Carta aos jovens que têm relações sexuais com as suas namoradas

bibliadiz.jpg     Grande amigo Fulano, ontem estive com os jovens da tua igreja e tive a oportunidade de rever o Beltrano, aquele nosso brother em comum. Não te encontrei lá. O Beltrano disse-me que tu e a Cicrana, tua namorada, tinham saído com o pessoal para um acampamento no fim-de-semana e que só regressariam nesta segunda bem cedo.

     Eu e o Beltrano saímos para comer um McDonald's após o culto e falámos de ti. O Beltrano é teu companheiro e abriu o coração. Ele realmente está muito preocupado contigo, desde que lhe disseste que tens ido com a Cicrana para vários motéis da cidade e às vezes até mesmo depois do culto ao sábado à noite. Ele disse-me que já teve várias conversas contigo, mas que tens argumentado defendendo o sexo fora do casamento como se fosse normal e que pretendes casar com a Cicrana quando terminarem a faculdade de moda.

     Ele pediu a minha ajuda, para que eu falasse contigo, e disse-me que poderia mencionar essa conversa no McDonald’s. Não queria, pois acho que são os pastores da tua igreja que devem tratar desse assunto. Tu e a Cicrana, afinal, são membros dessa igreja e estão debaixo da orientação espiritual dela. Mas o Beltrano disse-me que os pastores fazem de conta que não sabem que essas coisas estão a acontecer com os jovens da igreja. Como sou amigo da tua família há muitos anos, desde que vocês frequentaram a minha igreja, resolvi, então, escrever-te sobre esse assunto, tendo como base os argumentos que usaste na conversa com o Beltrano para justificares a tua ida com a Cicrana a motéis.

     Se entendi bem, argumentas que não há nada na Bíblia que proíba o sexo fora do casamento. Lógico, não há uma passagem bíblica que diga “não farás sexo antes do casamento;” mas existem dezenas de outras que expressam essa verdade com outras palavras e de outras maneiras. Podemos começar com aquelas que pressupõem o casamento como sendo o procedimento padrão, legal e estabelecido por Deus para pessoas que desejam viver juntas. Será que preciso de colocar os versículos? Vou colocar, caso não acredites em mim (vê Mateus 9:15; 24:38; Lucas 12:36; 14:8; João 2:1-2; 1Coríntios 7:9,28,39). Repara nas passagens que abençoam o casamento (Hebreus 13:4) e aquelas que se referem ao divórcio - que é o fim oficial do casamento - como algo que Deus aborrece (vê Malaquias 3:16; Mateus 5:31-32).

     Podemos incluir ainda aquelas passagens contra os que proíbem o casamento (1Timóteo 4:3) e as outras que condenam o adultério, a fornicação e a prostituição (vê Mateus 5:28,32; 15:19; João 8:3; 1Coríntios 7:2; 6:9; Gálatas 5:19; Efésios 5:3-5; Colossenses 3:5; 1Tessalonicenses 4:3-5; 1Timóteo 1:10; Hebreus 13:4; Apocalipse 21:8; 22:15).

     Qual a referência que nos possibilita caracterizar esses comportamentos como desvios, impureza e pecado? O casamento, naturalmente. O adultério, a prostituição e a fornicação, embora tendo nuances diferentes, têm em comum o facto de que são relações sexuais praticadas fora do casamento. Se o casamento, que implica um compromisso formal e legal entre um homem e uma mulher, não fosse a situação normal onde o sexo pode ser desfrutado de maneira legítima, como se poderia caracterizar como desvio o adultério, a fornicação ou a prostituição? A Bíblia considera essas coisas como pecados e coloca os que praticam a impureza sexual e a imoralidade debaixo da condenação de Deus - a menos que se arrependam, é claro, e mudem de vida.

     Fulano, argumentas também que o casamento é uma conveniência humana e que muda de cultura para cultura. Bom, é certo que o casamento tem um carácter social, cultural e pessoal. Todavia, do ponto de vista bíblico, não se pode esquecer que foi Deus quem criou o homem e a mulher, que os juntou no jardim, e disse que seriam uma só carne, dando-lhes a responsabilidade de constituir família e dominar o mundo. O casamento é uma instituição divina a ser realizada pelas sociedades humanas. Embora as culturas sejam distintas, e os rituais e procedimentos dos casamentos sejam distintos, do ponto de vista bíblico o casamento implica um reconhecimento legal daquela união por quem de direito, trazendo implicações para a criação e tutela dos filhos, sustento da casa e também responsabilidades e consequências em caso de separação e repúdio. Quando duas pessoas resolvem ir morar juntas como se fossem casadas, essa decisão não faz delas pessoas casadas diante de Deus - mas (desculpa a franqueza), pessoas que vivem em imoralidade sexual.

     É verdade que a legislação de muitos países tem cada vez mais reconhecido as chamadas uniões de facto. É uma triste constatação que o casamento esteja cada vez mais a ser desvalorizado na sociedade moderna ocidental. Todavia, esses movimentos no mundo e na cultura não são a bússola pela qual a Igreja determina o seu norte - e sim a Palavra de Deus. Em muitas culturas a legislação tem sancionado coisas que estão em contradição com os valores bíblicos, como o aborto, a eutanásia, as uniões homossexuais, o uso de drogas, etc. A Igreja deve ter uma postura crítica da cultura, tendo como referencial a Palavra de Deus, e não amar ao pecado mas sim o Pecador.

     O Beltrano disse-me ainda que consideras que o mais importante é o amor e a fidelidade, e que argumentaste que há muita gente casada mas infeliz e infiel para com o cônjuge. Fulano, isso é um jogo perigoso - tentar justificar um erro com outro. Gente casada que é infiel não serve de desculpas para quem quer viver com outra pessoa sem se casar com ela. Além do mais, como pode existir o conceito de fidelidade numa união que não tem carácter oficial nem legal, e que não teve juramentos solenes feitos diante de Deus e das autoridades constituídas? Mesmo que tu e a tua namorada façam uma “cerimónia” particular onde só vocês os dois estão presentes e onde se casem a vocês mesmos diante de Deus - qual a validade disso? As promessas de fidelidade trocadas por pessoas não casadas têm tanto valor quanto um contrato de gaveta. Lembra-te inclusivamente que não é a Igreja que casa, e sim o Estado. Nos casamentos religiosos com efeito civil, o pastor ou padre agem com procuração do notário.

     Fulano não posso deixar de mencionar aqui que na Bíblia o casamento é constantemente referido como uma aliança (vê Ezequiel 16:59-63). Deus é testemunha dessa aliança feita no casamento, a qual também é chamada de “aliança de nossos pais”, uma referência ao carácter público da mesma (não deixes de ler Malaquias 2:10-16).

     Não fiquei nem um pouco surpreso com o teu outro argumento para teres sexo com a tua namorada, que foi “é importante conhecer bem a pessoa antes do casamento”. Já ouvi esse argumento dezenas de vezes. E sempre o considerei uma burrice - mais uma vez, desculpa a franqueza. Em que sentido ter relações sexuais com a tua namorada te vai dar um conhecimento dela que servirá para determinar se o casamento vai dar certo ou não? Embora o sexo seja uma parte muito importante do casamento, o que faz um casamento funcionar são os relacionamentos pessoais, a tolerância, a compreensão, a renúncia, o amor, a entrega, o compartilhar… Tu podes descobrir antes do casamento que a tua namorada é muito boa na cama, mas não é o vosso desempenho sexual que vai manter ou salvar o teu casamento. Esse argumento parte de um equívoco fundamental com relação à natureza do casamento e no fim nada mais é do que uma desculpa tola para comerem a sobremesa antes do almoço.

     Agora, o pior argumento que ouvi do Beltrano foi que tu disseste que “a graça de Deus tolera esse comportamento.” Acho esse o pior argumento porque ele revela uma coisa séria no teu pensamento, que é tomar a graça de Deus como desculpa para um comportamento imoral. Esse foi sempre o argumento dos libertinos ao longo da história da igreja. O escritor bíblico Judas, irmão de Tiago, enfrentou os libertinos da sua época chamando-os de “homens ímpios, que transformam em libertinagem a graça do nosso Deus e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo” (Judas 4). Esse é o caminho de Balaão “o qual ensinava a Balaque a armar ciladas diante dos filhos de Israel para comerem coisas sacrificadas aos ídolos e praticarem a prostituição” (Apocalipse 2:14). É a doutrina da prostituta-profetisa Jezabel, que seduzia os Cristãos “a praticarem a prostituição e a comerem coisas sacrificadas aos ídolos” (Apocalipse 2:20) e a conhecer “as coisas profundas de Satanás” (Apocalipse 2:24).

     Como teu amigo e pastor, permite-me exortar-te para que saias dessa maneira libertina de pensar, Fulano, antes que a tua consciência seja cauterizada pelo engano do pecado (Hebreus 3:13). Ainda há tempo para arrependimento e mudança de atitude. A abstinência sexual é o caminho de Deus para os solteiros, e esse estilo de vida é perfeitamente possível pelo poder do Espírito, ainda que aos olhos de outros seja a coisa mais retrógrada e atrasada que exista. Se realmente pensas em casar com a Cicrana e constituírem família, o melhor caminho é deixarem já de ter relações e aguardarem pelo dia do casamento. Vocês devem confessar a Deus o vosso pecado e um ao outro, e seguir o caminho da abstinência, com a graça de Deus.

Augustus Nicodemus (Adaptado)

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