A Ceia do Senhor e o egoísmo

chm

1 Cor. 11

23 Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão;
24 E, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei: isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim.
25 Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o Novo Testamento no meu sangue: fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de mim.
26 Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha.

     A Ceia do Senhor é um ato mediante o qual não só anunciamos a morte do Senhor até que venha, mas onde também damos expressão a uma verdade fundamental, na qual nunca será demais ou inoportuno insistir para com a consciência dos cristãos em nossa época, isto é, que todos os crentes são “um só pão e um só corpo”. Trata-se de um erro muito comum enxergarmos esta celebração simplesmente como um meio pelo qual é transmitida graça à alma do indivíduo, e não como um ato relacionado com todo o corpo; e relacionado também com a glória d’Aquele que é a Cabeça da Igreja. Que é um meio pelo qual a graça flui para a alma do que comunga individualmente, não pode haver dúvida, porque há bênção em cada ato de obediência. Mas que a bênção individual seja apenas uma pequena parte, pode ser visto pelo leitor atento de 1 Coríntios 11.

      É a morte do Senhor e a vinda do Senhor que são apresentadas com proeminência perante as nossas almas na Ceia do Senhor, e onde quer que um destes elementos seja excluído deve haver algo de errado. Se existir qualquer coisa que impeça a plena expressão da morte do Senhor, ou a exposição da unidade do corpo, ou a compreensão clara da vinda do Senhor, então deve haver alguma coisa que está radicalmente errada no princípio sobre o qual a mesa está posta, e precisamos apenas de um “olho simples” (Lc 11.34), e uma vontade inteiramente submissa à Palavra e ao Espírito de Cristo para poder detetar o mal.

     Possa o leitor cristão examinar, agora mesmo, em um espírito de oração, a mesa à qual habitualmente toma o seu lugar, para ver se ela passa pelo tríplice teste de 1 Coríntios 11. Se não passar, deve abandoná-la, em nome do Senhor e para o bem da Igreja. Há, na Igreja professa, heresias, e há divisões que provém das heresias, mas “examine-se pois o homem a si mesmo, e assim coma” a Ceia do Senhor; e se, de uma vez por todas, alguém perguntar qual é o significado do termo “examine-se”, pode responder que é, em primeiro lugar, ser pessoalmente fiel ao Senhor no ato de partir o pão; e, em segundo lugar, estar desvencilhado de toda e qualquer divisão, assumindo uma posição firme e decidida sobre o amplo princípio que abrange todos os membros do rebanho de Cristo. Não só devemos ter o cuidado de andar em pureza de coração e vida perante o Senhor, mas também de verificar que a mesa da qual participamos nada tenha a ela associada, que possa de algum modo agir como um impedimento à unidade da Igreja. Não se trata de uma questão meramente pessoal.

     Não há nada que prove de maneira mais completa a decadência da cristandade nestes dias ou o terrível grau em que o Espírito Santo é entristecido, do que o miserável egoísmo que mancha, sim, que polui os pensamentos dos cristãos professos. Tudo é feito para girar em torno da mera questão do ego. É o meu perdão - a minha segurança - a minha paz - o meu jeito de ser e os meus sentimentos, e não a glória de Cristo ou o bem da Sua amada Igreja. Daí a necessidade de aplicarmos ao nosso estado as palavras do profeta Ageu: “Assim diz o Senhor dos Exércitos: Aplicai os vossos corações aos vossos caminhos. Subi ao monte, e trazei madeira, e EDIFICAI A CASA, e dela me agradarei; e EU SEREI GLORIFICADO. Olhastes para muito, mas eis que alcançastes pouco; e esse pouco, quando o trouxestes para casa, eu lhe assoprei. Por que causa? disse o Senhor dos Exércitos: por causa da Minha casa, que está deserta, e cada um de vós corre à sua própria casa” (Ag 1.7-9).

     Eis aqui a raiz da questão. O “eu” permanece em contraste com a casa de Deus; e se o “eu” for colocado como nosso objeto, não é de admirar que haja uma triste falta de gozo, energia e poder espiritual. Para possuirmos estas coisas temos de estar em comunhão com os pensamentos do Espírito. Ele pensa no corpo de Cristo; e se nós estivermos pensando em nós mesmos, devemos necessariamente estar em desacordo com Ele; e as consequências se evidenciam.

- Charles H. Mackintosh

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