22-11-07 - Obtidas células estaminais sem recurso a embriões
Duas equipas fazem ao mesmo tempo uma descoberta sensacional.Foi descoberta uma maneira de obter células estaminais sem recurso a clonagem nem embriões, mas com as mesmas potencialidades. Tudo feito a partir de células humanas da pele. Dois grupos de cientistas, um japonês e o outro americano, conseguiram a proeza. A descoberta abre grandes possibilidades, talvez ilimitadas, na regeneração dos tecidos humanos e de órgãos com deficiências.
“A partir do momento em que não há necessidade de destruir embriões, porque estas células são colhidas em adultos, a principal objecção ética à utilização de células estaminais embrionárias está ultrapassada”, refere Daniel Serrão, professor jubilado, considerando que, “mesmo nos países que não têm uma tradição de respeito por grandes valores estas investigações vão ser saudadas com muito entusiasmo”.
Esta inovação também poderá pôr fim ao debate sobre as células estaminais produzidas a partir de embriões humanos, e à consequente monstruosidade que aconteceria se tal viesse a ser aprovado. O uso e destruição de embriões humanos é homicídio, e isso levou a administração Bush a travar os financiamentos públicos. Sim, homicídio, porque significa matar embriões humanos com fins experimentais
A divulgação de duas equipas distintas surge em edições on-line de revistas especializadas (a "Science” e a "Cell") e está a gerar grande furor no mundo científico. A descoberta foi já saudada pela Casa Branca porque é um novo caminho que evita o polémico recurso a embriões humanos.
O estudo da equipa americana, liderada por James Thompson (da Universidade de Wisconsin), que foi publicado pela revista Science e da japonesa (chefiada por Shinya Yamanaka, da Universidade de Quioto) foi ontem anunciado, antes da sua publicação, na revista especializada Cell. Os japoneses desenvolveram uma técnica baseada numa receita química simples (apenas quatro ingredientes) cujo efeito é o de converter célula da pele em células que possuem muitas características físicas, de crescimento ou até genéticas das células embrionárias, cuja diferenciação permite produzir neurónios ou tecidos cardíacos. Não se atingiu a capacidade de diferenciação de uma célula estaminal embrionária e os japoneses sublinham ser "prematuro" pensar que estas células podem substituir as estaminais embrionárias.
Uma vez melhorada esta técnica, será possível obter células estaminais com o mesmo código genético do paciente, abrindo perspectivas ao tratamento de doenças ou de transplantes, pois serão reduzidos os riscos de rejeição. A esperança que os cientistas colocam nas células estaminais deriva da capacidade que estas têm de se diferenciarem em 220 tipos diferentes de células do corpo humano.
Citados pelas agências, vários peritos sublinham a importância destas duas investigações. "Trabalho monumental", com "impacto na nossa capacidade de acelerar as aplicações desta tecnologia", explicou à AFP um especialista em cardiologia. A descoberta terá prováveis aplicações no tratamento de doenças cardíacas, na luta contra o cancro, além de permitir combater Alzheimer, Parkinson, diabetes, entre muitas outras doenças. Será possível melhorar o tratamento de queimados e lesões da medula.
É que, sem obstáculos de ordem ética, há agora uma forma de avançar na pesquisa de fabrico de tecidos que podem ser muito úteis na criação de órgãos humanos simples e no tratamento de doenças neurológicas.
“Este estudo também tem os seus problemas porque usa vírus que têm que ser evitados e podem dar origem a tumores. Há muita coisa neste estudo ainda a melhorar e os próprios cientistas reconhecem-no. São, no entanto, estudos extremamente credíveis que abre muitas avenidas mas nunca se deve pôr os ovos no mesmo cesto”, disse Rui Reis, da Sociedade Portuguesa de Células Estaminais.
“Tem uma grande vantagem que é a questão das células serem obtidas a partir da própria pessoa em que vão ser utilizadas, o que resolve o problema da eventual rejeição. Com as células embrionárias não é esse o caso, desenvolviam-se linhas celulares que depois eram para ser utilizadas num qualquer paciente. Agora pode ser possível obter células parecidas com células estaminais embrionárias da pessoa para usar na própria pessoa. Isso é um grande avanço”, acrescenta.
Para o geneticista Mário de Sousa é preciso resolver alguns problemas, mas estas experiências são um avanço promissor para a medicina regenerativa.
Excertos da imprensa mundial
"Milagre num tubo de ensaio: músculo cardíaco e células cerebrais obtidas a partir de um pedaço de pele humana" [The Independent]; "Os cientistas deram a volta ao relógio do desenvolvimento biológico e converteram uma simples célula da pele numa célula que se comporta e actua como se fosse embrionária, isto é, capaz de converter-se de novo em célula cardíaca, óssea, nervosa ou de qualquer outro tipo. É um desses saltos da ciência que fazem história" [El País].
"Ao activarem genes adormecidos, investigadores de Tóquio e de Winsconsin conseguiram que células adultas regressassem à fase embrionária e, rejuvenescidas, serem orientadas para dar origem a qualquer dos principais tecidos do corpo humano, incluindo músculos, cartilagens, neurónios e células cardíacas. É marco científico que abre caminhos extraordinários para a substituição de tecidos, tratamento de muitas doenças" [Los Angeles Times].
"Está conseguida a célula ética!" [Toronto Star]; "Este espectacular avanço científico supera o obstáculo ético que envolve intervir sobre células estaminais embrionárias" [The New York Times]; "Deixa de se colocar o argumento moral que reprova a destruição de células embrionárias mesmo que para aliviar o sofrimento humano" [The Fresno Bee]; "Avanço revolucionário, médico e político" [Miami Herald].
"Trata-se de conseguir as células básicas de que uma pessoa com uma doença precisa para se curar desse mal" [The Times Tribune]; "Ainda há barreiras mas já estamos na auto-estrada que leva à superação de muito sofrimento" [The Columbus Dispatch]; "As implicações são imensas: acelera-se o desenvolvimento de novos medicamentos e ficamos mais perto de vencer doenças como a diabetes, Parkinson e Alzheimer" [Richmond-Times Dispatch].
Esclarecimento
O que são células estaminais embrionárias?
São células extraídas de embriões humanos até 14 dias após a fertilização. Nesta altura, o embrião é uma bola de células com cerca de um quarto do tamanho de uma cabeça de alfinete (0,2 mm) - uma vida para todos os efeitos.
Para que perceba melhor o que tem estado em causa ...
De onde vêm os embriões humanos?
Existem actualmente pelo menos 100 000 embriões excedentários armazenados em congeladores por toda a União Europeia.
Estes embriões foram criados como uma fase de rotina dos tratamentos da esterilidade (FIV). Um único ciclo de tratamento de FIV envolve normalmente a fertilização simultânea de vários ovos. De seguida, vários ovos fertilizados são reimplantados na mãe e os restantes são congelados, caso a primeira tentativa de gravidez não seja bem sucedida.
Se a mulher sujeita à FVI engravidar de imediato, o casal pode optar por não utilizar os restantes embriões. Em alguns países, os casais podem optar por doar os embriões para investigação ou pela sua eliminação.
No entanto, nunca chegou a ser tomada uma decisão sobre o destino de alguns embriões armazenados. Nos últimos 20 anos, desde o início da FIV, muitos dos dadores de ovos e esperma mudaram de casa, voltaram a casar e mudaram de nome ou talvez até já tenham morrido. As clínicas de fertilidade podem não conseguir encontrá-los. O destino de muitos embriões armazenados é, por isso, incerto.
Uma segunda fonte de embriões para o fornecimento de células estaminais, ainda mais controversa, seria a criação de embriões somente para investigação ou tratamento. Nunca existiu qualquer intenção de os implantar numa mulher. A criação de um embrião com esta finalidade é considerada por muitas pessoas (e por alguns governos) como eticamente errada.
Contudo, já existem milhões de espermatozóides e milhares de ovos não fertilizados congelados em clínicas de FIV em toda a Europa. Se os espermatozóides fossem utilizados para fertilizar os ovos, existiriam ainda mais embriões para fornecer células estaminais de modo a curar doenças.
Existe uma última forma de obter embriões humanos, nomeadamente a utilização da técnica da clonagem. Tal envolve a criação de um embrião humano que contenha a composição genética completa de alguém que já está vivo. Se implantado no útero da mulher, o embrião podia teoricamente desenvolver-se num clone (uma cópia geneticamente igual) dessa pessoa. Se utilizado para investigação, o embrião poderia fornecer células estaminais para curar doenças.
O que acontece quando as células estaminais são extraídas do embrião?
O embrião já não pode seguir desenvolvendo-se e morre.
Nos dias que correm somos levados a orar, "Livra-nos do mal".




