Os Nephilim
"E aconteceu que, como os homens se começaram a multiplicar sobre a face da terra, e lhes nasceram filhas; viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram" (Gn 6:1, 2).
Tem havido considerável diferença de opinião entre os comentaristas e expositores em relação à identidade destes "filhos de Deus".
A visão que tem sido mais amplamente promulgada e aceite é que estes casamentos entre os filhos de Deus e as filhas dos homens referem-se à união entre crentes e descrentes. Supõe-se que "os filhos de Deus" eram os descendentes de Sete, enquanto que as "filhas dos homens " são consideradas descendência de Caim, e que estas duas linhagens gradualmente se fundiram até que a linha de distinção entre o povo de Deus e os do mundo ficou destruída. Além disso, é suposto que o Dilúvio foi uma visitação do juízo de Deus resultante da falha do Seu povo em manter o seu lugar de separação. Mas, parece-nos, há uma série de objeções insuperáveis nesta interpretação.
Se a teoria acima fosse verdadeira, então, seguir-se-ia daí que no momento em que esta fusão ocorreu o povo de Deus ficou limitado ao sexo masculino, pois foram "os filhos de Deus" que "casaram" com as "filhas de homens". Mais uma vez; se a teoria popular fosse verdadeira, se estes "filhos de Deus" fossem crentes, então eles pereceram no Dilúvio, mas 2 Pedro 2:5 afirma o contrário, pois lemos que Deus trouxe “o dilúvio sobre o mundo dos ímpios”. Uma vez mais; no registo Divino (até onde podemos descobrir) não há nenhum indício de que Deus já tivesse dado qualquer ordem específica proibindo o Seu povo de se casar com descrentes. Perante este silêncio, parece extremamente estranho que este pecado tivesse sido visitado com um julgamento tão terrível. Em todas as épocas tem havido muitos do povo de Deus que se têm unido aos do mundo, que têm sido "jugo desigual", e apesar disso não sofreram, de modo algum, uma calamidade comparável à do Dilúvio que se seguiu. Finalmente, uma pessoa não pode deixar de se interrogar porque é que a união de crentes e descrentes tenha de resultar em "gigantes" - "Havia naqueles dias gigantes na terra" (Génesis 6:4).
Se, então, as palavras "os filhos de Deus" não se referem os santos daquele tempo, a quem se referem? Em Jó 1:6, Jó 2:1, Jó 38:7, a mesma expressão é encontrada, e nestas passagens a referência é claramente aos anjos. É um facto significativo que algumas versões da Septuaginta contêm a palavra "anjos" em Génesis 6:2, 4. Que "os filhos de Deus", que estão aqui vistos a viver em concubinato com as filhas dos homens eram anjos - anjos caídos - parece ser ensinado em Judas 6: "E aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão, e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia".
Estes "filhos de Deus", então, parecem ser os anjos que deixaram a sua própria habitação, desceram à Terra e coabitaram com as filhas dos homens. Antes de considerarmos o resultado dessa relação sexual ilícita, vamos primeiro investigar a causa da mesma. Porque é que esses anjos "pecaram" (2 Ped. 2:4) assim? A resposta a esta pergunta leva-nos a um tema misterioso que não podemos agora tratar em pormenor; o "porquê" encontra a sua resposta em Satanás. Imediatamente após a antiga serpente, o diabo, ter provocado a queda dos nossos primeiros pais, Deus sentenciou a "serpente" e declarou que a “Semente” da mulher esmagaria a sua cabeça" (Gn 3:15). Assim, no momento oportuno, Satanás procurou frustrar este propósito de Deus. A sua primeira tentativa foi o esforço de impedir que o seu Esmagador entrasse neste mundo. Este esforço é claramente visto nas suas tentativas de destruir o canal através do qual o Senhor Jesus viria.
Em primeiro lugar, Deus revelou o facto de que O que viria seria da espécie humana, Semente da mulher. Portanto, como iremos procurar mostrar, Satanás tentou destruir a raça humana. A seguir, Deus revelou a Abraão que O que viria seria um descendente seu (Gn 12:3 , Gálatas 3:18, Mateus 1:1); portanto, 400 anos mais tarde, quando os descendentes de Abraão tornaram-se numerosos no Egito Satanás procurou destruir a descendência Abraâmica, levando Faraó a buscar a destruição de todas as crianças do sexo masculino (Êxodo 1:15, 16 ) . Mais tarde, Deus revelou o facto de que O que viria seria da descendência de David (2 Samuel 7:12, 13); daí o subsequente ataque feito a David através de Absalão (2 Samuel 15). Como, então, O que havia de vir da descendência de Davi, deveria surgir da tribo de Judá, isso explica o significado do reino dividido, e os ataques das Dez Tribos sobre a Tribo de Judá!
A referência aos anjos que deixaram a sua própria habitação, em Judas 6, parece indicar e corresponder a esses "filhos de Deus" (anjos) que tiveram relações com as filhas dos homens. Aparentemente, por este meio, Satanás esperava destruir a raça humana (o canal através do qual a Semente da mulher viria), ao produzir uma raça de monstros. Como ele foi quase bem sucedido é evidente no facto de que, com a exceção de uma família, "toda a carne havia corrompido o seu caminho sobre a terra" (Gn 6:12). Que esses monstros foram produzidos como resultado dessa união antinatural entre "os filhos de Deus" (anjos) e as filhas dos homens, é evidente nas palavras de Génesis 6:4: "Havia naqueles dias gigantes na terra". A palavra hebraica para "gigantes", aqui, é Nephilim, que significa caídos, de "naphal", que quer dizer cair. A expressão "varões de fama" em Génesis 6:4, provavelmente, encontra o seu equivalente histórico nos "heróis" da mitologia grega. O propósito especial de Satanás ao tentar impedir o advento da “Semente” da mulher, destruindo a raça humana era, evidentemente, uma tentativa de evitar o seu anunciado destino fatídico!
Contra a opinião de que "os filhos de Deus" se referem aos anjos caídos é citado frequentemente Mateus 22:30. Mas quando o conteúdo deste versículo é cuidadosamente estudados vê-se, realmente, que ali não há nada que esteja em conflito com o que dissemos acima. Tivesse o nosso Senhor dito: "na ressurreição nem casam nem são dados em casamento; mas serão como os anjos de Deus", e parasse aí, a objeção teria verdadeira força. Mas o Senhor não parou aí. Ele acrescentou uma cláusula determinante sobre os anjos: Ele disse: "como os anjos de Deus no céu".
As duas últimas palavras fazem toda a diferença. No céu os anjos nem se casam nem se dão em casamento.
Mas os anjos mencionados como "filhos de Deus" em Génesis 6 não estavam mais no céu: como Judas 6 nos informa expressamente, “deixaram a sua própria habitação”. Eles caíram da sua posição celestial e desceram à Terra, entrando num relacionamento ilícito com as filhas dos homens. Esta, temos a certeza, é a razão pela qual Cristo modificou e qualificou a Sua afirmação em Mateus 22:30. No céu os anjos de Deus não se casam, mas aqueles que deixaram a sua própria habitação fizeram-no.
- Arthur W. Pink



