A obra da Redenção em Génesis 1 (II)

pink.jpgII – Na obra do segundo dia a Cruz de Cristo é simbolicamente apresentada.

     Qual foi a etapa seguinte necessária à realização da Obra de Redenção? A Encarnação em si não satisfaria a nossa necessidade. “Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, caindo na terra , não morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto”. (Jo 12:24). O Cristo encarnado revela a vida perfeita e imaculada que por si só entra em contacto com a mente de Deus, mas não ajuda a atravessar o espaço intransponível entre um Deus Santo e um pecador arruinado. Para tal, o pecado deve ser afastado, e isto não pode ser feito a não ser que a morte entre em cena. “Pois sem o derramamento de sangue não há remissão”. O cordeiro deve ser morto. O Santo deve entregar Sua vida. A Cruz é o único lugar onde as exigências justas do trono de Deus podem ser satisfeitas.

     Na obra do segundo dia, esta segunda etapa na realização da redenção humana é simbolicamente apresentada. O acontecimento importante na obra deste segundo dia é a divisão, separação, isolamento. “E disse Deus: Haja firmamento no meio das águas e separação entre águas e águas. Fez, pois, Deus o firmamento e separação entre as águas debaixo do firmamento e as águas sobre o firmamento. E assim se fez”. (v 6,7 ). É surpreendente perceber aqui que há uma divisão dupla: primeiro, há um firmamento no meio das águas e este firmamento divide as águas das águas e, segundo, o firmamento dividiu as águas que estavam debaixo dele das que estavam sobre ele. Cremos que o “firmamento”, aqui, tipifica a Cruz, e apresenta o seu duplo aspecto. Lá, o nosso abençoado Senhor foi dividido ou separado do próprio Deus – “Deus Meu, Deus Meu, por que Me abandonaste?” e, também lá (na cruz), Ele foi separado do homem “Cortado da terra dos viventes” (Is 53:8).

     Que o “firmamento”, aqui, realmente prefigura a Cruz, está claramente sustentado pela maravilhosa analogia entre o que aqui é-nos contado a seu respeito e a sua concordância simbólica com a Cruz de Cristo. Observe quatro aspectos:

1. O firmamento foi o propósito de Deus antes de ser realmente feito. No verso 6, lê-se: “E disse Deus: Haja firmamento…”, e no verso 7, “Fez, pois, Deus o firmamento…”. Como é perfeita a relação entre aquilo que prefigura o tipo e aquilo que é prefigurado no tipo (antítipo).

     Muito, mas muito tempo antes que a cruz fosse erigida nas alturas do Gólgota, já era o propósito de Deus. Cristo foi “O Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo”. (Ap 13:8).

2. O firmamento foi estabelecido no meio das águas. É bem sabido entre os estudiosos da Bíblia que nas Escrituras “águas” simboliza povos, nações (Ap 17:15). Na sua aplicação simbólica, portanto, estas palavras poderiam significar “Deixe a Cruz ser colocada no meio dos povos”. Múltiplas são as aplicações sugeridas por estas palavras. Mas, infinitamente mais exacto, é o tipo. As nossas mentes, imediatamente, voltam-se para as palavras “onde O crucificaram e com Ele outros dois, um de cada lado, e Jesus no meio” (Jo 19:18). A situação geográfica do Calvário é do mesmo modo a materialização de uma realidade: a Palestina é praticamente o centro ou o meio da terra.

3. O firmamento dividiu as águas. Portanto, a Cruz dividiu os “povos”. A Cruz de Cristo é o grande divisor da humanidade. Foi assim historicamente, o ladrão que creu, do ladrão impenitente (incréduloo). Assim foi desde aquele dia e assim é hoje. Por um lado, “Certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem”, mas, por outro lado, “mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus” (I Cor 1:18).

4. O firmamento foi designado por Deus. “E Deus fez o firmamento”. Também assim foi anunciado no Dia de Pentecostes em relação ao Senhor Jesus Cristo. “Sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus” (Actos 2:23). Do mesmo modo foi declarado no tempo antigo, “Agradou ao Senhor ferí-lO; colocou sobre Ele o sofrimento”. A Cruz foi desígnio e compromisso divino.

     Também não é profundamente significativo que as palavras, “E Deus viu que era bom” tenham sido omissas no final da obra do segundo dia? Se elas aqui fossem incluídas o símbolo teria sido destruído. A obra do segundo dia apontava para a Cruz e, na Cruz, Deus estava a lidar com o pecado. Ali, a Sua ira estava a ser usada sobre o Justo, o qual estava a morrer pelo injusto. Embora Ele não tivesse nenhum pecado, ainda assim Ele “foi feito pecado por nós.”

     Portanto, a omissão, neste ponto, da usual expressão “Deus viu que era bom” assume um significado mais profundo do que aquele até então admitido.


III – Na obra do terceiro dia a Ressurreição do Senhor é simbolicamente apresentada.

     O nosso artigo já excedeu os limites que originalmente estabelecemos, portanto, forçosamente devemos abreviá-lo.

     A terceira etapa necessária para a realização da obra da Redenção foi a Ressurreição do Crucificado. Um Senhor morto não poderia salvar ninguém. “Por isso, também pode salvar totalmente os que por Ele se chegam a Deus…” Porquê?  Porque “vive[ndo] sempre…” (Hb 7:25).

     Desta maneira está no nosso símbolo. Sem qualquer dúvida, aquilo que foi prefigurado na obra do terceiro dia é a Ressurreição. É no registo concernente ao terceiro dia que lemos “e apareça a porção seca” (v 9). Antes disso havia estado submersa, sepultada sob as águas. Mas, agora, a porção seca é levantada acima dos mares; há ressurreição, a terra aparece. Mas isto não é tudo. No verso 11 lemos, “Produza a terra relva…”. Até este ponto a morte reinava suprema. Nenhuma forma de vida aparecia sobre a superfície da terra devastada. Mas, no terceiro dia, à terra é ordenado “produzir”. Não no segundo nem no quarto, mas no terceiro dia, a vida foi vista sobre a terra devastada! Perfeito é o símbolo para todos os que têm olhos para ver.

     Maravilhosamente significativas são as palavras, “produza a terra” para aqueles que têm ouvidos para ouvir. Foi no terceiro dia que o nosso Senhor ressurgiu dentre os mortos, de acordo com as Escrituras. De acordo com quais Escrituras? Nós não temos nestes versos 9 e 11 de Génesis 1, a primeira dessas Escrituras, bem como o quadro original da Ressurreição de nosso Senhor?


IV – Na obra do quarto dia a Ascensão do Senhor é simbolicamente sugerida.

     A Ressurreição não completou o trabalho da Redenção de nosso Senhor. Para tal Ele deveria entrar no Lugar Celestial que não fosse feito por mãos. Ele deveria tomar o Seu lugar à mão direita da Majestade nas alturas. Ele deveria ir “para o mesmo céu, para comparecer, agora, por nós, diante de Deus” (Hb 9:24).

     Mais uma vez vemos que o Tipo corresponde ao Antítipo. Na obra do quarto dia os nossos olhos são removidos da terra e todos os seus afazeres e voltam-se para os céus! (veja os versos 14–19) . À medida que lemos estes versículos e deduzimos algo da sua importância tipológica, não vemos o Espírito Santo dizer, “Buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive assentado à direita de Deus. Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra” (Cl 3: 1,2)?

     E à medida que levantamos os nossos olhos em direcção aos céus, o que vemos? Duas grandes luzes – simbolicamente Deus e o Seu povo. O sol que nos fala do “Sol da Justiça” (Ml 4:2), e a lua que fala de Israel e da Igreja (Ap 12:1), tomando emprestado e reflectindo a luz do sol. E observe as suas funções: primeiro, eles existem “para alumiarem a terra” (v 18). Do mesmo modo acontece com Cristo e o Seu povo. Durante o presente intervalo de trevas, a noite do mundo, Cristo e o Seu povo são “a luz do mundo”, mas durante o Milénio eles vão governar e reinar sobre a terra.

     Portanto, na obra dos quatro primeiros dias de Génesis 1, vemos a prefiguração dos quatro grandes estágios ou crises na realização da Obra da Redenção. A Encarnação, a Morte, a Ressurreição e a Ascensão do nosso bendito Senhor estão, respectivamente, tipificadas. À luz desta prefiguração, quão preciosas são as palavras no final da obra dos seis dias: “Assim, pois, foram acabados os céus e a terra e todo o seu exército. E havendo Deus terminado no dia sétimo a Sua obra, que fizera, descansou nesse dia de toda a Sua obra que tinha feito”(Gn 2:1,2). A obra da Redenção está completa, e nesta obra Deus encontrou o Seu descanso!  

Arthur W. Pink

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