28-05-2021 - Cristãos cavam buracos na selva para se esconder da perseguição em Mianmar

Chit* percebeu rapidamente que ele e a pequena igreja com que se reúne não estavam mais seguros após o golpe militar de 01 de fevereiro em Mianmar. As novas autoridades passaram a invadir os locais onde as igrejas se reúnem, seja em escritórios, cafés e prédios residenciais, em busca de opositores.
Dessa forma, ele e 18 famílias da sua igreja decidiram que a selva era um lugar mais seguro e todos se mudaram para se esconderem na selva. Eles cavaram o chão, fizeram um buraco e agora ficam lá a maior parte do tempo. Como o preço dos alimentos dobrou após o golpe, Chit e a sua comunidade não podem comprar arroz, então procuram raízes e folhas na selva.
Em um relato feito ao portal Christian Today, Zara Sarvarian, integrante da Missão Portas Abertas, afirmou que uma das ameaças que enfrentam é serem recrutados à força pela junta militar para o exército. Um pastor de uma aldeia remota disse a uma fonte da entidade, identificado apenas como Lwin* por razões de segurança, que “na semana passada, o chefe da aldeia foi convidado a recrutar 30 homens para o exército”.
“Agora os Cristãos, incluindo o pastor, estão escondidos na floresta”, acrescentou Lwin, que relatou um cenário de frustração, desespero e stress, uma vez que não há sinal de uma resolução para a situação.
Com o desligamento da Internet no país, as comunicações com Mianmar são raras. No entanto, os parceiros da Portas Abertas puderam testemunhar a situação atual de que muitos dos 4,4 milhões de Cristãos de Mianmar estão a enfrentar.
Min Naing*, um Cristão da capital Yangon, contextualizou: “Todos os dias ouço o som de tiros e granadas perto da minha casa. A maioria das casas não acende as luzes depois das 20h e ninguém faz barulho. Ficamos em casa durante o dia também. Não podemos sair, exceto para fazer compras e levar o lixo para fora. Eu moro no meio de Yangon sem segurança”.
Perseguição sem fim
Os Cristãos enfrentaram sérias perseguições em Mianmar ao longo dos anos, e muitos temem que possam ser alvos durante o conflito atual. Mesmo antes do golpe, o país estava envolvido no que é atualmente a guerra civil mais longa em todo o mundo.
Tudo começou imediatamente após o país se tornar independente da Grã-Bretanha em 1948. O governo central tentou impor o seu controlo sobre as regiões, às quais havia prometido autonomia limitada. As etnias armadas dessas regiões têm lutado pelo direito à autodeterminação.
A guerra civil afeta, entre outras, as comunidades predominantemente cristãs de Chin, Kachin e Karen. Os Cristãos são vulneráveis à perseguição por grupos insurgentes e pelo exército. Os combates continuam e mais de 100 mil pessoas – a maioria Cristãos – vivem em campos de deslocados internos.
A maioria deles está ali há anos, sem comida e sem cuidados médicos. A luta também continua no vizinho estado de Shan, que tem uma comunidade cristã populosa, embora seja minoria da população. Assim, o golpe de fevereiro apenas aumentou a tensão existente para os Cristãos.
Zaw, pastor numa das igrejas, doou 35 kg de arroz para os pobres na vizinhança da sua igreja. Ele também ajuda e incentiva outros pastores de áreas rurais remotas por meio de telefonemas.
Da capital à selva remota, os pastores de Mianmar tentam fornecer apoio prático e espiritual a todos aqueles que precisam de comida e palavras de encorajamento enquanto a igreja em Mianmar ora e espera por um futuro melhor.
Mianmar está em 18º lugar na Lista Mundial de Perseguição da Missão Portas Abertas, um ranking com os 50 países mais hostis aos Cristãos.
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* Nomes alterados por razões de segurança.
- in Gospel +
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