A Ira de Deus

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     Este artigo é da revista "Our Hope" [A Nossa Esperança] de Fevereiro de 1917.

     "Porquanto há furor [ou, ira], guarda-te de que porventura não sejas levado pela tua suficiência, nem te desvie a grandeza do resgate" (Job 36:18)

     Este é um dos sinais de perigo que Deus colocou na senda do pecador para o Inferno. A cada passo do Caminho Espaçoso há placas indicativas que avisam sobre a Destruição que jaz adiante. O professor da Escola Dominical, as orações de pais piedosos, os sermões de pregadores fiéis, o pequeno folheto do Evangelho, os avisos da consciência, o temor inato da morte, as declarações das Sagradas Escrituras, são muitos obstáculos que Deus coloca em todo o caminho do pecador – por conseguinte, muitas barreiras para o Lago de Fogo.

     Uma das principais razões porque Deus escreveu a Bíblia foi para avisar o pecador das terríveis consequências do pecado, e para convidá-lo a fugir da ira futura.

     O nosso texto é um desses avisos. Há muitos destes textos espalhados por toda a Bíblia. Nós mencionamos um ou dois aleatoriamente. “… sentireis o vosso pecado, quando vos achar” (Núm. 32:23). “…aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo” (Heb. 9:27). “…se vos não arrependerdes, todos de igual modo perecereis” (Lucas 13:5). “Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação …?” (Heb. 2:3).

     O nosso texto inicial divide-se naturalmente sob três cabeçalhos:


     I. Um Facto Terrível

     "Porquanto há furor [ou, ira]."

     A referência aqui é à ira de Deus. A respeito da ira de Deus contemplemos agora quarto coisas: 


     1. O Facto da Ira de Deus

     Os homens tentam esquecer que existe algo como a ira Divina. A tomada de consciência dela traz-lhes desconforto, por isso esforçam-se por banir todo e qualquer pensamento sobre a mesma. Às vezes ficam aterrorizados com a simples menção da ira de Deus, daí a sua ansiedade em afastar o assunto das suas mentes. Outros tentam crer que não existe tal coisa. Argumentam que Deus é amor e misericordioso, e que por conseguinte a Ira de Deus é meramente um espantalho para assustar crianças desobedientes. Mas como é que nós sabemos que Deus é Amoroso e Misericordioso? Os pagãos não crêem que Ele seja assim. Nem a natureza revela este facto clara e uniformemente. A resposta é: nós sabemos que Deus é assim, porque a Sua Palavra o afirma. Sim, e a mesma Bíblia que nos fala da Misericórdia de Deus fala da Sua Ira, e na verdade, refere-se mais frequentemente (muito mais) à Sua ira do que ao Seu amor.

     O facto da Ira de Deus está claramente revelado nas Escrituras. “Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida; mas a ira de Deus sobre ele permanece” (João 3:36). “Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens …” (Rom. 1:18). “Ninguém vos engane com palavras vãs; porque por estas coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência” (Efé. 5:6). Nestas e noutras passagens demasiado numerosas para serem mencionadas, o facto da Ira divina está afirmado. E agora consideremos:


2. A Necessidade da Ira de Deus

     A Ira é uma das perfeições divinas. Se Deus não punisse os malfeitores Ele seria um interventor na realização da maldade, Ele cederia à maldade, Ele absolveria o pecado. Deus é necessariamente um Deus de Ira. Consideremos um argumento a partir do menor para o maior. Na esfera humana aquele que ama a pureza e a castidade e não se ira contra a impureza e a não castidade é um leproso moral. Aquele que se compadece do pobre e do indefeso e não se ira contra o opressor que esmaga o fraco e arruína o indefeso, mas também os ama, é um demónio. A ira divina é a santidade divina em actividade.. Porque Deus é santo Ele odeia o pecado, e porque Ele odeia o pecado a Sua ira inflama-se contra o pecador. Como está escrito, “aborreces a todos os que praticam a maldade” (Sal. 5:5). E de novo, “Deus é um juiz justo, um Deus que se ira todos os dias” (Sal. 7:11). E agora


3. A Manifestação da Ira de Deus

     A ira de Deus não é uma qualidade abstracta. A ira de Deus não é algo inactivo e inoperativo. Durante os tempos do Velho Testamento a ira de Deus foi notavelmente manifestada de forma aberta contra os malfeitores no Dilúvio; na destruição de Sodoma e Gomorra com fogo e enxofre do céu; sobre os Egípcios e o seu arrogante rei, quando Ele visitou a sua terra com pragas, matou os seus primogénitos e destruiu os seus exércitos no Mar Vermelho; e nos Seus tratos com a nação de Israel, ao entregá-los nas mãos dos seus inimigos, ao enviá-los para o cativeiro e ao destruir a sua amada cidade. A ira de Deus contra o pecado foi publicamente manifestada na Cruz, quando as Suas ondas e vagas passaram sobre a cabeça do bendito Sustentador do Pecado. “Estou aflito, e prestes a morrer desde a Minha mocidade: quando sofro os Teus terrores, fico perturbado. A Tua ardente indignação sobre Mim vai passando: os Teus terrores fazem-Me perecer” (Sal. 88:15,16) foi o Seu clamor solene. E agora:


4. A Grandeza da Ira de Deus

     A ira humana é muitas vezes algo terrível. As Escrituras assemelham a ira de um rei ao rugido de um leão. Quando a ira de um homem se torna o melhor dele e ele permite que a sua fúria expluda todas as restrições, é algo temível de observar. As Escrituras também falam do Diabo ter “grande ira, sabendo que já tem pouco tempo” (Apo. 12:12). Mas o que se há-de dizer da Ira de Deus? A que é que a assemelharemos? Quão indescritivelmente terrível deve ser a irrefreável e pura ira de um tal Ser! A que compararemos a ira d’Aquele que fez os céus e a terra pela Palavra do Seu poder, que falou e foi feito, que ordenou e logo surgiu! A que deve ser comparada a ira d’Aquele que sacode a terra e faz com que os seus pilares tremam! A que se assemelhará a ira d’Aquele que repreende o mar e o seca, que move as montanhas dos seus lugares e as abate na Sua ira! A que se comparará a ira d’Aquele cuja majestade é tão terrível que nenhum humano pode encarar, e em cuja presença os próprios Serafins velam os seus rostos!

     As Escrituras falam da ira de Deus se “acender” (Êxo. 22:24). Declaram que “grande é o furor do Senhor” (2 Reis 22:13). Fazem menção do “furor e da ira do Deus Todo-poderoso” (Apo. 19:15). Referem-se à ira de Deus cair sobre os pecadores “até ao fim” (1 Tes. 2:16). Tudo sobre Deus é único. O Seu poder é omnipotente. A Sua sabedoria é de grande profundidade. O Seu amor é insondável. A Sua graça é incomensurável. A Sua santidade é inacessível. E como todas as Suas outras perfeições e atributos, a ira de Deus é incomparável, incompreensível, infinita. Será a ira do Deus Todo-poderoso! E a que se assemelhará a ira do Todo-poderoso quando ela cair sobre os pecadores “até ao fim”? E que poder de resistência criaturas do pó, pobres, frágeis têm para suportar o peso pleno da mesma? Nenhum. Nenhum em absoluto. Ela esmagá-los-á. Ela consumi-los-á completamente. Ela esmagá-los-á mais facilmente do que nós um verme sob os nossos pés. Ela afundá-los-á na profundidade mais baixa do desespero irremediável. Será intolerável e insuportável. E ainda assim terá de ser suportada – conscientemente suportada – suportada dia e noite para todo o sempre! Que estes solenes pensamentos inexprimíveis possam preparar o leitor perdido para divisão seguinte do nosso texto.


II. Um Aviso Solene

     Face a este facto terrível, "Porquanto há furor [ou, ira], guarda-te de que porventura não sejas levado [ou seja, tomado pelo Seu golpe]”.

     Os pecadores mesmo agora são ameaçados com a ira de Deus, sim, eles são por natureza “filhos da ira.” É verdade que a ira de Deus agora está suspensa temporariamente, porque este dia é dia de salvação. É verdade que o tempo para a sua manifestação aberta, plena e final ainda não chegou. É verdade que agora os pecadores muitas vezes desafiam Deus com aparente impunidade, e por causa disso os ímpios espalham-se como loureiros viçosos. “E, todavia, dizem a Deus: Retira-Te de nós; porque não desejamos ter conhecimento dos Teus caminhos. Quem é o Todo-poderoso, para que nós O sirvamos? E que nos aproveitará que lhe façamos orações?” (Job. 21:14, 15). Que os tais ouçam o aviso divino, “Oxalá eles fossem sábios! que isto entendessem, e atentassem para o seu fim! Porque a sua rocha não é como a nossa Rocha; sendo até os nossos inimigos juízes disto. Porque a sua vinha é a vinha de Sodoma e dos campos de Gomorra: as suas uvas são uvas de fel, cachos amargosos têm. O seu vinho é ardente veneno de dragões, e peçonha cruel de víboras. Não está isto encerrado Comigo? selado nos Meus tesouros? Minha é a vingança e a recompensa, ao tempo que resvalar o seu pé: porque o dia da sua ruína está próximo, e as coisas que lhes hão de suceder, se apressam a chegar” (Deut. 32:29, 31-35). O pecador está a pisar um caminho mais escorregadio do que o gelo, e a menos que ele renuncie a ele, no devido tempo o seu pé escorregará. O arco da ira de Deus já está curvado. A flecha da Sua vingança está agora mesmo colocada nele, e nada a não ser a Sua longanimidade sustém o seu disparo. Meu leitor, a única razão porque ainda não foste lançado no fogo do Inferno é porque tem sido bom prazer do Altíssimo suster a tua condenação. Foge então da ira vindoura enquanto ainda há tempo.

     “E tu, ó homem, ... cuidas que ... escaparás ao juízo de Deus?” (Rom. 2:3). Adão escapou ao juízo de Deus? Escaparam, Caim, Faraó, Acã, Hamã? A única razão que Deus tem para que “não sejas levado [ou seja, tomado pelo Seu golpe]” antes disto é porque Ele suporta com muita longanimidade os vasos da ira preparados para a perdição.

     O tempo da oportunidade do pecador para fugir da ira de Deus é sobremaneira breve e limitado. O que é triste e trágico é que tão poucos o realizem. O pecador vê pouco motivo de alarme e falha em apreender a sua necessidade imperativa de aceitar imediatamente Cristo como seu Salvador. Ele imagina-se seguro. Ele continua no seu pecado, e porque o juízo de uma má obra não é executado de forma célere ele aumenta na sua ousadia contra Deus. Mas os caminhos de Deus são diferentes dos nossos. Não há necessidade de Deus estar com pressa – toda a eternidade está à sua disposição. Quando um homem rouba outro, levanta-se de imediato o clamor, “Agarra que é ladrão!” para que ele não escape. Quando um assassinato é cometido os cães de caça da lei procuram de imediato ir no encalço do culpado. É oferecida uma recompensa para que ele tão consiga escapar à justiça. Mas com Deus é diferente. Ele não se apressa na execução do juízo porque Ele sabe que o pecador, não pode escapar d’Ele. É impossível fugir dos Seus domínios! Em devido tempo toda a transgressão e desobediência receberão “a justa retribuição”.

     "Porquanto há furor [ou, ira], guarda-te de que porventura não sejas levado [ou seja, tomado pelo Seu golpe].” A referência imediata é a morte – a remoção do pecador da terra para sofrer a vingança do fogo eterno. As Escrituras fornecem muitos exemplos solenes do súbito golpe de Deus cortando os pecadores da “terra dos viventes.” “E os filhos de Aarão, Nadabe e Abiú, tomaram cada um o seu incensário, e puseram neles fogo, e puseram incenso sobre ele, e trouxeram fogo estranho perante a face do Senhor, o que lhes não ordenara. Então saiu fogo de diante do Senhor, e os consumiu; e morreram perante o Senhor” (Lev. 10:1,2). De novo, “O rei Belsazar deu um grande banquete a mil dos seus grandes, e bebeu vinho na presença dos mil. ... Na mesma hora apareceram uns dedos de mão de homem, e escreviam, defronte do castiçal, na estucada parede do palácio real. ... Esta pois é a escritura que se escreveu: … Pesado foste na balança, e foste achado em falta. ... Naquela mesma noite foi morto Belsazar, rei dos caldeus” (Dan. 5). Leitor perdido, podes estar a usufruir da saúde e força da juventude, no entanto, não sabes quando surgirá a terrível convocação, “Esta noite pedirão a tua alma.” Volvamo-nos agora para a última cláusula do nosso texto que mencionámos:


III. Uma Impossibilidade Total

     “Porquanto há furor [ou, ira], guarda-te de que porventura não sejas levado pela tua suficiência, nem te desvie a grandeza do resgate [ou, então um grande resgate não te poderá livrar].”

     Todo o membro da raça de Adão merece grandemente a Ira de Deus. Tudo reclama para que o juízo desça sobre nós - os nossos pecados que têm-se amontoado até ao céu; as nossas vidas inúteis, gastas em gratificação egoísta sem qualquer respeito pela glória de Deus; a nossa indiferença e falta de cuidado a respeito do futuro bem-estar das nossas almas; as nossas recusas repetidas em responder aos convites da graça de Deus. Mas a misericórdia de Deus tem providenciado um “Resgate” – uma “cobertura” para o pecado – Cristo! O nosso texto fala deste resgate como “grande” – grande no seu valor, grande no seu alcance, grande na sua eficácia, grande porque livra de tão grande morte e assegura uma tão grande salvação. Mas apesar deste “resgate” ser grande, de nada valerá para aqueles que o ignoram e rejeitam.

     “Guarda-te de que porventura não sejas levado pela tua suficiência, nem te desvie a grandeza do resgate [ou, então um grande resgate não te poderá livrar].” Se este resgate for desprezado então não haverá possibilidade de escape para o pecador. Se Cristo for rejeitado restará nada mais senão ira. Como este texto destrói a “Grande Esperança”! Como repudia qualquer possibilidade de uma “Segunda Oportunidade” no mundo vindouro! Como fecha efectivamente a porta da esperança a todos os que morrem nos seus pecados! Se o golpe de Deus os remover deste mundo, “então um grande resgate não os poderá livrar.” Há outros textos das Escrituras igualmente explícitos. “O homem que muitas vezes repreendido endurece a cerviz, será quebrantado de repente sem que haja cura” (Prov. 29:1). Para o pecador não há remédio, nenhuma libertação, nenhuma esperança para além do sepulcro.

     “Então um grande resgate não te poderá livrar.” Porquê? Porque está ordenado aos homens morrerem uma vez, vindo depois disso – não uma segunda oportunidade, não uma prova adicional, mas – o juízo. Porquê? Porque na morte o pecador vai imediatamente para o Inferno (Lucas 16:22,23) e ali não há nenhuma pregação do Evangelho nem o Espírito Santo estará ali para operar a novidade de vida. Porquê? Porque ali nada mais aguarda os tais senão “a ressurreição da condenação” (João 5:29) e o juízo do Grande Trono Branco.

     “Então um grande resgate não te poderá livrar.” Porquê? Porque o arrependimento então será demasiado tarde. “Pelo que também Eu procederei com furor; o Meu olho não poupará, nem terei piedade: ainda que Me gritem aos ouvidos com grande voz, Eu não os ouvirei” (Eze. 8:18). Assim, um grande resgate não te poderá livrar. Porquê? Porque, todo o nome que não foi encontrado no livro da vida, foi lançado no Lago de Fogo – e um “lago” não tem saída!

     Eis então aqui um aviso solene contra a indiferença, "Porquanto há furor [ou, ira]." Eis um aviso solene contra a procrastinação, “guarda-te de que porventura não sejas levado [ou seja, tomado pelo Seu golpe]”. Eis um aviso solene contra a espera de uma outra oportunidade depois da morte. “Então um grande resgate não te poderá livrar.” Eis um poderoso apelo para aceitar Cristo AGORA. “Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação ...?” Não escaparemos” Não haverá nenhum escape! Então “Buscai ao Senhor enquanto Se pode achar, invocai-O enquanto está perto.”



 

"Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo."


Arthur W. Pink

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