01-11-2007 - Deus em onda curta
Nunca houve tantas estações e tantas redes de rádio cristãs a difundir tantos programas, em tantas línguas, para tantos lugares. Das florestas de Moçambique aos desertos da Mongólia, são a maneira de escapar ao isolamento devido à distância, à falta de dinheiro ou à língua que falam.
Quando o crepúsculo cai, Jaime Jeremias Matsimbe senta-se na terra cor-de-rosa, no meio da floresta de mangueiras e palmeiras, e começa a dar à manivela do seu rádio de onda curta, em busca da palavra de Deus.
Depois de girar várias vezes o pequeno manípulo, carregando o rádio como se estivesse a dar corda a um relógio, a voz de um pregador ecoa através do pátio cheio de cabras e de perus, a 30 quilómetros de distância da estrada alcatroada mais próxima. Matsimbe sorri, enquanto ouve o sermão de um pregador do Texas sobre Jesus e S. Paulo traduzido para uma língua local que é apenas falada nesta região, no interior de Moçambique.
"Fico muito contente por esta pessoa nos ter trazido a sua mensagem", diz Matsimbe, um agricultor de 59 anos e com 24 netos cuja língua materna, o xitshwa, é falado apenas por um milhão de pessoas. "Sentimos que há alguém que se preocupa connosco".
Apesar da globalização da fé estar a ser cada vez mais impulsionada pela Internet e pela televisão por satélite, as emissoras de rádio Cristãs estão a gastar centenas de milhões de dólares num dos mais antigos meios de comunicação de massas.
"Nos países em desenvolvimento, para muitas pessoas o rádio é o único dispositivo disponível", diz Robert Fortner, especialista em rádio religiosa e director do Media Research Institute americano. "As pessoas ficam agarradas ao rádio como se fosse um barco salva-vidas depois de um tsunami".
A rádio está a ajudar a apoiar o crescimento mundial da fé à medida que as emissoras Cristãs vão expandindo a popularidade, o alcance e a influência das suas igrejas. E já atingem muitos milhões de pessoas, nos cantos mais distantes do mundo, que se encontram praticamente isoladas do resto do planeta devido à distância, à falta de dinheiro ou à língua que falam.
"Estes programas estabelecem uma ligação entre estas pessoas e o resto do mundo que, de outra forma, não existiria", diz Fortner. "Os destinatários dos nossos programas ficam a saber que existem outras pessoas no mundo que se preocupam suficientemente com eles para preparar programas na sua língua e falar com eles acerca dos seus próprios problemas."
Para chegar aos "inatingíveis" das áreas rurais, onde a electricidade é ainda um sonho distante e mesmo as pilhas são um luxo, estas emissoras estão a distribuir centenas de rádios de manivela que custam 50 dólares.
Na vila de Homoíne, 500 duros quilómetros a nordeste do Maputo, os pastores locais da igreja receberam novos rádios no mês passado e agora reúnem os seus paroquianos para ouvir os programas evangélicos.
"Isto traz mais pessoas à igreja" diz o pastor Xavier Muaga. "Algumas pessoas começaram a ir à igreja e desistiram, mas estes programas convenceram-nas a voltar. Outros, que antes nunca vieram à igreja, agora vêm ouvir isto e querem tornar-se cristãos."




