19-02-2019 - Brasil: Escola Bíblica Dominical torna-se património imaterial do Rio de Janeiro

Para milhões de crentes em todo Brasil, a Escola Bíblia Dominical, mais conhecida pela sigla “EBD”, faz parte da programação das igrejas como uma importante ferramenta de ensino doutrinário, servindo para consolidar a fé dos irmãos em Cristo desde os mais novos até aos idosos.
Mas a Escola Bíblica Dominical não é apenas um instrumento de fé. Iniciada pela primeira vez em 19 de agosto de 1855, na cidade de Petrópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro, pelo casal de missionários Robert Kalley e Sarah Poulton Kalley 1, a EBD também é um evento histórico e pertencente a cultura do Brasil.
Com base nisso, um projeto de lei criado tornando a EBD património imaterial da cidade. A decisão foi divulgada no Diário Oficial.
O pregador, escritor e conferencista, Geremias Couto, fez uma publicação em sua rede social comentando a aprovação da lei, alertando aos cristãos para que não se “iludam com o Estado”.
“Quando eu percebo muita empolgação com certas coisas, como a lei sancionada pelo Governador Wilson Witzel, que torna a Escola Bíblica Dominical em património imaterial do Rio de Janeiro, logo me lembro das palavras ditas por Jesus”, escreveu o pastor, citando em seguida a passagem de Lucas 10:20:
“Em certa ocasião a seus discípulos [Jesus disse]: “Alegrai-vos, antes, por estar o vosso nome escrito nos céus”. Não se iludam com o Estado. Fecha o pano”, completou o pregador, deixando mais explícita a sua opinião ao comentar a resposta de uma internauta:
“A EBD já funciona de forma legalizada. O ato é só uma honraria. Não muda nada, nem para melhor, nem para pior. Se as igrejas não investirem na EBD, fica tudo como está”, conclui Couto.
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1 Robert Kalley, como médico de bordo conheceu muitos portos, inclusive o do Funchal (1838), na ilha da Madeira, Portugal, onde fundaria uma das primeiras comunidades protestantes lusitanas, juntamente com sua mulher, Margaret, ainda antes de ir para o Brasil em 1855.
Robert e Margaret casaram-se em 1838. O sonho de Robert era tornar-se missionário na China, mas, considerando a frágil saúde da esposa, os colegas sugeriram-lhe a ilha da Madeira, “um pequeno paraíso de clima suave”. Assim, no dia 12 de outubro do mesmo ano, o casal chegou ao Funchal, onde já havia uma colónia de escoceses. No ano seguinte, Kalley foi ordenado ao ministério pastoral, no dia 8 de julho.
Robert e Margaret Kalley tornaram-se figuras históricas do protestantismo em Portugal e no Brasil. Os Kalley chegaram ao Rio de Janeiro em 1855, onde Robert fundou, juntamente com cidadãos portugueses e brasileiros, a Igreja Evangélica Fluminense (não denominacional), que desempenhou um importante papel na divulgação da doutrina evangelista no país.
A situação religiosa em Portugal no século XIX
Mesmo após a abolição da Inquisição em Portugal, em 1821, a prática do protestantismo continuou a ser proibida para todos os cidadãos portugueses. Apenas aos estrangeiros era permitido praticar outras religiões que não a católica, desde que não em língua portuguesa e tampouco em edifícios que pudessem ser identificados externamente como igrejas. Só após a implantação da República é que se pode falar de liberdade religiosa em Portugal, o que possibilitou a existência oficial de comunidades protestantes.
A acção de Robert Kalley no Funchal
O dr. Kalley fundou um hospital no Funchal e em breve se deu conta de que os madeirenses demonstravam uma surpreendente falta de conhecimento da doutrina cristã, tendo iniciado o trabalho missionário. Foram fundadas 20 escolas, distribuídas Bíblias e iniciado um trabalho de missão que encontrou acolhimento. Robert Kalley fundou a primeira rede de escolas em Portugal, que ofereciam gratuitamente a instrução primária a crianças e adultos. Cerca de 2000 madeirenses interessaram-se por esta nova comunidade.
Em 1845 foi fundada a primeira congregação protestante portuguesa, a Igreja Presbiteriana Portuguesa que tem atualmente, na cidade do Funchal, o nome de Igreja Evangélica Presbiteriana Central.
Fundação da Igreja Presbiteriana de língua portuguesa no Funchal
Em 1838 Kalley chega ao Funchal, onde cria escolas, um hospital, um serviço de consultas médicas e onde começa a distribuir Bíblias e a fazer evangelização. Em 1843 é preso e fica alguns meses na cadeia. Em 8 de maio de 1845 foi fundada (ilegalmente pois as igrejas protestantes permaneciam proibidas) no Funchal a Igreja presbiteriana, tendo sido ordenados presbíteros e diáconos, tendo sido celebrada a Ceia do Senhor para 61 crentes convertidos.
Perseguição e fuga
Na época, a Madeira atravessava uma forte crise económica. O comércio do vinho, base da economia da ilha, estava em declínio. Os desastres naturais levaram à fome, ao abandono de vinhedos e ao desemprego em massa. Para muitos, a emigração foi uma questão de sobrevivência.
A situação foi agravada pela tensão religiosa entre o grupo de convertidos presbiterianos e a comunidade local, tradicionalmente católica. A nova igreja seria perseguida pelas autoridades madeirenses. A partir de 2 de agosto de 1846 intensificaram-se as injúrias e acções contra os "Protestantes". Em 9 de agosto de 1846, a casa dos Kalleys foi incendiada. Com a ajuda de vários portugueses da recém-formada comunidade protestante, o casal fugiu para os Estados Unidos. Kalley teve de se disfarçar para poder entrar no barco inglês que o salvou. A sua mulher e familiares obtiveram a proteção do consulado britânico.
2000 portugueses foram expulsos da ilha da Madeira pelas autoridades portuguesas sendo refugiados em Trinidad e Tobago, nas Bermudas e nos Estados Unidos, onde os Madeirenses crentes fundaram a cidade de Jacksonville, no estado de Illinois. O produtor de cinama britânico Sam Mendes (Óscar por "American Beauty") é descendente deste grupo de "madeirenses errantes". O jornalista e autor Ferreira Fernandes narra sua diáspora na obra "Madeirenses Errantes".
Kalley no Brasil
Após a morte de sua primeira esposa, Margareth Kalley, em 1851, Robert Kalley casou-se, no ano seguinte, com Sarah Poulton e partiu para os Estados Unidos. Nos anos 1853-1854 ministrou aos refugiados madeirenses naquela nação. Ainda nos Estados Unidos, impressionou-se com o Brasil através do livro Reminiscências de viagens e permanências nas Províncias do Sul e Norte do Brasil (1845), de Daniel Parrish Kidder, que estivera no Brasil, onde distribuiu Bíblias.
Em 10 de maio de 1855 chegou ao Rio de Janeiro e subiu para morar em Petrópolis, na residência do embaixador americano. Numa tarde de domingo, 19 de agosto de 1855, Kalley e sua esposa instalaram em sua residência a primeira classe de escola dominical, contando com cinco crianças, filhos de cidadãos americanos. Foi contada a história do profeta Jonas.
Kalley escreveu para Jacksonville pedindo auxílio. Vieram Wiliam Pitt, um inglês educado por D. Sarah na Inglaterra, Francisco de Souza Jardim e família, Manuel Fernandes e esposa e Francisco da Gama e família.
No dia 11 de julho de 1858 organizou a Igreja Evangélica Fluminense, uma igreja bíblica brasileira sem nenhum vínculo com denominações até então existentes. Foi organizada com 14 membros.
Apesar de ter sido batizado na Igreja da Escócia (presbiteriana), Kalley não possuía vínculos com nenhuma denominação. Em certa ocasião, ele escreveu: "eu não sou presbiteriano e nem estou em contato com qualquer tipo de igreja — sou irmão de qualquer cristão, independentemente de sua denominação".Neste ponto, a sua crença era bem parecida com a dos Irmãos de Plymouth (chamados "Irmãos"), que, no Brasil, teve origem na mesma Igreja bíblica Fluminense.
O legado dos Kalley
Muitos dos madeirenses protestantes perseguidos iriam fundar nos anos seguintes novas comunidades no estrangeiro, sobretudo presbiterianas. Sobretudo nos Estados Unidos, no Brasil e nas ilhas de Trindade e Tobago. Destas comunidades vieram alguns missionários para Portugal, tendo sido fundada em 1870 a Igreja Presbiteriana de Lisboa sendo o seu primeiro pastor António de Matos, um dos convertidos por Kalley no Funchal.
Kalley foi também aquele que conseguiu plantar o Cristianismo bíblico de forma definitiva no Brasil. O seu trabalho influenciou outros missionários a trabalharem no Brasil, contribuindo para a construção do protestantismo no país, onde hoje conta com aproximadamente trinta milhões de aderentes.




