A intolerância bíblica (II)

martin_lloyd_jones.jpg     Hoje há no mundo igrejas que à superfície parecem ser igrejas florescentes. Multidões agregam-se a elas e demonstram demasiado zelo e entusiasmo. Mas num exame mais acurado descobre-se que a maior parte do tempo é tomado por música de vários tipos, e com clubes e sociedades e actividades sociais. O culto começa às 11:00h e tem que terminar exatamente ao meio-dia, e haverá sérios problemas se isso não ocorrer! Há apenas uma breve “reflexão” de quinze minutos, vinte minutos no máximo. O infeliz ministro, se não enxergar estas coisas com clareza, teme ir contra os desejos da maioria.

     A sua sobrevivência depende dos membros da igreja, e o resultado é que tudo é feito para se conformar aos desejos e anseios da congregação.

     Mas deixe-me acrescentar que o ministro também não pode impor. É o próprio Senhor quem determina. Aquele que está assentado à mão direita de Deus e que deu “alguns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores” (Ef 4:11 ). Ele deu-os para a edificação dos membros da Igreja, e é a mensagem d'ELE que deve ser pregada sem temor nem favor. Precisamos recuperar algo do espírito de John Knox cuja pregação fazia tremer Maria, Rainha dos Escoceses.

     O trabalho do ministro é edificar o corpo de Cristo. A ocupação do ministro é edificar a Igreja, não a si mesmo! Ai! Eles têm-se edificado a si mesmos muito frequentemente, e temos lido de príncipes da igreja a viverem em posições de grande pompa e riqueza. Isto é uma gritante deturpação dos ensinamentos de Paulo! Observemos que os ministros são  chamados para edificar, não para agradar nem entreter. O modo pelo qual deveriam fazer isso está resumido perfeitamente naquela passagem, imensamente lírica, de Atos 20 . O apóstolo Paulo despede-se dos presbíteros da igreja de Éfeso, à beira mar, e eis o que ele diz: “Agora, pois, encomendo-vos ao Senhor e e à Palavra da Sua graça, que tem poder para vos edificar e dar herança entre todos os que são santificados” (v.32). “Palavra da Sua graça, que tem poder para vos edificar”! Não é surpresa que a igreja seja o que é hoje, pois têm-lhe sido dados filosofia e entretenimento. Por meio delas um ministro pode, por enquanto, atrair e segurar uma multidão; mas não pode edificar; a tarefa dos pregadores é edificar, não atrair multidões. Nada edifica a não ser a inadulterada Palavra de Deus. Não há autoridade fora dela; e ela não pode de modo algum ser modificada ou nivelada para se adaptar à moda da ciência moderna, ou a alguns supostos “resultados confirmados da crítica” que está sempre em modificação.

     É o “eterno Evangelho” e é: a “Eterna Palavra a mesma que Paulo e os demais apóstolos pregaram, a mesma Palavra que os Reformadores protestantes pregaram, os Puritanos, e os grandes pregadores de duzentos anos atrás, como também Spurgeon no último século, sem qualquer modificação que fosse. É pelo facto de isso ter sido tão amplamente esquecido nos últimos cem anos que as coisas hoje estão como estão.

Extraído do jornal Os Puritanos, ano III, n. 3
Martin Lloyd-Jones
(FIM)

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