Momentos cruciais do Calvário

Esboço de sermão pregado por C.M.O. há mais de 20 anos na Igreja em Quinta do Conde:

1. AS TREVAS (Mat. 27.45).

     Trevas ao meio-dia e durante 3 horas – trevas como as espessas trevas do Egipto, que se podiam apalpar – um súbito cair da escuridão da meia-noite. No nascimento do Senhor Jesus as trevas da noite converteram-se em glória luminosa refulgente; agora a plenitude do dia converte-se em noite de breu infernal.

     Não, não se tratou de um eclipse do sol, pois as trevas foram muito prolongadas, e porque se comemorava Páscoa dos judeus, que, como se sabe, era comemorada sempre na altura de Lua Cheia, quando é impossível haver um eclipse do sol. Os próprios inimigos da cruz não negaram as trevas miraculosas. Não consta ter havido algum desmentido quando isto foi proclamado e Mateus escreveu.

     Eis um “horror de umas grandes trevas” em que as de Abraão não passam de mera sombra (Gén. 15.12). DEUS É LUZ; as trevas são o indício da ausência de Deus! Cristo ficou só com os nossos pecados. Mergulhou nas trevas para eu poder andar na luz.


2. O RASGAR DO VÉU (Mat. 27.51).

     Foi o fim do monopólio da religião Judaica, o fim do sacerdócio terreno! O rasgar do véu não foi resultado de um terramoto, pois o resto da estrutura do templo estava intacta. Também não foram mãos humanas que o fizeram, pois para além de não o conseguirem face à sua espessura, lemos que o rasgão se deu de alto a baixo. (Os homens rasgá-lo-iam de baixo a cima). Acresce que o rasgão ocorreu durante o sacrifício da tarde, quando os sacerdotes estavam a ministrar no Lugar Santo, constituindo-se testemunhas do portentoso evento. Percebem agora porque é que lemos em Actos 6.7 que um grande número de sacerdotes obedeceu à fé?

     Heb. 10.20 é o comentário divino ao acontecimento. O véu é típico da carne do Senhor Jesus rasgada, para dar-nos finalmente acesso à presença de Deus. Ele morreu para levar-nos a Deus. Agora não são precisos sacerdotes. O caminho está aberto. Aberto a todos. Só tens que te aproximar com um coração em inteira certeza de fé. A porta está aberta. Por que é que esperas?


3. O TREMOR DE TERRA CIRÚRGICO ABRIU OS SEPULCROS (Mat. 27.51,52).

     Vemos aqui convulsões da natureza em termos de triunfo e não de terror, como no Sinai. Terramotos sempre houve, mas tremores de terra cirúrgicos são milagres de precisão, como a queda dos muros de Jericó.

     O tremor de terra e a abertura dos sepulcros fez com que o Centurião temesse grandemente e dissesse: “Na verdade este era o Filho de Deus”.

     Só Mateus regista este fenómeno, mas este Evangelho de Mateus surge durante o tempo de vida das testemunhas, e por isso constituiu um desafio para que alguém o negasse, o que nunca aconteceu.

     O efeito cirúrgico deste tremor de terra não pode deixar de ser notado. Notemos:

     As rochas foram fendidas, mas as cruzes permaneceram de pé. Os sepulcros foram abertos, sem dúvida como resultado do tremor de terra, mas não se tratou de uma abertura promíscua, geral. Tratou-se duma abertura restrita. Foram só os sepulcros dos santos que se abriram.

     O Senhor Jesus provou assim que venceu a morte. Ao vermos os santos saírem vemos que a morte já não tem poder sobre quem crê. Alerta! A hora vem em que os mortos ouvirão a Sua voz, mas cuidado, pois “Não vos maravilheis disto; porque vem a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a Sua voz. E os que fizeram o bem sairão para a ressurreição da vida; e os que fizeram o mal para a ressurreição da condenação”(João 5.28,29). Como é que é contigo? Como vais morrer? Salvo ou perdido? Cuidado com o «Apartai-vos de Mim malditos para o fogo eterno».

     O malfeitor converteu-se. Ele compreendeu nos últimos momentos da vida o que muitos não compreendem numa vida inteira. Não conheço ninguém que melhor usasse a sua última oportunidade. Quem te garante que esta não é a tua última oportunidade? A conversão dele não se baseou nos milagres da cruz, pois não se tinha ainda realizado nenhum. A fé dele assentou nos fundamentos da Bíblia e confessou-os. Revelou temer cair nas mãos do Deus vivo. Não tinha falsas noções da sua culpabilidade ou da justiça da sua condenação – “Nós recebemos o que os nossos feitos merecem”. Confessou a impecabilidade do Senhor Jesus – “Este Homem não fez nenhum mal”. Confessou a sua fé na ressurreição – “Senhor, lembra-Te de mim quando entrares no Teu reino”. Como, se Ele ia morrer? Porque cria que Ele ressuscitaria! A Bíblia diz, “Se com a tua boa confessares o Senhor Jesus, e em teu coração creres que deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo” (Rom. 10:9).

     Por que esperas? Decide-te, já. Verás o que receberás! O que pediu ele? Um pensamento – “lembra-Te”. O que obteve? Uma presença – “estarás Comigo”. Pediu um pensamento no futuro e obteve uma presença no presente.

     “Ora àquele que é poderoso para fazer, muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos, a Esse glória na Igreja por Jesus Cristo.”

     Momentos cruciais foram também os das palavras de Jesus na cruz:
 
     «Deus Meu, Deus Meu, porque me desamparaste?» Marcos 15.34

     Convido-vos a vir aqui ao Calvário. Eis onde estamos com os nossos pés, se é que podemos ter aqui os nossos pés. Temos que ter cuidado com a curiosidade sacrílega ou intrusão imunda. Parece que ouço o Senhor dizer-nos, «para onde vou não Me podeis seguir agora» (João 13.33).

     Cristo proferiu estas palavras ao fim de 3 horas de trevas onde o silêncio reinou. Talvez que os únicos sons que se ouvissem fossem  os gemidos dos condenados e o seu sangue a gotejar aos pés das cruzes. Naquelas 3 horas os lábios humanos, profanos e piedosos, devem Ter sido selados com a intensidade e terror daquelas trevas.

     Acerca do destino da oferta pelo pecado no grande dia da expiação, Deus disse, «Assim aquele bode levará sobre si todas as iniquidades deles à terra solitária; e deixará o bode no deserto » (Lev. 16..22). Na cruz, da 6ª à 9ª hora, a nossa Oferta pelo pecado, esteve numa terra solitária, não habitada. Nem mesmo Deus estava ali. «Deus Meu, Deus Meu, porque me desamparaste?». Ninguém sabe qual a profundidade das águas que Ele atravessou. Se em graça, um dia é como mil anos, há uma eternidade de sofrimento naquelas 3 horas de juízo e trevas.

     À luz do dia vemos o sofrimento do Senhor às mãos dos homens. Nas trevas, sofreu o juízo de Deus. No primeiro temos a injustiça dos homens, no segundo a justiça de Deus. Por causa do clamor Orfão do Salmo 22 temos o companheirismo do Salmo 23. Por causa de tudo o que Lhe ”falta” no Salmo 22, nada me faltará no Salmo 23. Porque Ele clamou «Deus Meu, Deus Meu, porque me desamparaste?», eu clamo «O Senhor é o meu Pastor». Porque Ele morreu nada mais me foi deixado senão o vale da sombra da morte onde não temo mal algum.

    " Porquê?" Todos usam esta interrogação na angústia ou na perplexidade.

     1. Nós não compreendemos o porquê do clamor do Salvador porque a medida dele é a medida da nossa culpa.

     Porque não compreendemos o pecado – o seu carácter, a sua corrupção, a sua enormidade, a sua culpabilidade. Ah o pecado! Vemos aqui o pecado no seu pior. Na sua primeira manifestação tomou a forma de suicídio, pois Adão destruiu a sua própria vida espiritual; depois vemo-la na forma de fraticídio - Caim mata o seu próprio irmão; na cruz o clímax é atingido na forma de deicídio - o homem crucificando o Filho de Deus.

     2. Não compreendemos esse porquê porque não compreendemos a santidade.

     A resposta à pergunta é dada no mesmo Salmo donde ela é citada, «Mas Tu és santo». David não fazia ideia do que escrevia. Nunca nenhum homem foi abandonado por Deus em vida. Enquanto a lâmpada da vida cintilar, e o maior pecador puder voltar, ninguém pode ser abandonado por Deus. David disse, «Fui novo e agora sou velho; e nunca vi o justo abandonado nem a sua semente a mendigar pão» (Sal. 37.25) Paulo disse, «perseguido mas não abandonado» «Todos me abandonaram, mas o Senhor assistiu-me» (2 Tim. 4.16,17).

     Não o compreendemos porque não compreendemos a santidade inacessível, a santidade ultrajada, a santidade defendida.

     Ele teve que condenar o pecado.

3. Não a compreendemos porque não compreendemos o amor, a graça e a salvação.

     Serão precisos os séculos dos séculos – a eternidade – para compreendermos as abundantes riquezas da Sua graça para connosco. Se pudéssemos sondar a profundidade das riquezas, tanto da sabedoria como da ciência de Deus, se pudéssemos perscrutar os Seus juízos, e descobrir os Seus caminhos; se pudéssemos conhecer o intento do Senhor e sermos Seu conselheiro, poderíamos começar a compreender esse porquê (Rom. 11.33,34). 

     Na natureza a profundidade de certas águas é determinada pela altura das montanhas circundantes. Na base nesse princípio, podemos dizer que nunca poderemos compreender as profundidades porque não podemos atingir as alturas.

     Em Deut. 21.18-23 há uma lei solene para os filhos rebeldes. Quando se chegava ao ponto em que os pais já não aguentavam com a sua teimosia na rebeldia, o filho era levado aos anciãos da cidade e era apedrejado até à morte. Se fosse enforcado, para espectáculo dos que passavam, tinha que ser sepultado antes do anoitecer.

     O que é notável é que não há um exemplo dessa lei ser levada a cabo. Depreende-se que todos os pais poupavam os filhos. Até Absalão, o filho rebelde de David, que merecia ser apedrejado até à morte! Lemos na Bíblia que David pede aos capitães do seu exército que vão ao encontro das forças do seu filho rebelde: «Tratai os jovens gentilmente, mesmo Absalão». Se na fuga ele fica pendurado pelos cabelos numa árvore, não é a mão do pai que o mata, mas a de um capitão, Joab, que não dá ouvidos às ordens do seu rei.

     Se olharmos para as páginas iniciais do NT deparamos logo com um Filho obediente. «Este é o meu filho em Quem Me comprazo», diz o Pai. Mas se continuarmos a olhar vêmo-Lo depois pendurado num madeiro. Ele não poupou o Filho mas entregou-O por todos nós. Todo o pai do VT poupou os seus filhos. Isto é o máximo! – Aquele que podia poupar o Filho, o único que obedeceu sempre e com perfeição em tudo, não O poupou. Isto deve-nos levar à prostração diante da cruz! Ah, as palavras que por causa disso podemos ouvir, «Nunca, nunca te deixarei nem te desampararei»!

Abandonado por Deus! O inferno é o lugar onde Deus não é encontrado nem visto. «Da Tua face estarei escondido», comentou Caim. Os impenitentes serão punidos com a separação da face de Deus (2 Tes. 1.9).

     O preço da nossa proximidade - «chegastes perto» - foi o Seu afastamento, distanciamento e abandono. O preço de vermos a face do Pai foi Deus Ter-Lhe virado as costas.

     Por causa da aflição daquela eternidade comprimida na cruz, «a nossa leve e momentânea tribulação não é para comparar com a glória que em nós há-de ser revelada» (2 Cor. 4.17).


Notemos a ocasião em que isto aconteceu:

     Foi na hora 9ª, a hora do sacrifício da tarde, que Ele clamou, «Deus Meu, Deus Meu, porque me desamparaste?». Eram 3h da tarde. É importante recuarmos no tempo para vermos o alto significado disto.

     1. Elias não foi abandonado quando enfrentou sozinho os milhares de Israel e os 450 profetas de Baal. Foi no monte Carmelo - Jardim de Deus, chamado assim pela sua verdura, árvores, flores e relva, o lugar mais aprazível da região. Monte Carmelo cuja base tocava as águas do Mediterrâneo, e cujo cume obtinha dele uma panorâmica excelente. Baal era o senhor do sol - vejamos se o prova! Jeová respondeu com fogo na Sarça Ardente, na coluna de fogo à noite, no cume do Sinai, sobre os murmuradores em Israel. Quando chega a vez de Elias, após o fracasso dos outros, lemos em I Reis 18.36, «Sucedeu pois que, no momento de ser oferecido o sacrifício da tarde, o profeta Elias se aproximou, e disse: O SENHOR Deus de Abraão, de Isaque e de Israel, manifeste-se hoje que tu és Deus em Israel, e que eu sou teu servo, e que conforme à tua palavra fiz todas estas coisas. Responde-me, SENHOR, responde-me, para que este povo conheça que tu és o SENHOR Deus, e que tu fizeste voltar o seu coração. Então caiu fogo do SENHOR, e consumiu o holocausto, e a lenha, e as pedras, e o pó, e ainda lambeu a água que estava no rêgo». Foi na hora do sacrifício da tarde que ele orou e Deus ouviu. Foi à hora nona, às três da tarde. No entanto o Senhor clamou e foi abandonado. Mas atentemos um pouco mais e vejamos não o fogo a consumir o sacrifício mas o sacrifício a consumir o fogo do juízo.

     2. Daniel 9.21. «Estando eu, digo, ainda falando na oração, o homem Gabriel, que eu tinha visto na minha visão ao princípio, veio, voando rapidamente, e tocou-me, à hora do sacrifício da tarde». Daniel, o homem que foi pesado na balança e não achado em falta ora e é atendido às 3h da tarde. Aquele que é mais puro do que Daniel orou e teve que clamar «Deus Meu, Deus Meu, porque me desamparaste?».

     3. Esdras 9.5. « E perto do sacrifício da tarde me levantei da minha aflição, havendo já rasgado as minhas vestes e o meu manto, e me pus de joelhos, e estendi as minhas mãos para o SENHOR meu Deus». O poderoso rogo de Esdras moveu os corações do povo. Ler 10.1- «E enquanto Esdras orava, e fazia confissão, chorando e prostrando-se diante da casa de Deus, ajuntou-se a ele, de Israel, uma grande congregação, de homens, mulheres e crianças; pois o povo chorava com grande choro. Então Secanias, filho de Jeiel, um dos filhos de Elão, tomou a palavra e disse a Esdras: Nós temos transgredido contra o nosso Deus, e casamos com mulheres estrangeiras dentre os povos da terra, mas, no tocante a isto, ainda há esperança para Israel.   Agora, pois, façamos aliança com o nosso Deus de que despediremos todas as mulheres, e os que delas são nascidos, conforme ao conselho do meu senhor, e dos que tremem ao mandado do nosso Deus; e faça-se conforme a lei.  Levanta-te, pois, porque te pertence este negócio, e nós seremos contigo; esforça-te, e age».

     4. Pedro é ouvido na hora nona (Actos 3.1) - «E Pedro e Joäo subiam juntos ao templo à hora da oraçäo, a nona», quando invoca o nome do Senhor e o coxo é curado.

     5. Cornélio foi ouvido porque o Senhor Jesus foi desamparado (Act. 10.3) «E havia em Cesaréia um homem por nome Cornélio, centurião da coorte chamada italiana, piedoso e temente a Deus, com toda a sua casa, o qual fazia muitas esmolas ao povo, e de contínuo orava a Deus. Este, quase à hora nona do dia, viu claramente numa visão um anjo de Deus, que se dirigia para ele e dizia: Cornélio».

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