Música na igreja - alerta
Já dizia Agostinho (354-430 d.C.): “Assim flutuo entre o perigo do prazer e os salutares efeitos que a experiência nos mostra. Portanto, sem proferir uma sentença irrevogável, inclino-me a aprovar o costume de cantar na igreja, para que, pelos deleites do ouvido, o espírito, demasiado fraco, se eleve até aos afectos da piedade. Quando, às vezes, a música me sensibiliza mais do que as letras que se cantam, confesso com dor que pequei. Neste caso, por castigo, preferiria não ouvir cantar. Eis em que estado me encontro”.
Por meio destas palavras, Agostinho expressa o seu temor de cometer erros com o uso da música. Na verdade, existe uma ténue linha que separa os benefícios da música na igreja dos perigos do seu mau uso. Tendo em vista a corruptibilidade humana e a nossa susceptibilidade aos enganos dos sentidos, torna-se fundamental uma constante análise de como temos utilizado a música nos nossos cultos. Assim como é necessária uma luta por uma vida santa, é necessário um esforço desmedido para se utilizar a música convenientemente no meio do povo de Deus.A música deve ser encarada como um meio e não como um fim. Ela conduz a algum objectivo ou alvo, que pode variar desde a glória de Deus até à glória do próprio homem ou do diabo.
TENDÊNCIAS MODERNAS
Hoje não se crê mais em verdades absolutas; o relativismo tomou conta dos principais círculos académicos do mundo ocidental. Não há sector da nossa sociedade que não tenha sofrido influências desse sistema: a ciência, a ética, a arte e, como uma subdivisão desta última, a música. Diz Os Guiness, na sua famosa palestra “Cuidado com a Jibóia!”, que a modernidade (ou “Pós-modernidade”) é marcada por três fenómenos, pluralização, privatização e secularização.
A) Pluralização: A sociedade actual valoriza a multiplicidade de opções, objectos da escolha humana que vão desde produtos de consumo a valores éticos e comportamentais. Por exemplo, a homosexualidade não é vista como uma perversão sexual moral; é apenas uma opção, assim como o heterossexualismo.
B) Privatização: As pessoas, depois de fazerem sua opção, trancam-se numa espécie de jaula aberta, onde ninguém tem o direito de interferir nas suas decisões, nem de recriminar ou reprovar o seu comportamento. Por isso há tantas campanhas em prol de minorias como os homossexuais.
C) Secularização: Como resultado dos dois fenómenos acima, a sociedade mergulha cada vez mais num universo de impiedade e indiferença para com as coisas de Deus. A Bíblia não tem crédito porque não se acredita mais num padrão objectivo a ser seguido.
O que tudo isso tem a ver com a música? Muita coisa. A pluralização fez com que hoje não haja mais referência do que seja boa música. Aliás, não se fala mais em boa música porque, na concepção pós-moderna, todas as músicas são boas!
"Música boa” é relativo. O importante é escolher o meu estilo preferido e não se discute mais nada. Cada um faz a sua opção musical e o outro deve apenas respeitar (privatização).
Por causa da pluralização, igrejas têm adoptado costumes nada convencionais a fim de atenderem a qualquer gosto musical ou estilo de vida. Já existem igrejas para surfistas, onde predomina o reggae; outras para roqueiros, onde só se toca rock’n roll; igrejas só de homossexuais (“gay churches”), onde a motivação não é agradar a Deus ou buscar a Sua glória, mas a satisfação pessoal e o “sentir-se bem”. Observe que a impressão que estas músicas causam não está voltada para a majestade gloriosa de Deus, mas para uma atmosfera ligada ao gosto pessoal e deleite dos próprios membros.
Existem igrejas que realizam até três cultos dominicais, cada um voltado para um tipo diferente de pessoa. O primeiro é tradicional e utiliza somente hinos como cânticos congregacionais, frequentado apenas por idosos. O segundo é mais informal, com um longo “período de louvor”, e é freqüentado por jovens e pessoas de idade mais madura, porém ainda não idosos. O terceiro culto é completamente “alternativo” e barulhento, frequentado apenas por adolescentes e alguns jovens. É frustrante ver "três igrejas” dentro da mesma. Quando a pluralização exerce a sua terrível ditadura, torna-se necessário fornecer opções de estilos cúlticos que agradem aos diversos gostos.
A secularização ganha terreno dentro das igrejas à medida que elas deixam de lado o padrão bíblico de nos apresentarmos diante de Deus com mãos limpas, sem qualquer associação com o que é pecaminoso, oferecendo o nosso próprio corpo em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: o culto racional (Rm 12.1). Em lugar deste padrão, abrem espaço para cultos absolutamente intuitivos onde se valoriza o que se sente. O apelo emocional faz com que todos passem por verdadeiras sessões de catarse norteadas pelo hedonismo, enquanto gastam-se até quinze minutos numa mesma música que se repete várias vezes numa espécie de lavagem cerebral.
Algumas composições recentes têm acompanhado essa tendência e se revelado igualmente superficiais nas suas respectivas letras. Portanto, na função musical de subsidiar o texto, expressão, deixam a desejar. Fala-se muito em “poder”, apela-se às emoções, declaram-se coisas, ordena-se, mas não se fala da pessoa e obra de Cristo, dos atributos de Deus, muito menos das doutrinas da graça. Parece que os ideais da Reforma, que incluem a necessidade de cantarmos a nossa fé, foram abandonados. É difícil encontrar profundidade no conhecimento de Deus e da Sua vontade por meio das letras. Não se fala em mudança de vida, em verdadeiro arrependimento, em obediência, em fazer a vontade do Pai. O importante é sentir-se bem. Assim caminham as igrejas secularizadas onde os membros se sentem bem.
Calvino, ainda no século 16, já havia percebido os perigos da secularização oferecidos pelo uso da música na igreja: “Há sempre a considerar-se que o canto não seja frívolo e leviano; pelo contrário, tenha peso e majestade, como diz Agostinho. E, assim, haja grande diferença entre música feita para alegrar os homens à mesa ou em casa e os salmos que se cantam na igreja, na presença de Deus e dos seus anjos.”
CRISE DE IDENTIDADE
O processo de secularização vem impingindo sobre a igreja uma verdadeira crise de identidade. Hoje é possível confundir cultos dominicais com shows onde os popstars desfilam roupas extravagantes e são utilizados recursos de ponta em iluminação e jogos de luzes coloridas. As máquinas de fumo tornam o cenário opaco e acentuam ainda mais as cores vivas dos holofotes. A impressão que isso causa não é de adoração a Deus, mas de entretenimento e, por que não dizer, carnalidade.
O volume do som é altíssimo; quase comparado ao ruído que produz uma turbina de avião. Porquê? Porque as batidas de uma música em alto volume estimulam a produção de adrenalina, um hormónio que é extremamente estimulante e que encoraja a tomar certas atitudes que não se tomaria em condições normais. É por essa razão que o volume do som numa pista de dança é tão alto. Agora algumas igrejas compartilham do mesmo princípio que o mundo: precisam de som alto para que os crentes sejam estimulados e estejam “livres” para adorar ou “libertem o louvor”. E ainda atribuem essa “libertação” ao Espírito Santo.
Creio que uma frase que ouvi de uma jovem que frequenta cultos “alternativos”, que mais parecem uma “festa de abanar o capacete”, segundo as suas próprias palavras, ilustra bem a crise de identidade da igreja moderna: “eu acho que o louvor tem que ser assim mesmo, senão ninguém sente vontade de entrar na igreja para assistir a um culto”. Se o propósito da igreja fosse atrair curiosos e carentes de diversão, tudo bem; mas a Bíblia ensina-nos algo diferente: “vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes d'Aquele que vos chamou das trevas para a Sua maravilhosa luz” (1Pe 2.9). O nosso maior propósito é glorificar a Deus e isso fazemos cultuando com ordem e decência (1Co 14.40) e manifestando a glória de Deus ao mundo por meio de uma vida santa e da pregação da Palavra (Sl 96.1-3).
Para muitos líderes, é melhor que os jovens dancem, pulem e "abanem o capacete" na igreja do que num salão de baile. E assim a igreja vai perdendo cada vez mais a sua identidade e a sua voz profética. Como condenar o comportamento mundano dos incrédulos, se dentro da igreja se faz o mesmo? “Somos livres para fazermos o que quisermos”, alegam uns, mas a Palavra de Deus encerra a questão: “Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne” (Gl 5.13).
- De um artigo de Charles Melo de Oliveira (IPB)