15-03-2018 - A Minha fé ajudou a manter Stephen Hawking vivo, diz ex-esposa do físico falecido ontem

“Por favor, Senhor, que Stephen viva!”, foi a prece desesperada que Jane Wilde expressou em voz baixa em 1985, quando lhe disseram por telefone que o seu marido, o famoso cientista Stephen Hawking, teria que ser desligado do respirador após entrar em coma por uma pneumonia virulenta.
Jane recorda esta cena no seu livro “Rumo ao infinito”, onde conta que se aferrou a Deus nesta ocasião como em muitas outras vezes. Esse Deus no qual ela sempre acreditou “para resistir e manter a esperança” frente ao ateísmo fervente de seu marido doente, que desprezava e inclusive gozava das suas “superstições religiosas”, porque “a única deusa de Stephen Hawking foi sempre a Física”.
Em entrevista dada ao jornal espanhol El Mundo, a ex-esposa recorda que os médicos suíços lhe deram a entender que não havia nada a fazer, e que se ela autorizasse, desligariam o respirador artificial para deixá-lo morrer com a mínima dor possível. “Desligar o respirador era impensável. Que final mais ignominioso para uma luta tão heroica pela vida! Que negação de tudo pelo que eu também tinha lutado! A minha resposta foi rápida: Stephen deve viver”, afirmou.
Os médicos viram-se na obrigação de realizar uma traqueotomia que salvou a vida do cientista mas também o deixou sem fala, obrigando-o a comunicar-se com a voz robótica do seu sintetizador.
Stephen Hawking, 76 anos, faleceu ontem, 14 de março de 2018, na Inglaterra. O físico e pesquisador tornou-se num dos símbolos principais da ciência no século XX e também uma espécie de ícone do ateísmo.
A morte de Stephen William Hawking foi comunicada pela sua família à imprensa inglesa na manhã de ontem. Ele vivia nma cadeira de rodas e era dependente de um sistema de voz computadorizado para se comunicar com as pessoas, devido às intensas e diversas complicações causadas pela doença Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA).
“Estamos profundamente tristes pela morte do nosso pai hoje. Era um grande cientista e um homem extraordinário, cujo trabalho e legado viverão por muitos anos”, afirmaram seus filhos Lucy, Robert e Tim, que mantiveram a causa da morte em sigilo.
Biografia
Stephen Hawking casou-se pela primeira vez em 1965, com Jane Hawking e separou-se em 1991. Jane, cristã, casou-se com o físico quando os médicos lhe davam apenas dois anos de vida, em consequência das complicações da ELA, que causa morte dos neurónios motores, que são as células nervosas responsáveis por todos os movimentos do corpo. Aos poucos, os portadores de ELA perdem a capacidade de se mover, de falar, de engolir e de respirar.
Ao longo do casamento com Jane – que durou 25 anos e terminou por decisão de Hawking – o físico tornou-se num dos cientistas mais conhecidos do mundo, abordando temas como a natureza da gravidade e a origem do universo.
No final dos anos 1960, tornou-se famoso ao publicar a sua teoria da singularidade do espaço-tempo, aplicando a lógica dos buracos negros a todo o universo. Em 1988, publicou o livro Uma Breve História do Tempo, que se tornou best-seller por explicar de forma didática, ao público em geral, as teorias que desenvolveu enquanto pesquisador.
A história de vida do físico viria a público em 1999 com o livro Viagem ao Infinito, escrito por Jane Hawking. 15 anos depois, a versão cinematográfica do livro, A Teoria de Tudo, seria vencedora de um Óscar.
O filme mostrou ao mundo o drama diário de Stephen Hawking, que a certa altura, ficou imobilizado a ponto de conseguir mover, voluntariamente, apenas um dedo e os olhos. Ele usava um sintetizador eletrónico para falar, e a voz robótica produzida pelo aparelho terminou tornando-se numa das suas marcas registradas.
Fé
A ex-mulher de Hawking concedeu uma entrevista em 2015 ao jornal espanhol El Mundo, relatando o conflito diário que vivia enquanto esteve casada com ele, já que constantemente ele “zombava” da sua fé, classificando-a de “superstições religiosas”.
Ela é anglicana e Deus é uma certeza, ele é ateu e ainda recentemente disse que “não há Deus nenhum”.
“Eu entendia as razões do ateísmo do Stephen, porque se à idade de 21 anos uma pessoa é diagnosticada com uma enfermidade tão terrível, vai acreditar em um Deus bom? Eu acredito que não”, afirmou Jane, acrescentando que, ainda assim, se mantinha firme na sua crença.
“Eu precisava da minha fé, porque me deu o apoio e o consolo necessários para poder continuar. Sem minha fé, não teria tido nada, salvo a ajuda de meus pais e de alguns amigos. Mas graças à fé, sempre acreditei que superaria todos os problemas que surgissem”, pontuou.
Em outro ponto da entrevista, Jane disse que a chave da sua resistência “foi precisamente a fé nesse Deus rechaçado pelas teorias cosmológicas do professor Hawking”.
Mas o potencial conflito, ciência versus religião, acabou por se tornar uma realidade. “No início o Stephen respeitava a minha fé”, disse Jane. “Mas com os anos ele tornou-se mais provocador”. Um dos momentos mais polémicos foi quando Hawking disse em Madrid, em 2014, que Deus não existe. “Sou ateu. A religião acredita em milagres, mas estes são incompatíveis com a ciência”.
Não deixa de ser irónico que Jane, para quem a fé era, e ainda é, “uma coisa muito importante”, ache “um milagre que ele ainda esteja vivo”. Hoje com 71 anos, Jane define-se, não como religiosa, mas sim pessoa de fé e espiritualidade.
Quando questionada sobre o que pensava a respeito da declaração de Hawking, de que “o milagre não é compatível com a ciência”, Jane desabafou: “Ele disse isso? Engraçado… porque eu acredito que é um milagre que ele siga vivo. É um milagre da ciência médica, da determinação humana, são muitos milagres juntos. Para mim é muito difícil explicá-lo”, afirmou, fazendo referência ao diagnóstico inicial de que o físico viveria apenas dois anos.
Ao longo do casamento com Hawking, Jane afirmou ter descoberto que “necessitava fervorosamente de acreditar que na vida havia algo mais que os meros dados da leis da Física e a luta cotidiana pela sobrevivência”, porque o ateísmo do seu marido “não podia oferecer consolo, bem-estar nem esperança em relação à condição humana”.
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