A solidão de Deus

pink.jpg     Houve tempo, se é que se lhe pode chamar “tempo”, em que Deus, na unidade da Sua natureza, habitava só (embora subsistindo igualmente em três pessoas divinas). “No princípio... Deus...”. Não existia o céu, onde agora se manifesta particularmente a Sua glória. Não existia a terra, que Lhe ocupasse a atenção. Não existiam os anjos, que Lhe entoassem louvores, nem o universo, para ser sustentado pela palavra do Seu poder. Não havia nada, nem ninguém, senão Deus; e isso, não durante um dia, um ano ou uma era, mas “desde sempre”. Durante uma eternidade passada, Deus esteve só - completo, suficiente, satisfeito em Si mesmo, de nada necessitando.

     Se um universo, ou anjos, ou seres humanos Lhe fossem necessários de algum modo, teriam sido chamados à existência desde toda a eternidade. Ao serem criados, nada acrescentaram a Deus essencialmente. Ele não muda (Malaquias 3:6), pelo que, essencialmente, a Sua glória não pode ser aumentada nem diminuída.

     Deus não estava sob coação, nem obrigação, nem necessidade alguma de criar. Resolver fazê-lo foi um acto puramente soberano da Sua parte, não produzido por nada alheio a Si próprio; não determinado por nada, a não ser pelo Seu próprio beneplácito, já que Ele “faz todas as coisas, segundo o conselho da Sua vontade” (Efésios 1:11). O facto de criar foi simplesmente para a manifestação da Sua glória.

     Será que algum dos nossos leitores imagina que fomos além do que nos autorizam as Escrituras? Sabemos que o elevado terreno que estamos a pisar é novo e estranho para quase todos os nossos leitores; por esta razão faremos bem em andar devagar.

     Recorramos de novo às Escrituras. No final de Romanos capítulo 11, onde o apóstolo conclui a sua longa argumentação sobre a salvação pela pura e soberana graça, pergunta ele: “Porque quem compreendeu o intento do Senhor? Ou quem foi Seu conselheiro? Ou quem Lhe deu primeiro a ele, para que Lhe seja recompensado?” (vers. 34-35).

     A importância disto é que é impossível submeter o Todo-poderoso a quaisquer obrigações para com a criatura; Deus nada ganha da nossa parte. ´Se fores justo, que lhe darás, ou que receberá da tua mão? A tua impiedade faria mal a outro tal como tu; e a tua justiça aproveitaria a um filho do homem” (Jó 35-7-8), mas certamente não pode afectar a Deus, que é bem-aventurado em Si mesmo.

     “Quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: “Somos servos inúteis, porque fizemos somente o que devíamos fazer” (Lucas 17:10) – a nossa obediência não dá nenhum proveito a Deus.

     Demais, vamos mais além: o nosso Senhor Jesus Cristo não acrescentou nada a Deus em Seu Ser essencial e à glória essencial do Seu Ser, nem pelo que fez, nem pelo que sofreu. É certo, bendita e gloriosamente certo, que Ele nos manifestou a glória de Deus, porém nada acrescentou a Deus. Ele próprio o declara expressamente, e não há apelação quanto às Suas palavras: “não tenho outro bem além de Ti” (Salmo 16:2; na versão usada pelo autor, literalmente: “... a minha bondade não chega a Ti”). Em toda a sua extensão, este é um Salmo sobre Cristo. A bondade e a justiça de Cristo alcançou os Seus santos na terra (Salmo 16:3), mas Deus estava acima e além disso tudo, pois unicamente Deus é “o Bendito” (Marcos 14:61, no grego).

     É absolutamente certo que Deus é honrado e desonrado pelos homens; não em Seu Ser essencial, mas em Seu carácter oficial. É igualmente certo que Deus tem sido “glorificado” pela criação, pela providência e pela redenção. Não contestamos isso, e não ousamos fazê-lo nem por um momento. Mas isso tudo tem que ver com a Sua glória declarativa e com o nosso reconhecimento dela. Todavia, se assim Lhe aprouvesse, Deus poderia ter continuado só, por toda a eternidade, sem dar a conhecer a Sua glória a qualquer criatura. Fazê-lo ou não, foi determinado unicamente pela Sua própria vontade. Ele era perfeitamente bem-aventurado em Si mesmo antes de ser chamada à existência a primeira criatura. E, que são para Ele todas as Suas criaturas, mesmo agora? Deixemos outra vez que as Escrituras dêem a resposta - “Eis que as nações são consideradas por Ele como a gota dum balde, e como o pó miúdo das balanças. eis que lança por aí as ilhas como a uma coisa pequeníssima. Nem todo o Líbano basta para o fogo, nem os seus animais bastam para holocaustos. Todas as nações são como nada perante Ele; Ele as considera menos do que nada e como uma coisa vã. A quem pois fareis semelhante a Deus: ou com que O comparareis?” (Isaías 40:15-18).

     Este é o Deus das Escrituras; infelizmente Ele continua a ser o “Deus desconhecido” (Actos 17:23) para as multidões desatentas. ´Ele é o que está assentado sobre o globo da terra, cujos moradores são para ele como gafanhotos; Ele é o que estende os céus como cortina, e os desenrola como tenda para neles habitar; o que faz voltar ao nada os príncipes e torna coisa vã os Juízes da terra" (Isaías 40.22-23).

     Quão imensamente diverso é o Deus das Escrituras do “deus” do púlpito comum!

     O testemunho do Novo Testamento não tem nenhuma diferença do que vemos no Velho Testamento; como poderia ser, uma vez que ambos têm o mesmo Autor! Ali também lemos. “A qual a seu tempo mostrará o bem-aventurado, o único poderoso Senhor, Rei dos reis e Senhor dos senhores; Aquele que tem, Ele só, a imortalidade, e habita na luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu nem pode ver, ao Qual seja honra e poder sempiterno. Amém” (1 Timóteo 6:15-16). O Ser que ali é descrito deve ser reverenciado, cultuado, adorado. Ele é solitário na Sua majestade, único na Sua excelência, incomparável nas Suas perfeições. Ele tudo sustenta, mas Ele mesmo é independente de tudo e de todos. Ele dá bens a todos, mas não é enriquecido por ninguém.

     Um tal Deus não pode ser encontrado mediante investigação; só pode ser conhecido como e quando revelado ao coração pelo Espírito Santo, por meio da Palavra. É verdade que a criação manifesta um Criador, e isso com tanta clareza, que os homens ficam “inescusáveis” (Romanos 1:20); contudo, ainda temos que dizer com Ló: “Eis que isto são apenas as orlas dos Seus caminhos; e quão pouco é o que temos ouvido d’Ele! Quem pois entenderia o trovão do Seu poder?” (Jó 26:14). Cremos que o argumento baseado no desígnio, assim chamado, argumento apresentado por “apologistas” bem intencionados, tem causado mais dano que benefício, pois tenta baixar o grande Deus ao nível do entendimento finito e, com isso, perde de vista a Sua singular excelência.

     Tem-se feito uma analogia com o selvagem que achou um relógio e que, depois de um detido exame, inferiu a existência de um relojoeiro. Até aqui, tudo bem. Tentemos ir mais longe, porém. Suponhamos que o selvagem procure formar uma concepção pessoal desse relojoeiro, dos seus afectos pessoais, das suas maneiras; da sua disposição, conhecimentos e carácter moral - de tudo aquilo que se junte para compor uma personalidade. Poderia ele chegar a imaginar ou pensar num homem real - o homem que fabricou o relógio - de modo que pudesse dizer: “Eu conheço-o”? Fazer perguntas como esta parece fútil, mas estará o eterno e infinito Deus tão mais ao alcance da razão humana? Realmente, não. O Deus das Escrituras só pode ser conhecido por aqueles a quem Ele próprio Se dá a conhecer.

     Tão-pouco o intelecto pode conhecer a Deus. “Deus é espírito. . .” (João 4:24) e, portanto, só pode ser conhecido espiritualmente. Mas o homem decaído não é espiritual; é carnal. Está morto para tudo o que é espiritual. A menos que nasça de novo, que seja trazido sobrenaturalmente da morte para a vida, miraculosamente transferido das trevas para a luz, não pode sequer ver as coisas de Deus (João 3:3), e muito menos entendê-las (1 Coríntios 2:14). É mister que o Espírito Santo brilhe em nossos corações (não no intelecto) para dar-nos o “... conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo” (2 Coríntios 4:6). E até mesmo esse conhecimento espiritual é apenas fragmentário. A alma regenerada terá de crescer na graça e no conhecimento do Senhor Jesus (2 Pedro 3:18).

     A nossa principal oração e finalidade como cristãos deve ser que possamos “... andar dignamente diante do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda a boa obra, e crescendo no conhecimento de Deus” (Colossenses 1:10).

ARTHUR W. PINK

Sermões e Estudos

Carlos Oliveira 19JUNI26
Discurso contraditório

Tema abordado por Carlos Oliveira em 19 de junho de 2026

Márcio Botas 14JUNI26
Descanso

Tema abordado por Márcio Botas em 14 de junho de 2026

Carlos Oliveira 12JUNI26
Condição sine qua non

Tema abordado por Carlos Oliveira em 12 de junho de 2026

Estudo Bíblico
1 Timóteo 3:6

Estudo realizado em 17 de junho de 2026

ver mais
  • Avenida da Liberdade 356 
    2975-192 QUINTA DO CONDE 





     
  • geral@iqc.pt 
  • Rede Móvel
    966 208 045
    961 085 412
    939 797 455
  • HORÁRIO
    Clique aqui para ver horário