O Cristão pode ser político? (I)

William Wilberforce - Deus Todo Poderoso colocou perante mim dois grandes objetivos: a eliminação do comércio de escravos e a reforma dos costumes [a moral]

     Esta questão, colocada ocasionalmente por muitos crentes e respondida por escrito por muito poucos, não tem tido uma resposta bíblica sustentada nos ensinos Paulinos para a atual Dispensação da Graça de Deus, ou seja, na Magna Carta das suas epístolas. Alguma da sustentação dessas respostas que temos lido têm-se lamentavelmente inspirado no programa que Deus definiu para o Reino. Ora, quando se mistura graça com reino, nesta como noutras questões, o resultado só pode ser erro e confusão.

     Paulo mostra claramente em Romanos 13:1 que todo o poder político foi delegado por Deus, “porque não há potestade [autoridade] que não venha de Deus; e as potestades [autoridades] que há foram ordenadas por Deus”.

     Na atual Dispensação da Graça de Deus ainda decorre a Dispensação do Governo Humano, em que Deus não interfere diretamente no governo dos homens. Nestas dispensações Deus resolveu operar através de nós, não sem nós. Para esse fim Ele delegou a Sua autoridade aos homens, tanto no lar, como na igreja, como na sociedade.

     É inacreditável que haja Cristãos que se demitam da sua potencial responsabilidade na sociedade, alegando que “os Cristãos não se devem envolver na política”, quando a Bíblia que eles usam e professam crer lhes diz e ensina que o poder político vem única e exclusivamente do mesmíssimo Deus que eles servem e adoram.

     Se não é próprio para um Cristão envolver-se na política, se um Cristão deve estar fora da política, se um Cristão transgride ao ser político, então – custa-nos dizê-lo, mas é o que inferem os que assim pensam - Deus é transgressor antes dele, pois foi Deus que instituiu o poder político.

     Um dos maiores argumentos – só há argumentos não bíblicos ou biblicamente mal manejados -, porventura o maior argumento, pelo menos o que mais se ouve e lê, contra a participação de um Cristão na política, é porque esta é “suja, imunda”. Bem, se esse é o grande argumento de quem pensa que há incompatibilidade entre o Cristão e a política, convém que os tais se lembrem da história da Igreja ao longo dos séculos. Haverá algo mais sujo e imundo do que o que o péssimo testemunho que a Igreja tem dado a conhecer ao mundo? Esquecem-se os tais que a Igreja tem sido tão suja e imunda que Paulo escreve sobre a necessidade que ela tem de ser santificada e purificada pela Palavra de Deus para um dia ser apresentada ao Senhor Jesus Cristo “igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível” (Efésios 5:26,27)? Sim a Igreja será “igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível”, mas não tem sido, nem é.

     Ora, porque é que os que divorciam o Cristão da política, por uma questão de coerência, não adotam o mesmo procedimento para a Igreja e a família (com tanta sujeira que nos dispensamos de comentar aqui)? Vamos também divorciar o crente da igreja e da família? Bem, alguns há que parece que o fazem com determinação, mas estão completamente errados, trate-se da política, trate-se da igreja, trate-se da família.

     Este grande argumento invocado, contra o envolvimento do Cristão na política porque esta é “suja, imunda”, é mesmo um grande argumento, mas em sentido contrário, pois é exatamente por isso, também, que o Cristão deve estar envolvido, pois alguém deve começar a limpar a sujeira ali existente e o Cristão é o que melhores condições tem para realizar isso com êxito – a história tem-no demonstrado. A história tem vários nomes sonantes de Cristãos assim, como William Wilberforce (na foto)1, que acabou com a sujeira imunda da escravatura em Inglaterra.

     É uma enorme irresponsabilidade abrir mão da influência que podemos ter na nossa vida pública em favor dos que desrespeitam o Deus que lhes confere a sua autoridade.

     Quando um dia disseram ao saudoso grande homem de Deus Dr. James Kennedy, que os Cristãos deviam estar fora da política, ele destacava a irracionalidade dessa ideia dizendo, “Como pode um Cristão, em boa consciência, dizer que pensa que é uma boa ideia abdicar deliberadamente da governação da nossa sociedade, entregando-a totalmente a secularistas e ateus?”

     Os Cristãos que pensam que os seguidores de Cristo devem ficar de fora da política, não têm o direito de reclamar, como os ouvimos tantas vezes até à exaustão, sobre o declínio moral e, os que destes pregam, não têm igualmente o direito de usar os exemplos de decadência moral como ilustrações nos seus sermões.

     É curioso ver estes Cristãos que assim pensam parecerem particularmente gostar de reclamar sobre o quão más se têm tornado as coisas e simultaneamente ataquem os Cristãos que concordam com eles, mas que tentam fazer algo para contrariar isso.

     Ora, se os legisladores têm nas suas mãos a autoridade de Deus, os Cristãos têm, na verdade, muito mais motivos para estarem preocupados com as questões políticas do que os secularistas incrédulos.

     Na verdade, como disse o famoso estadista holandês Abraham Kuyper, não só temos razão para nos envolvermos no processo político, como temos o dever moral de o fazer:

     "Quando os princípios que são exercidos contra as tuas convicções mais profundas começam a ganhar terreno, então a batalha torna-se na tua vocação, e amar a paz sem nada fazer torna-se pecado; tu deves, com o preço da mais querida paz, desnudar as tuas convicções perante amigos e inimigos, com todo o fogo da tua fé".

(Continua)

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1 Tradução da frase de William Wilberforce na foto - Deus Todo Poderoso colocou perante mim dois grandes objetivos: a eliminação do comércio de escravos e a reforma dos costumes [moral]

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