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17-03-17 - Como a Internet está a mudar a forma do culto

Bíblia em papel versus digital

     A quase omnipresença de smartphones e das redes sociais tem vindo a mudar o comportamento das pessoas em todo o mundo. Isso também atinge a forma como as pessoas cultuam. Vários segmentos religiosos estão a adotar as tecnologias on-line para tornar mais fácil as pessoas comunicarem as suas ideias e expressarem a sua devoção.

     Segundo Pete Phillips, diretor do Centro de Pesquisa de Teologia Digital da Universidade Durham, no Reino Unido, “a tecnologia está a moldar as pessoas religiosas e a mudar seu comportamento”. Pessoalmente, ele já experimentou isso. Lembra que em 2008 os crentes eram impedidos de deixar os telemóveis ligados durante os cultos. Hoje, muitos ministérios insistem para que as pessoas os mantenham ligados e cresce o número de igrejas que disponibiliza wi-fi.

     Aplicativos como o YouVersion já substituíram as tradicionais Bíblias de capa preta. Ele é o mais popular do tipo, com mais de 260 milhões de utilizadores em todo o mundo. “Uma das primeiras coisas que os cristãos fizeram com o computador foi colocar a Bíblia em formatos digitais”, explica Phillips. Essas Bíblias digitalizadas agora são alcançadas em segundos..

     De acordo com a igreja que desenvolveu o YouVersion, as pessoas gastaram mais de 235 bilhões de minutos a usar o aplicativo e destacaram 636 milhões de versículos bíblicos. Mas ler a Bíblia nesse formato está, inclusivé, a mudar o modo como as pessoas veem as Escrituras.

     Phillips, que lidera um grupo de pesquisas sobre o assunto, assegura: “Se pegar pela primeira vez numa Bíblia impressa em papel, pode parecer algo muito grande e complicado. Mas aprenderá que Apocalipse é o último livro e Génesis é o primeiro, como os Salmos bem no meio”. Porém, defende o estudioso, “Na versão digital não tem nada disso, não conhece os limites. Não precisa ficar folheando, vai direto para onde pediu para ir, e perde a noção do que vem antes ou depois.”

     Entre as primeiras conclusões dos seus estudos, ele destaca que a maneira como as Escrituras são lidas pode influenciar na maneira como são interpretadas. Por exemplo, já ficou evidenciado que o texto lido npos écrãs geralmente é visto de modo mais literal que o que é lido nos livros.

     As características estéticas da leitura afetam a perceção como um todo. “Quando se está diante de um ecrã, tende a concentrar-se mais na informação”, diz Phillips. “É uma leitura simples, que não combina com a Bíblia. Acaba por ler o texto como se fosse a Wikipedia, em vez de enxergar um texto sagrado.”

Igrejas na palma da mão

     Ao mesmo tempo, outra prática cristã está a sofrer alterações mais drásticas. Impulsionada pela disseminação dos media sociais e pela descentralização da atividade espiritual, surgem as igrejas na palma da mão.

     Para muitos, já não é necessário pôr os pés num templo. Nos Estados Unidos, entre um quinto e um quarto dos cristãos raramente ou nunca frequentam reuniões cristãs semanalmente, de acordo com uma pesquisa realizada pelo Pew Research Center.

     Aplicativos e perfis dos media sociais que mencionam versículos da Bíblia ou vídeo curtos permitem uma expressão privada de fé, que ocorre entre a pessoa e o seu telefone. Essa capacidade de escolher significa que eles podem evitar facilmente o contacto com uma doutrina que não os atrai.

     “Um novo tipo de cristianismo modificado para a era digital está a surgir”, insiste Phillips. Esta nova forma de espiritualidade foi identificada pela primeira vez por sociólogos em 2005, mas foi extrapolada pela popularização da internet. “As pessoas estão a procurar uma experiência espiritual mais personalizada”, diz Heidi Campbell, da Universidade Texas A & M, que estuda religião e cultura digital.

     Mas isso não ocorre sem problemas. Para os eruditos, as pessoas preferem apegar-se aos aspectos morais da Bíblia, em “fazer o bem”, em vez de se prenderam à questão sobrenatural e à noção que o Universo é controlado por um líder todo-poderoso. Poderia ser classificada como “deísmo terapêutico moralista”, pois valoriza somente porções do ensino milenar.

     Os mais jovens acabam por desenvolver uma visão genérica de Deus em vez de pensarem num Deus que intervém. “Eles preferem falar de Deus do que de Jesus, porque Deus não é específico. Afinal, é invisível e parece estar preocupado que todos sejam felizes enquanto seguem as suas vidas, mas Jesus não, pois parece entrar e interferir em tudo”, descreve Philips.

     Partilhar versículos da Bíblia nas redes sociais permite que os crentes acabem por fazer leituras aleatórias, que não estão ligadas. É algo bem diferente comparado com o ato de se sentarem e ouvirem um ministro escolher o que vai ouvir todos os domingos.

     Não é por acaso que os versículos da Bíblia estão sujeitos a “concursos de popularidade”. Por exemplo, anualmente o YouVersion revela quais os textos mais populares, que foram tidos como favoritos e partilhados nas redes sociais. Frequentemente são aqueles que refletem os o crescimento da visão propagada no deísmo terapêutico moralista.

     A maioria referem-se a coisas como vencer problemas ou lidar com ansiedade e frustração, por exemplo – em vez de promover a glória de Deus. As crenças religiosas “selecionadas” não são novas. Mas está mais fácil do que nunca criar uma fé individualizada. “A Internet e as redes sociais ajudam as pessoas a fazer isso de maneiras mais concretas”, diz Campbell.

     “Nós temos mais acesso a mais informações, mais pontos de vista e podemos criar um ritmo espiritual e um caminho mais personalizado. A vida digital é uma comunicação de duas vias. As pessoas vêm com uma certa expectativa de como a comunidade responde e uma sensação maior de liberdade. As instituições religiosas precisam de se adaptar ou perderão espaço”, assevera.

     Isso não é novidade, a fé cristã é boa em se adaptar. O Cristianismo tem se reinventado por quase 2.000 anos. Dos rolos de pergaminho com apenas parte das Escrituras e reuniões secretas com meia dúzia de seguidores no primeiro século a megatemplos e Bíblia nas redes sociais quase dois milénios depois, as circunstâncias sempre forçaram mudanças. O futuro depende de como a igreja vai responder a isso.

- in BBC

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