10-11-2018 - Grupos satânicos afirmam-se cada vez mais

Os satanistas não são um grupo religioso homogéneo. Existem diferentes perspetivas do que significa a adoração a Satanás, mas um grupo na Filadélfia (EUA) quer se visto como um grupo de amigos que gosta de discutir filmes e política no meio de pentagramas e imagens de demónios.
O Templo Satânico realizou um ritual que chamou de “missa negra” num local público. Acostumados a reunir-se num bar, recentemente celebraram o seu primeiro ano de formação. Um bolo de chocolate coberto de glacê preto com um pentagrama em vermelho indicava quem eles eram. Antes do líder soprar a vela, eles fazem uma invocação pedindo a Satanás poder e sabedoria.
No seu livro “Satanism: A Social History” (Satanizo: Uma História Social), o sociólogo italiano Massimo Introvigne explica que existem dois tipos de praticantes do satanismo: ocultistas e racionalistas. Grupos racionalistas são maioria e dominam a cobertura dos media porque, segundo o estudioso “eles querem criticar a sociedade, que acreditam ser dominada por conservadores ou cristãos; então eles decidem mostrar-se dessa forma ao público”.
Dentro desse espectro dos racionalistas, ateus e humanistas usam o satanismo como uma maneira de fazer declarações políticas. Por exemplo, buscam o reconhecimento como grupo religioso para se beneficiar das leis que lhes garantem a liberdade de expressão para defender pautas como aborto e liberdade sexual.
Recentemente passaram a usar uma estátua de Baphomet – um ídolo meio homem meio bode, com mais de 3 metros de altura – para protestarem contra a exibição de símbolos religiosos em locais públicos. O caso mais famoso foi no Oklahoma, onde colocaram temporariamente em frente à sede do governo do estado, ao lado de um monumento dos Dez Mandamentos.
Cultura popular
De diferentes maneiras, a imagem de Satanás já está incorporada a cultura popular e não necessariamente como algo negativo. Bandas de heavy metal falam sobre ele em muitas de suas músicas. Filmes de terror como “A Bruxa”, sucesso nas bilheterias, o apresentaram aos mais jovens.
Séries de TV com crescente frequência usam o ocultismo e elementos do satanismo como parte de seus roteiros e apresentando Satanás como um personagem simpático, algo que “Lucifer”, agora produzido pela Netflix, comprova. Até mesmo desenhos animados, como South Park, coloca-o como um ser real e até engraçado.
Isso parece ter influência direta na sociedade. Desde 2014, indica o Instituto de Pesquisas Pew Research, cerca de 1,5% dos americanos já se identificam com “outras” religiões, incluindo o paganismo, a wicca e o satanismo.
Preconceito
Moira Corvid, uma das líderes do Templo Satânico da Filadélfia, acredita que há “preconceito” contra os satanistas. “Eu não machuco animais ou outras pessoas. Eu não quero que as igrejas sejam queimadas, e eu não vejo outras religiões (ou os seres humanos que participam delas) como uma doença ou algo a ser erradicado. E eu não como bebés. Somos satanistas. Ponto final. Muitos de nós também são ateus e nos relacionamos bem com as plataformas defendidas por grupos secularistas”, assevera.
Ela não vê conflito em se ser ateu e, ao mesmo tempo, identificar-se como satanista. “Temos autonomia”, ela continua. “Eu não pertenço a ninguém. A dinâmica mitológica de Lúcifer, levantando uma espada contra o Deus que queria ser seu dono, fala comigo de uma maneira profundamente existencial”.
Uma de suas lutas atuais é para o reconhecimento em pé de igualdade, com as demais religiões. Curiosamente, o espaço usado pelo Templo Satânico de Filadélfia aproxima-se muito da estética de uma igreja bíblica. Cadeiras para a audiência, um altar com um ecrã ao fundo. Nas reuniões, acendem velas e entoam cânticos, no lugar da cruz, um pentagrama. O conteúdo das mensagens, porém, permanece um mistério para os que não são iniciados, uma vez que não são públicos.
Conforme avalia o sociólogo Introvigne, “Se é jovem, em particular, e acha que o cristianismo é muito opressivo, provavelmente acha as atividades promovidas por caras como os do Templo Satânico muito mais divertidas do que algumas das associações ateístas.”
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