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30-06-2026 - Povos da Sibéria deixam xamanismo após ouvir o Evangelho

Siberianos

 Culto em uma igreja frequentada pelo povo indígena Khanty, da Sibéria Ocidental. (Foto: Divulgação)

 

     Esforços missionários estão em curso para levar o Evangelho a regiões remotas e congelantes da Sibéria, onde as dificuldades de mobilidade e o acesso às populações locais são enormes.

     Em algumas das áreas habitadas por povos indígenas, inclusive grupos fino-úgricos como os Khanty, há pequenas comunidades cristãs emergindo, graças à dedicação desses missionários.

     Johannes Reimer, professor de missiologia e teologia intercultural, esteve em Tyumen, na Sibéria Ocidental, onde foi convidado a ministrar em uma conferência missionária.

      Ele destacou como os esforços missionários na região vêm apresentando resultados concretos, apesar dos desafios culturais e geográficos.

 

Conferência missionária

     No evento realizado entre os dias 9 e 12 de novembro de 2025, na Luz para o Mundo – considerada a maior igreja da região –, Reimer testemunhou a chegada de participantes vindos de diversas localidades para a conferência missionária.

     Segundo ele, havia diversos representantes de povos indígenas da Sibéria.

     “Aqui vivem povos de origem urálica, incluindo grupos fino-úgricos, como Komi, Khanty e Mansi, além dos Selkup, somando várias centenas de milhares de pessoas”, afirmou Reimer.

 

Do xamanismo à fé em Jesus

     Ele relatou que os criadores de renas, originalmente nómadas, são pouco percebidos pela população em geral.

     “A grande maioria deles não possui alfabeto e, consequentemente, não tem uma língua escrita. Por outro lado, apenas uma minoria fala russo fluentemente. Foram oficialmente "cristianizados" durante os séculos de domínio colonial russo”, explicou.

     Reimer também afirmou que a maioria das tribos fino-úgricas pratica o xamanismo1 e que os esforços protestantes para converter esses povos tiveram início apenas no século XX.

 

O mais antigo membro da igreja Khanty com Sergei Lavrenov, pastor. (Foto: Divulgação)

“Uma missão notável nesse sentido foi empreendida por evangelistas russo-alemães sob a liderança de Johann Peters, que deixou sua casa nas estepes de Orenburg com a sua equipa no meio da guerra civil de 1917 e se mudou para a Sibéria Ocidental”, relatou.

Segundo ele, a iniciativa de curta duração levou os siberianos a crerem em Cristo: “Foi somente após o colapso da URSS (antiga União Soviética) que as organizações missionárias protestantes começaram tentativas sistemáticas de alcançar os povos do norte da Sibéria com o Evangelho”.

O missionário explicou que, em muitos casos, os esforços de evangelização fracassaram por utilizarem a língua russa e práticas religiosas ligadas à tradição russa.

“Séculos de opressão pelo Estado russo criaram uma profunda aversão entre a população local a tudo que fosse russo”, explicou.

 

‘Jesus veio até nós’

     Mas os esforços não cessaram e trouxeram resultados positivos. Nos últimos anos, missionários protestantes da Ucrânia passaram a pregar o Evangelho nas línguas dos povos indígenas, relatou Reimer.

     “Hoje a situação mudou significativamente. Durante minha visita aos Khanty, a crente mais velha de sua tribo disse: ‘Jesus agora veio até nós também’”.

     Para o missionário, é urgente a criação de uma escola voltada para a missão contextual.

     Segundo ele, durante a conferência em Tyumen, em novembro, ficou claro para todos os participantes que os missionários que atuam entre os povos siberianos precisam, com urgência, de uma formação bíblica mais sólida.

 

Prédio da igreja Khanty no extremo norte. (Foto: Divulgação)

     “Acima de tudo, eles carecem de conhecimento e ferramentas para uma missão adequada ao contexto. A sua própria educação e desenvolvimento ocorreram em igrejas russas tradicionais”, justificou.

     Reimer explicou que muitos ainda desconhecem que essas formas de fé não encontram ressonância entre os povos indígenas da Rússia, especialmente no norte da Sibéria.

     “E aqueles que, entre esses povos, chegaram à fé em Cristo interrogam-se, com razão, como o Evangelho pode ser uma boa notícia não apenas para eles individualmente, mas também para a comunidade como um todo.”

     Como consequência, surgem perguntas reveladoras da distância cultural e linguística enfrentada na missão.

 

Sem tradução da Bíblia

     Entre elas, estão dúvidas sobre se é permitido orar a Deus na própria língua ou se seria mais apropriado fazê‑lo em russo. Há também questionamentos semelhantes, como a legitimidade de pregar o Evangelho na língua materna.

     Segundo Reimer, a maioria dos povos do norte da Sibéria ainda não dispõe de uma tradução da Bíblia no seu idioma, nem de uma linguagem religiosa desenvolvida que permita expressar plenamente conceitos centrais da fé cristã.

     Diante desse cenário, a comunicação dos conceitos cristãos ocorre de forma bastante limitada. Segundo Reimer, elementos centrais da fé não podem ser simplesmente transplantados de línguas profundamente marcadas pelo xamanismo, o que evidencia a necessidade urgente de um trabalho sistemático de tradução e adaptação cultural.

 

Escola missionária

     Esses e outros fatores reforçam, de acordo com o missionário, a urgência da criação de uma escola missionária na Sibéria Ocidental, capaz de preparar obreiros para atuar de maneira contextualizada entre os povos indígenas da região.

     A Universidade Cristã da Sibéria Ocidental deverá iniciar as suas atividades em 2026. Em decisão amplamente consensual, os líderes da Aliança Evangélica da Sibéria Ocidental (WSEA) optaram por fundar, no mesmo ano, a sua própria universidade evangélica na cidade de Tiumen.

     A instituição terá como um dos seus focos centrais o enfrentamento dos desafios missionários específicos da região.

     Segundo os organizadores, a iniciativa dependerá do apoio de outras regiões da Rússia, bem como de parceiros internacionais.

     Essa cooperação é considerada essencial diante das necessidades urgentes da Sibéria – um desafio que, conforme destacam os líderes, também interpela igrejas e organizações cristãs da Europa.

- in Evangelical Focus e SGA

 

 NOTA:

xamanismo é um termo genericamente usado em referência a práticas etnomédicas, mágicas, religiosas (animista, primal), e filosóficas (metafísica), envolvendo cura, transe, transmutação e contato entre corpos e espíritos de outros xamãs, de seres míticos, de animais, dos mortos. Essencialmente técnicas de contato com o sagrado ou êxtase e, como analisa Jerome Rothenberg (1951-2010), utilizando uma linguagem, de certo modo precursora, do que conhecemos como poesia, uma criação de circunstancias linguísticas especiais como a canção e a invocação.

A palavra xamã vem do russo - tungue saman - e corresponde a práticas dos povos não budistas das regiões asiáticas e árticas especialmente a Sibéria (região centro norte da Ásia). Apesar, como assinala Mircea Eliade, da especificidade dessas práticas na região (em especial as técnicas do êxtase dos tungues, iacutes, mongóis, turco-tártaros etc.), não existe, contudo, origem histórica ou geográfica para o xamanismo como conhecido hoje, tampouco algum princípio unificador. Outros nomes para sua tradução seriam feiticeiros, médico-feiticeiros, magos, curandeiros e pajés.

Xamã

O sacerdote do xamanismo é o xamã, que geralmente entra em transe durante rituais xamânicos, manifestando poderes incomuns, invocando espíritos, plantas etc., através de objetos rituais, do próprio corpo ou do corpo de assistentes e pacientes. A comunicação com estes aspectos sutis da vida pode se processar através de estados alterados de consciência. Estados esses alcançados através de batidas de tambor, danças, sonhos e até ervas enteógenas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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