O grande reavivamento na Inglaterra no século XVIII

     A condição moral deplorável em que se encontra o nosso país quase dispensa qualquer comentário. A impiedade e a perversão dos homens, que cada dia mais têm trocado a verdade de Deus pela  mentira,  mudando  a  glória  do Deus incorruptível, adorando e servindo a criatura em vez do Criador, têm suscitado a ira de Deus sobre Portugal. Por isso, Deus tem entregue o nosso povo à imundície, pela concupiscência dos seus próprios corações. E, por haverem desprezado o conhecimento de Deus, o próprio Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem toda a espécie de coisas inconvenientes e aprovarem os  que  assim procedem  (Rm  1.18, 23, 24, 25, 28, 32).

A Inglaterra antes do reavivamento do século XVIII
 
     Esse estado de impiedade e depravação pode, às vezes, levar-nos a pensar que a situação é irremediável e que não encontra paralelo na história de outras nações. Nem uma coisa nem a outra é verdade.

     A Inglaterra da primeira metade do século XVIII caracterizava-se  pela  impiedade, corrupção e imoralidade.  As trevas espirituais assolavam todas as camadas sociais daquele país. A terra de muitos reformadores e dos puritanos decaiu tanto, que  a corrupção, a desonestidade e o desgoverno nos altos postos era a regra, e a pureza, a excepção.

     A Igreja da Inglaterra, na sua grande maioria, jazia inerte, sem nenhum vigor. Os sermões, meros ensaios morais, nada podiam fazer no sentido de despertar, converter  e salvar os pecadores. As importantes verdades pelas quais Hooper e Latimer tinham ido para a fogueira, e Baxter e muitos dos puritanos, para a prisão, pareciam ter sido totalmente esquecidas e colocadas na prateleira.
 
     Um conhecido advogado cristão da época afirmou que visitou todas as igrejas mais importantes de Londres, e que não ouviu um único discurso  que apresentasse  mais  Cristianismo do que os escritos de Cícero, e que lhe seria impossível descobrir, do que ouvira, se o pregador era um seguidor de Confúcio, de Maomé ou de Cristo! Os bispos e arcebispos da época, na sua grande maioria, eram homens mundanos; tão mundanos que houve casos em que o próprio rei teve de intervir  para  restringir  a  impiedade deles. Para se ter uma ideia da situação, conta-se que, quando a pregação de Whitefield começou a incomodar o clero,  foi  sugerido com seriedade  pelo próprio  clero  que  a melhor  maneira  de dar  um fim à sua influência era torná-lo bispo.
 
     Quanto ao  clero paroquial, Ryle afirma que os seus sermões eram tão  indizível  e indescritivelmente ruins, que é reconfortante lembrar que eram geralmente pregados a bancos vazios. 
 
     A verdade é que a situação moral da Inglaterra na primeira metade do século XVIII era tão baixa, que condutas  reprováveis  e comuns hoje em Portugal, como a imoralidade, o jogo, a linguagem obscena, a profanação do domingo  e  a bebedice,  também  não eram consideradas  coisas  condenáveis na Inglaterra na primeira metade do  século  dezoito. 
 
     Estas eram  as práticas da moda nas camadas mais elevadas da sociedade da época e não escandalizavam ninguém.
 
A transformação da Inglaterra na segunda metade do século XVIII
 
     Na  segunda  metade  do  século XVIII, a Inglaterra mudou. Foi radicalmente  transformada.  Isto  porque milhares de pessoas foram transformadas. Trabalhadores e membros das classes  mais elevadas  viram a  sua moral  e costumes  transformados. Como diz Nichols, um forte entusiasmo apoderou-se da vida religiosa da Inglaterra, afugentando a indiferença e o desinteresse que marcou a primeira metade  do  século XVIII.

     Que uma mudança, para melhor, aconteceu na Inglaterra  nos  últimos  cem anos, afirma Ryle no final do século  XIX, é um facto que, eu suponho,  nenhuma  pessoa  bem  informada jamais tentaria negar... Houve uma grande mudança para melhor. Tanto espiritualmente como moralmente,  o  país  passou  por uma completa revolução.

     As pessoas não pensam, não falam, nem agem como faziam em 1750. Este é um facto, que os filhos deste mundo não podem negar, por mais que tentem explicá-lo. Foi  nesse  período  que surgiram  as obras  sociais  de  carácter  cristão,  as escolas dominicais - um dos primeiros passos na educação popular da Inglaterra -, a abolição do comércio de escravos, as reformas nas  prisões, hospitais,  bem  como  o moderno movimento missionário que alcançou  muitos  países  na  Ásia, África e Américas. A transformação que a Inglaterra experimentou foi tão grande, que muitos  historiadores afirmam  que,  não  fora  isto, o  país também  sofreria  fatalmente as agruras de uma revolta interna, como a Revolução Francesa. A estas transformações também  se atribui  a  ascensão da Inglaterra à posição de líder entre as nações no século passado.
 
Os instrumentos de transformação da Inglaterra
 
     O que é que operou essa transformação? A  que  se  deve tamanha mudança? Ryle  observa  acertadamente, que o governo do país não pode reivindicar para si o crédito das mudanças. A moralidade não  pode  vir  à existência  através  de  decretos-lei  e estatutos. Até hoje as pessoas jamais se tornaram religiosas por meio de actos  parlamentares.  A  Igreja  da Inglaterra, como instituição, também não pode reivindicar este crédito. Os bispos, arcebispos  e clero que descrevemos há pouco jamais poderiam ser os instrumentos de tal obra. Qual foi, então, a fonte e quais os instrumentos de tamanha transformação?
 
     Deus foi a fonte; e uma dúzia de homens  simples,  a  maioria ministros da Igreja da Inglaterra, foram os instrumentos. Aprouve a Deus escolher alguns de seus servos fiéis; não eram poderosos, nem pessoas de nobre nascimento. Entretanto, foram estes homens humildes, mas fiéis, que Deus escolheu para envergonhar os fortes, a fim de que ninguém se vanglorie na Sua presença.
 
     George Whitefield, John Wesley, William Grimshaw, William Romaine, Daniel Rowlands,  John  Berridge, Henry Venn, Samuel Walker, James Harvey, Augustus Toplady  e  John Fletcher, soberanamente escolhidos, habilitados, ungidos e revestidos de especial graça, sacudiram a Inglaterra de um extremo ao outro com a antiga arma apostólica da pregação.
 
     A espada que o apóstolo Paulo empunhou com poderoso efeito, quando tomou de assalto as fortalezas do paganismo dezoito séculos antes, escreve Ryle, foi a mesma espada pela qual eles obtiveram as suas  vitórias.
 
     Tendo contemplado a glória de Deus mais vivamente (como Paulo, na estrada de Damasco, e Estêvão, ao ser apedrejado); tendo o amor de Deus sido derramado nos seus corações pelo Espírito  Santo; tendo recebido nos seus espíritos o testemunho directo do Espírito Santo, a  respeito do  seu bendito relacionamento com Cristo, e estando cheios de uma alegria indizível e cheia de glória, tais homens anunciaram o Evangelho de  Cristo  de  modo  simples, directo, ousado e cheio de fervor. Proclamavam as palavras de fé com fé, e a história da vida, com vida. Eles falavam com ardente zelo, como homens que estavam totalmente persuadidos de que o que diziam era verdade.

     O que pregavam esses homens? Todo o conselho de Deus, especialmente doutrinas como a suficiência e a supremacia das Escrituras, a total corrupção da natureza humana, a morte expiatória de Cristo na cruz, a justificação pela graça mediante a fé, a necessidade universal de conversão e de uma nova criação pelo Espírito Santo, a união inseparável da verdadeira fé com a santidade pessoal, o ódio eterno de Deus pelo pecado e o seu amor pelos pecadores.

     Eles não hesitavam em proclamar clara e directamente às pessoas que elas estavam mortas  e  precisavam viver; que se encontravam culpadas, perdidas, desamparadas, desesperadas e em perigo iminente de destruição eterna.

     Por mais estranho e paradoxal que pareça a alguns, afirma Ryle, o primeiro passo  deles  no  propósito  de tornar bom o homem, foi mostrar que este era completamente mau; e o argumento primordial deles, no sentido de persuadir as pessoas a fazerem alguma coisa pelas suas  almas,  era convencê-las de que não podiam fazer nada por elas. Eles também nunca recusaram  declarar,  nos termos mais claros, a certeza do julgamento de Deus e da ira futura, se os homens  persistissem  impenitentes e incrédulos; e, apesar disso, nunca cessaram de magnificar as  riquezas  da bondade  e  da compaixão de Deus e de bradar a todos os pecadores que se arrependessem e se voltassem para Deus, antes que fosse tarde demais.
 
CONCLUSÃO
 
     Foram estes os homens e esta, a pregação que Deus usou como instrumentos para reavivar a Igreja na Inglaterra e, assim, transformar completamente  o  país.  Através  desses instrumentos de Deus, muitos crentes foram levados a renovar a sua aliança com o Senhor e passaram a viver uma vida cristã vigorosa e cheia de frutos; milhares foram profundamente convencidos dos seus pecados, foram levados ao mais sincero arrependimento, compreenderam a graça de Deus em Cristo Jesus e por ela foram alcançados; e muitos  que até se opunham foram secretamente influenciados e estimulados.

     Foram estes os homens e estas, as doutrinas, que, nas mãos de Deus,  tomaram de assalto as fortalezas de Satanás, conclui Ryle, arrancando milhares como que tições do fogo, e mudaram o carácter da época. Foram estes os homens sinceros e fiéis - e esta, a pregação viva, verdadeira e ungida - que aprouve a Deus escolher para reavivar sua Igreja e transformar a Inglaterra na segunda metade do século dezoito. Abençoa-nos também, a nós ó Deus, livra-nos da incredulidade e concede-nos a mesma alegria indizível e cheia de glória. Reaviva a tua obra no nosso país.


Nota:  A  maioria  das  citações  e  informações deste artigo foram extraídas do  relato  sobre  o  reavivamento  espiritual  do século  XVIII  na  Inglaterra, escrito por J. C. Ryle.

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