblica e de pensamento judaico medieval, sendo debatida a sua possível influência sobre a obra de Leão Hebreu.

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