Mau génio


Dwight Moody

     Então, há o mau génio. O homem que não tem um carácter temperado não vale nada. O aço não presta, se não tiver têmpera. Mas quando o mau génio se apodera de mim, sou seu escravo e torno-me fraco. Um carácter forte pode ser motivo para bem e ajudar-me em toda a vida, mas o mau génio pode ser o meu maior inimigo interior, roubando-me o poder. A corrente de alguns rios é tão forte que as embarcações não podem transpô-los.

     Alguém disse que o pregador que fala do mau génio sempre «dá no cravo». É assombroso quão pouco domínio mesmo os que dizem ser crentes exercem sobre o seu génio.

     Um amigo meu estava de visita a uma família. Esperando na sala, ouviu um barulho escandaloso no pátio de entrada. Perguntou o que se passava e disseram-lhe que não era senão o Doutor que atirava o seu calçado lá de cima, porque não o engraxaram bem. «Muitos Cristãos», disse um pastor da antiguidade, «que experimentaram a perda de um filho, ou de toda a sua fortuna ou ainda da sua propriedade, com a paciência Cristã mais heróica, são vencidos completamente porque se partiu um prato ou porque os criados se enganaram.»

     Algumas pessoas têm perguntado: «Senhor Moody, como posso eu dominar o meu mau génio?»

     Se, em verdade, quer dominar o seu mau génio, eu lho direi, mas o remédio não será de seu gosto. Considere o mau génio como um pecado e confesse-o. Alguns olham-no como uma espécie de vergonha, e uma senhora disse-me que o havia herdado dos seus pais. Supondo que isto fosse verdade não era nenhuma desculpa para ela.

     A próxima vez que se irritar e falar com pouco carinho a alguém, ao compreendê-lo, vá e peça perdão à pessoa com quem falou. Seguramente não voltará a irritar-se contra essa pessoa dentro de 24 horas. Dado o caso que dentro de 48 horas o faça, volte segunda vez a pedir-lhe perdão. Ao repetir isto meia dúzia de vezes, sentirá queimar-se a carne e não voltará a faltar.

     Certa senhora disse-me, numa ocasião: «Tenho o costume de exagerar tanto que já os meus amigos me dizem que não podem entender-me. Pode o Sr. ajudar-me? Que posso fazer para vencer este meu costume?»

     «Bem», respondi-lhe, «a próxima vez que volte a mentir, vá directamente a essa pessoa e diga-lhe que mentiu e que o sente muito. Qualifique-o como mentira e extirpe-o pela raiz. Isto é o que lhe convém fazer.»

     «Oh!» respondeu ela, «não gosto de chamar-lhe mentira. Mas, indiscutivelmente, é isto mesmo!

     O cristão não vale nada se não corrigir o seu carácter. Estou cansado de toda essa efusão e sentimento. Se não se sabe quando uma pessoa diz a verdade, há algo radicalmente defeituoso, e o melhor é rectificá-lo imediatamente. Agora, estão dispostos a pôr mãos à obra? Esforcem-se a fazê-lo, quer gostem quer não. Há algumas pessoas que se sentem ofendidas por alguma coisa que lhes tenha feito? Vá directamente ter com elas e diga-lhes que o sente muito.

     Talvez diga que a culpa não é sua. Não importa, vá ter com elas directamente e diga-lhes que tem muita pena por as teres ofendido. Eu tive que fazê-lo várias vezes. Sou homem impulsivo e tive necessidade de fazê-lo muitas vezes, mas o meu sono de noite é muito mais doce quando consigo rectificar estas coisas. A confissão jamais deixa de trazer uma bênção. Às vezes tenho de abandonar o púlpito e ir pedir perdão a alguém, antes de continuar a pregar. O crente em Cristo deve ser cortês em todo o tempo; mas se deixa de o ser e descobre que feriu a alguém, deve ir imediatamente remediá-lo. Sabeis que há muita gente que deseja o suficiente do cristianismo para ser aceite como gente respeitável. Nunca pensam que, nesta vida vencedora, consigam o triunfo em todo o tempo. Têm os seus dias de maus humorados e de desgosto, e os seus filhos então dizem: «A mamã está hoje de mau humor e há que ter muito cuidado.»

     Não desejamos nenhum desses dias delicados. Se vencermos o nosso mau génio, a influência será grande sobre os outros e eles passarão a ter confiança no nosso cristianismo. A razão por que alguns não têm poder é porque ocultam algum pecado. Não haverá uma gota de orvalho celestial até que esse pecado seja trazido para a luz. Endireitemos primeiro o interior, e então saltaremos como gigantes e conquistaremos o mundo. Paulo disse que temos de ser sãos na fé, na paciência e no amor. Se alguém ensina doutrina falsa, o clero deita mão da espada eclesiástica e o corta duma vez. Mas pode ser extremamente defeituoso em amor, ou em paciência, e ninguém faz caso.

     Temos de ser sãos na fé, no amor e na paciência, se somos leais a Deus.

     É uma maravilha encontrar um homem que pode dominar o seu mau génio! Conta-se de Wilberforce, que uma vez um amigo lhe falou quando se encontrava na maior das perturbações. Estava à procura dum ofício que se extraviara e pelo qual um membro da família real esperava. Precisamente nesse momento, como se fora de propósito, para aumentar a sua preocupação, ouviu-se um grande alvoroço no aposento das crianças. «Agora», pensou o amigo, «é certo que a sua paciência se esgotará.»

     Apenas cruzou por sua mente este pensamento, quando Wilberforce se dirigiu a ele e lhe disse: «Que grande bênção é escutar o ruído desses queridos meninos! Que descanso nos dá, no meio dos nossos muitos apuros, ouvir as suas vozes e saber que estão de boa saúde!».
 
Dwight L. Moody

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