Doug Fields (da igreja de Saddleback)

Entrevista a líder de jovens de uma das maiores igrejas dos EUA, Doug Fields.

O americano Doug Fields é Líder de aproximadamente dois mil adolescentes e jovens na igreja de Saddleback (sim, a famosa igreja com propósitos onde está Rick Warren).

O autor do livro Um Ministério Com Propósitos considera que a igreja tem errado tanto ao enfatizar o policiamento da conduta dos jovens como em apenas criar uma série de actividades para entretê-los. “Se os líderes tiverem a mentalidade de que a igreja deve apenas ser uma ama para os jovens, teremos um problema sério”, adverte. “A chave é construir relacionamentos e acreditar que os jovens podem fazer uma diferença efectiva na vida da igreja.”

Acompanhe, a seguir, os principais trechos da entrevista exclusiva que ele concedeu.

Pergunta - As igrejas são diferentes no tratamento dispensado aos jovens. Algumas enfatizam regras claras e rigidez no comportamento, enquanto outras elaboram um calendário repleto de actividades. Quais são as características de um ambiente favorável para proporcionar o crescimento espiritual da juventude?

Doug Fields - Não sou contra regras dentro da igreja, mas não tenho a certeza se isso contribui para o crescimento espiritual dos jovens. Creio que o melhor ambiente seria aquele em que o jovem pudesse entrar e sentir-se aceite. Um bom ambiente é criado quando se honra a juventude. Muitas comunidades tratam os jovens como “o futuro da igreja”. Apesar da boa intenção, acho isso desencorajador, pois estão a dizer-lhes para esperar pelo futuro. Na verdade, os jovens são a igreja de hoje.

P - Os atentados de 11 de Setembro provocaram alguma mudança na mente dos jovens crentes americanos?
DF - O impacto foi enorme, sensibilizando-os a respeito das questões espirituais. Eles passaram a encher as igrejas em busca de esperança e respostas. Por toda a nação houve um movimento em direcção a Deus. Na nossa igreja, muitas pessoas vieram em busca de religião e encontraram o Senhor Jesus. O atentado fez com que os jovens americanos entendessem que a vida não é apenas o “aqui e agora”, motivando-os a pensar mais sobre as coisas futuras.

P - Segundo pesquisa de um líder que trabalha com jovens crentes, cerca de 50% deles mantêm uma vida sexual activa, embora sejam solteiros. Acontece o mesmo nos EUA? Como os líderes devem lidar com as hormonas em ebulição da juventude?
DF - Lá acontece a mesma coisa. Pesquisas similares feitas nos EUA mostram que quando falamos sobre questões morais, não há muita diferença entre os jovens cristãos e não-cristãos.
Vivemos dias em que a juventude é bombardeada com o erotismo em todas as áreas: jogos, TV, música, etc. A igreja tem a responsabilidade imensa de ensinar e conversar abertamente a respeito desse assunto.

P - Britney Spears frequentou uma igreja Baptista durante muito tempo e hoje é uma popstar que dita estilos de cabelo, roupas e comportamento. No entanto, a sua sensualidade latente não é bem recebida pelos crentes. O jovem cristão precisa de modelos para se espelhar? Onde estão os bons modelos de comportamento para a juventude crente?
DF - Os jovens precisam de referências em todas as áreas. Seria óptimo se tivéssemos artistas fazendo sucesso fora do meio cristão, que é um segmento musical imenso nos EUA. Se houvesse algum artista no meio secular com um testemunho genuinamente cristão, certamente exerceria um impacto muito grande. A igreja tem perdido gente talentosa, como por exemplo Marilyn Manson (astro andrógino que gosta de provocar escândalos). Ele cresceu no grupo de jovens de uma igreja e era bastante envolvido com as actividades do seu grupo. A lista de desviados é enorme.

P - A Internet seduz boa parte dos jovens e adolescentes em todo o mundo, afastando-os até um pouco da TV. Porém, ela tem tanto sites cristãos como pornografia de toda a ordem. Como você classifica o uso que os cristãos fazem da rede mundial de computadores?
DF - Se somos amigos e temos um relacionamento transparente e de responsabilidade mútua, tu vais-me perguntar sobre o que ando a ver na Internet e as possibilidades serão altas de que não estarei a fazer nenhuma asneira. É o Cristo em ti que vai desafiar o Cristo em mim. É por isso que estou a ministrar a líderes de jovens. Vim dizer que precisamos de investir na vida deles, em vez de apenas ficar a controlar o que fazem. É hora de conhecê-los e conversar sobre coisas que realmente importam, em vez de ficarmos apenas policiando o que fazem. A igreja não pode ser apenas mais uma figura coerciva na vida deles.

P - O basebol seduz o jovem americano, e o futebol é o desporto mais difundido em Portugal. Qual a importância do desporto para a juventude e como pode ser usado eficazmente pelas igrejas?
DF - Conheci um ex-jogador de futebol no Brasil que parou de jogar por causa de uma lesão e agora dedica-se a ir a áreas pobres ensinar os miúdos a jogar futebol. Que bela ferramenta evangelística! O desporto é uma ferramenta importante na evangelização.

P - Qual seria hoje a estratégia mais eficaz usada pela igreja de Saddleback para alcançar os jovens da comunidade?
DF - O melhor caminho é desenvolver relacionamentos. No capítulo 9 de João, Jesus cura um homem e então os líderes religiosos questionam-no: “Quem é esse Jesus?”. Ele responde: “Não sei. Só sei que eu era cego e agora vejo”. Esse é o modelo ideal de evangelização. Tu não precisas de saber todos os detalhes da Trindade ou mesmo criticar cientificamente a teoria da evolução. É importante estudarmos essas questões, pois elas desafiam o mundo há anos. Porém, o que realmente importa é a mudança que aconteceu, possibilitando que digas: “Olha, não tenho todas as respostas, mas vê: a minha vida era uma miséria e foi transformada graças a Jesus”.

P - Nos últimos anos, têm surgido muitos movimentos em várias partes do mundo encorajando os jovens a buscar a Deus mais intensamente. Em função do despertamento dessa paixão, o louvor tem sido transformado em muitas comunidades. Crê que estejamos a viver um reavivamento?
DF - Nestes últimos vinte anos que tenho trabalhado com jovens, certamente estamos a viver o maior despertamento espiritual que já vi, manifestando-se num desejo ardente de louvar e adorar a Deus. Há dez anos, as igrejas americanas ofereciam aos jovens apenas gincanas, competições e brincadeiras como forma de cuidar deles. Hoje, temos visto uma mudança generalizada e existe uma verdadeira fome pelo louvor e adoração a Deus. Acredito que o louvor autêntico é evangelístico. Boa parte do nosso programa com adolescentes é realizado usando o louvor e a adoração.

P – Usando a simbologia bíblica empregada para a vida de David, qual é a receita para se ser “um jovem segundo o coração de Deus”?
DF – O meu desejo para os jovens é que eles sigam os mandamentos bíblicos: amar a Deus e amarmo-nos uns aos outros, buscando a santidade e a pureza sexual. Penso que é um padrão bem alto na nossa sociedade moderna. O mais importante é amar a Deus e amar as pessoas apaixonadamente.

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