A negação da existênciade Deus

O ateísmo é um mergulho na lama


A PROPAGAÇÃO DA ATEÍSMO NO MUNDO

    
“Disse o néscio no seu coração: Não há Deus" (Salmo 14:1. ARC). O ateísmo é hoje uma realidade no mundo. Nenhum Cristão deve ignorar ou ficar indiferente diante deste facto.

     Existe um movimento de negação formal da existência de Deus, e é grande o número de pessoas que têm-se deixado influenciar pela atitude dos que afirmam não acreditar na existência de um Deus Criador do Universo, cujo Filho deu sua vida para salvar a humanidade.

     Porém, desde já devemos reconhecer que o ateísmo, seja qual for a forma como ele se apresente, é uma violência que o homem pratica contra sua própria consciência, é uma tentativa de anulação e desconhecimento de todas as provas da existência de Deus produzidas ao longo de toda a história humana.

     Além do mais, sabe-se que até hoje nenhum ateu fez uma demonstração racional que justificasse a "lógica" do seu ateísmo. "O primeiro ateu deve ter sido um delinquente que procurava, negando a Deus, livrar-se da única testemunha da qual ele não podia ocultar o seu crime", observou certa vez, com muita propriedade, o escritor italiano Giovani Papine. O ateísmo tem-se constituído também em um princípio de dúvidas para as pessoas que só acreditam que Deus existe baseadas nas clássicas demonstrações da Sua existência, mas ainda não foram introduzidas, pelo Sumo Sacerdote e Salvador da humanidade, Jesus Cristo, no "Santo dos Santos, onde Deus habita". Vejamos como e através de quem o movimento ateísta popularizou-se no mundo moderno.


O ATEÍSMO, DA ANTIGUIDADE AOS NOSSOS DIAS

    
Jamais foram encontrados povos ateus. Contudo, se examinarmos o pensamento dos grandes homens da Antiguidade, descobriremos certas posições isoladas de filósofos que afirmavam não acreditar na existência de Deus. Porém, devemos atentar para um aspeto importante do ateísmo. Quando o ateu diz: "Deus não existe", a que Deus ele estará negando? Ao verdadeiro Deus? Ele nega a existência de Deus, seja qual for o modo como imagina que Deus seja, ou nega a existência de um deus imaginado de uma certa maneira?

    
O escritor francês Jean Claude Barreau conta uma experiência vivida por ele no período em que negar a existência de Deus era moda na França, em decorrência da propagação da filosofia existencialista: "Naquela época estavam representando no teatro a peça 'O Diabo e o Bom Deus', de Jean Paul Sartre, peça que causava horror aos meus companheiros de fé. Fui assisti-la e ela nem me atingiu. Era Baal, era Moloc que Sartre denunciava. Não era o meu Deus. Eu abominava o deus de Goetz (um dos personagens da peça) tanto quanto Sartre."E é Jean Claude que nos fornece a frase ideal para ser usada como resposta a esses ateus equivocados: "Isto que tu recusas eu também não aceito, porque nada tem a ver com o Deus dos Evangelhos." "Um dia o semblante do Deus dos Evangelhos me fascinou. E este semblante que vi é bem distinto das ideias de Deus que muitas pessoas têm em mente. Este retrato de Deus vai muito para além das definições dogmáticas." 1

    
Alguns homens da Antiguidade, ao se posicionarem como ateus, nem sempre estavam negando a existência do verdadeiro Deus, e sim dos "deuses", por não concordarem com o politeísmo existente em seus países. Foi o caso dos filósofos gregos Anaxágoras e Sócrates. Este último chegou, inclusive, a ser julgado e condenado à morte sob a acusação de estar corrompendo a juventude com ideias ímpias. Ou seja: Sócrates estava levando os jovens a não acreditarem na existência dos deuses em que o povo grego acreditava, os mesmos deuses a quem Paulo se referiu no seu discurso no Areópago (Atos 17:22-25).Ora, já naquela época, o célebre filósofo grego Platão (427-348 a.C), discípulo de Sócrates, havia criticado a posição ateística, dirigindo energicamente suas sábias palavras a um ateu:

     Nem tu, nem teus companheiros sois os primeiros nem os únicos que tendes semelhante opinião da Divindade, mas em todos os tempos, ou mais, ou menos, sempre houve quem estivesse afetado dessa enfermidade. Travei conhecimento com muitos deles, e por isso vos digo que nenhum dos que na sua mocidade negou a existência de Deus manteve semelhante opinião até a velhice. Aconselho-te, pois, agora, a não ousares cometer algum ato impiedoso contra a Divindade. Antes de proferires uma palavra contra Deus, medita três e dez vezes; porque chegará o dia (e chegará breve) em que o escárnio expirará em teus lábios trémulos; virá o dia em que precisarás de Deus e da sua eterna verdade para a tua alma aflita, vazia e trespassada pela dor. 2

    
Porém, o filósofo grego Epicuro e o poeta latino Lucrécio (c. 99-55 a.C.) continuaram o trabalho de propagação das ideias ateístas: afirmaram que tudo se origina da matéria existente no Universo. Para eles o Universo sempre existiu, nunca foi criado. No seu famoso poema materialista De Rerum Natura (Da Natureza), Lucrécio diz que nem Deus nem os deuses existem. O mundo surgiu da união dos átomos. Mas se alguém lhe perguntasse quem ou o que teria levado esses átomos a se unirem para formar o mundo, Lucrécio responderia: "Foi o acaso". O interessante é que o próprio escritor comunista francês Anatole France, após concluir ser absurdo tentar explicar a existência do mundo como produto do acaso, comentou certa vez: "Acaso é, talvez, o pseudónimo de Deus quando não desejava assinar o nome".


OS JOVENS SOB O PERIGO DO MATERIALISMO

    
As ideias dos filósofos ateus da Antiguidade influenciaram a maioria dos pensadores franceses do século XVIII, e na segunda metade do século XIX, uma perigosa onda de materialismo avançou pelas praias da filosofia e da ciência, e afogou muitos no mar do ateísmo, alcançando seus maiores efeitos no meio da mocidade estudiosa. Dois escritores alemães, Buchner e Ernesto Haeckel, foram especialmente usados pelas forças invisíveis das trevas que atuam no mundo, para semear a dúvida no coração dos estudantes europeus, e levá-los a desacreditar da Bíblia. Buchner escreveu o livro Força e Matéria, publicado em 1855. Traduzido em dezenas de idiomas, essa obra chegou a ser lida por quase todos os jovens estudantes americanos e europeus daquela época.

    
Os Enigmas do Universo foi o título que Ernesto Haeckel deu ao seu livro, lançado na Alemanha em 1863. Só em alemão essa obra alcançou mais de 200 edições, sendo traduzida em todos os idiomas cultos da época. Esses dois livros foram a grande preparação para o ateísmo que surgiria como base do regime político adotado na Rússia no início do século seguinte. Procurando dar para todos os fenómenos da Natureza uma explicação materialista, apresentando soluções enganosas em nome da ciência (da falsa ciência, diga-se de passagem), Haeckel conquistou a simpatia ingénua da mocidade, proporcionando-lhe a ilusória satisfação de estar explicando os segredos do universo sem necessitar de, em nenhum momento, recorrer a Deus. 

    
Porém, décadas depois, as afirmações desse escritor foram desmentidas pela própria ciência, e Haeckel ficou conhecido nos meios científicos como um falsário. 

    
Recapitulemos: para os materialistas, tudo é matéria (não existe um mundo espiritual, não existe Deus), e tudo volta para a matéria eterna. Viemos do nada e entraremos no nada pela morte. Não há outra vida além desta, dizem eles. Soberbos, e achando que os conhecimentos científicos que possuem os tornam donos da verdade, os materialistas afirmam que os "homens cultos" já não acreditam hoje "nessas tolices de Céu e de Inferno". A única coisa em que creem é na religião da ciência. Para eles o mundo surgiu sem a participação de Deus, desenvolveu-se sem Deus e há de chegar à sua perfeição sem Deus.Antigamente os intelectuais que negavam a existência de Deus eram olhados como alguém à parte da sociedade. O ateísmo era visto como uma atitude hiperintelectual, aristocrática, e por isso desprezada pelo povo. Porém, no século XX essa situação mudou. Foi a grande estratégia de Satanás! O ateísmo deixou de ser aristocrático para se tornar popular. Saiu do domínio intelectual e passou a influenciar a existência de milhões de pessoas. Diante de problemas como a fome, a guerra e as injustiças, muita gente tem rejeitado Deus como alguém necessário para a solução desses problemas, e até mesmo se negado a crer que ele exista.


O ATEÍSMO NA UNIÃO SOVIÉTICA

    
Apoderando-se, em outubro de 1917, do governo da antiga Rússia dos czares, o Partido Comunista liderado por Vladimir Ilitch Ulianov (1870-1924), conhecido como Lenine, colocou em prática as ideias dos filósofos alemães Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895), e passou a controlar o regime e a situação no país pelo uso da violência, caracterizando-se também pela intolerância religiosa. Conta-se que o pai de Lenine, Ilia Nikolaievitsch Oulianof, acreditava na existência de Deus e se comprazia em recitar as seguintes palavras do escritor Nekrassof: "Apareceu-me sobre a colina a casa de Deus, e senti, de repente, uma pureza de fé destilar-se da alma como um perfume.”Mas Lenine confessava-se ateu desde a sua juventude. O escritor Dostoievski comentara tempos atrás sobre o quanto era fácil os seus compatriotas russos tornarem-se ateus! "E mais fácil que a qualquer outro habitante do globo! E os nossos não se tornam apenas ateus: creem no ateísmo como se fosse uma nova religião, sem notarem que é crer no nada." Vários anos antes da implantação do regime socialista na Rússia, Ivan Fedorovitch (um dos personagens do romance Os Irmãos Karamazov, escrito por Dostoievski) comentara:

    
Segundo o meu parecer, não se deve destruir nada, senão a ideia de Deus no espírito do homem: é por aí que se tem de começar. Logo que toda a humanidade tiver chegado a negar a Deus (e creio que a época do ateísmo universal chegará, como uma época geológica), desaparecerão os antigos sistemas e sobretudo a antiga moral. Os homens reunir-se-ão para pedir à vida tudo o que ela pode dar, mas somente e absolutamente a esta vida presente e terrestre. O espírito humano crescerá, elevar-se-á a um orgulho satânico, e serão os tempos do deus-humanidade. 7


ATEUS RECONHECEM A EXISTÊNCIA DE DEUS

    
Porém, apesar de todas as posições radicais, conta-se que durante a revolução russa, quando a cidade de Petersburg foi rodeada pelo general Kornilov e as suas tropas anti-comunistas, Lenine repetiu várias vezes, durante um discurso, a expressão: "Dai Boje", que significa: "Permita Deus escaparmos.' Vários outros episódios envolvendo autoridades comunistas da Rússia mostram que o povo russo é tão desejoso de Deus quanto qualquer outro povo sobre a face da Terra. Antes da invasão russa do Norte da África, o próprio Estaline disse várias vezes: "Que Deus nos dê êxito na operação Torch." Costumava dizer também que "o passado pertence a Deus".

    
O Ministro do Interior dos Negócios Soviéticos, Iagoda, ao saber que fora condenado à morte por Estaline, disse: "Deve existir um Deus, porque meus pecados me alcançaram." No seu leito de morte, o presidente da Liga dos Ateus na Rússia, Iaroslavski, pediu insistentemente a Estaline: "Queima todos os meus livros! Vê, ele está aqui! Ele esperou-me. Queima todos os meus livros!"

    
Atacando inicialmente o catolicismo soviético, o Partido Comunista concentrou depois a sua campanha ateísta contra toda e qualquer manifestação religiosa dentro do território russo. O objetivo principal era esmagar de uma vez por todas a ideia da existência de Deus, arrancar a fé em Deus do coração do povo como quem extirpa um tumor maligno, e bani-la para sempre da Rússia e dos demais países comunistas. As seguintes palavras, escritas em 1993 por um membro do partido dos ateus militantes, mostram bem a que grau havia chegado a perseguição religiosa naquele país:

    
Devemos agir de maneira que cada golpe vibrado contra o clero ataque a religião em geral... Ainda os mais cegos veem até que ponto se torna indispensável a luta decisiva contra o eclesiástico, quer se chame pastor, abade, rabino, patriarca, mula ou papa; essa luta deve desenvolver-se também e inelutavelmente contra Deus, quer se chame Jeová, Jesus, Buda ou Alá. 13

    
Tendo sido definida pelo filósofo Karl Marx como o ópio do povo, a religião teve entre os comunistas os seus dias contados. O escritor Cristão Richard Wurmbrand, no seu livro A Resposta à Bíblia de Moscovo, fez sobre isso o seguinte comentário:

     Em setembro de 1932, uma revista de Moscovo, Molodaia Guardiã (Vanguarda Jovem) anunciou que, de acordo com o plano ateístico de cinco anos, até 1937 toda manifestação religiosa deveria ser definitivamente destruída e a Palavra de Deus silenciada para sempre. Isto porém não aconteceu. O cristianismo está a prosperar em muitos países comunistas, mesmo sob interdição e ameaça de perseguição. Porquê? 14

    
Todavia, e para alegria da comunidade Cristã mundial, o problema do ateísmo na Rússia sofreu impactantes mudanças após a queda do muro de Berlim e a fragmentação da antiga União Soviética. Fortíssimos ventos anunciadores da verdade bíblica e proclamadores da existência de Deus têm penetrado pelos rasgões existentes na chamada Cortina de Ferro. Agora a existência de Deus passou a ser assunto do dia-a-dia em milhares de lares russos.


BIBLIOGRAFIA

1. Jean Claude Barreau. Op. Cit. pp. 9-11.
2. Citado por José Agostinho de Macedo, no livro homônimo do de Fénelon, Demonstração da Existência de Deus. Lisboa, Imprensa Regia, 1816, p. 34.
3. Tito Lucrécio Caro. Da Natureza. Tradução e notas de Agostinho da Silva. São Paulo, Abril Cultural, 1980, Livro II, parágrafos 645-650, e 1090-1095.
4. Ludwig Büchner. Force et Matiére. Etudes populaires d'histoire et de Philosophie naturelles... 5ê edição, Paris, C. Reinwlad, 1876, 385 pp.
5. Ernest Henrich Haeckel. Les Enigmes deVUniverse. Trad. do alemão por Camille Bos. Paris. Schleicher fréres, 1902, 460 pp.
6. As citações de número 6, 8 a 12 e 14 foram extraídas do livro de Richard Wurbrand, A Resposta à Bíblia de Moscovo, cuja leitura recomendamos em especial. Após lermos esse livro e fazermos algumas anotações em fichas, nós o perdemos e não pudemos localizar outro exemplar. Daí a razão de não citarmos as páginas onde se encontram as respectivas frases utilizadas aqui.
7. Fiódor Dostoievski. Os Irmãos Karamazov. Tradução de Natália Nunes e Oscar Mendes. São Paulo, Abril Cultural, 1970, Livro V, capítulo V.
8 a 12: Apud Richard Wurbrand. A Resposta à Bíblia de Moscou.
13. Jacques Bivort de Ia Saudée. Ensaio de Suma Católica Contra os Sem-Deus. Tradução de P. Lacroix. Rio de Janei¬ro, José Olympio Editora, 1939, p. 468.
14. Ibdem. Richard Wurbrand. Op. Cit.

 



 

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