Atributos de Deus (VI)
A LIBERALIDADE DE DEUS
«As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem, são as que Deus preparou para os que O amam» (I Cor. 2.9). Quantas vezes esta passagem é citada somente até ali! Quão raramente são acrescentadas as palavras «Mas Deus no-las revelou pelo Seu Espírito» (Ver. 10). Porque será? Será porque são poucos os pertencentes ao povo de Deus que indagam e gozam o que o Espírito tem revelado nas Escrituras acerca das coisas que Deus preparou para aqueles que O amam? Se nos ocupássemos mais com as riquezas de Deus do que com a nossa pobreza, com a plenitude de Cristo, mais do que com o nosso vazio, com a liberalidade divina, mais do que com a nossa magreza, quão diferente seria o plano de vida em que nos encontraríamos!
Nós ficamos muito impressionados quando verificamos algumas das «riquezas da Sua graça» (Efé. 1.7). É interessante notar que a nossa vida cristã principia numas bodas (Lucas 14.16-23; Mat. 22.2-14), exactamente como o primeiro milagre de Cristo (João 2). A palavra para nós é, «Vinde, que já tudo está preparado» (Luc. 14.17); «Eis que tenho o Meu jantar preparado, os Meus bois e cevados já mortos, e tudo já pronto; vinde às bodas» (Mat. 22.4). Notemos no «tenho ... preparado», que concorda com «as coisas que Deus preparou para os que O amam» (I Cor. 2.9) . Reparemos no «Meu jantar preparado, os Meus bois e cevados» em paralelo com «E tudo isto provém de Deus» (2 Cor. 5.18). A criatura não contribui com nada; é tudo providenciado para ela. Notemos finalmente no peso de «vinde às bodas». Bendito quadro! Fala de alegria, regozijo, festim.
A mesma figura é praticamente empregue por Cristo novamente em Lucas 15. Ele retrata ali o pródigo arrependido a receber do pai as boas vindas pelo regresso a casa. Os servos correm logo para lhe trazerem o melhor vestido, preparando-o para a casa, enquanto vão ouvindo as palavras, «E trazei o bezerro cevado, e matai-o; e comamos e alegremo-nos» (Luc. 15.23). Então é-nos dito, «E começaram a alegrar-se» (Ver. 24). Na parábola este regozijo não foi iniciado apenas algum tempo depois. Ele é retratado como tendo começado de imediato, o que nos leva a concluir que esta nova alegria que se adquire com a salvação é real não apenas na glória, mas já agora também.
Um tipo maravilhoso do modo pródigo como Deus é liberal para o Seu povo encontra-se em Gén. 9.3: «Tudo quanto se move, que é vivente, será para vosso mantimento; tudo vos tenho dado como a erva verde». Esta foi a resposta de Jeová ao «cheiro suave» que Ele acabara de inalar (Gén. 8.20,21). É importantíssimo que reparemos na relação, e percebamos a base em que Deus conferiu tão liberalmente «tudo» ao patriarca. No fim de Génesis 8 Noé edificara um altar ao Senhor, e oferecera holocaustos. No início de Génesis 9 vemos a resposta de Deus, que duma forma bendita tipifica a porção imensurável com que nos abençoou - «com todas as bênçãos espirituais, nos lugares celestiais, em Cristo» (Efé. 1.3).
Estas bênçãos baseiam-se na estima que Deus tem do valor do sacrifício de Cristo. O valor desse sacrifício é incomensurável e ilimitado, tão sem medida quanto a excelência pessoal do Filho, tão sem limites quanto o deleite do Pai sobre o Filho. A natureza e extensão daquelas bênçãos que fluem para os eleitos de Deus tendo por fundamento a obra consumada de Cristo, é dada a conhecer por substantivos e adjectivos empregues pelo Espírito Santo quando Ele descreve a prodigalidade e superabundância da liberalidade divina para connosco, e que gozaremos para todo o sempre!
Tomemos em primeiro lugar a graça de Deus. Não somos informados apenas das «riquezas da Sua graça» (Efé. 1.7), e das «abundantes riquezas da Sua graça» (Efé. 2.7), mas lemos também que ela tem «abundado sobre muitos», e que nós temos recebido «a abundância da graça», sim que ela tem «superabundado» (Rom. 5.15,17,20) - as riquezas ilimitadas da graça divina jorrando e multiplicando-se a favor dos seus objectos. O fundamento, ou a causa motriz, disto encontramos em João 1. Quando o Filho Unigénito se fez carne e habitou aqui por algum tempo, fê-lo cheio de graça e verdade». Porque fomos feitos co-herdeiros com Ele, está escrito: «E todos nós recebemos também da Sua plenitude, e graça por graça» (João 1.16).
Tomemos o amor de Deus. Não tem havido reservas nem restrições no derramamento do Seu amor para com objectos desamoráveis e desagradáveis. Ele amou os Seus com «amor eterno» (Jer. 31.3). Ele manifestou-o admiravelmente, pois quando a plenitude do tempo veio, Ele enviou o Seu Filho, nascido de mulher. Sim, Ele amou o mundo de tal maneira que deu o Seu Filho Unigénito, «para que todo aquele que n'Ele crê não pereça, mas tenha a vida eterna»; por isso lemos acerca do «Seu muito amor com que nos amou» (Efé. 2.4). A palavra Grega traduzida aqui por «muito», é traduzida por «grande» em Mat. 9.37 e I Ped. 1.3. Este amor incomensurável, que ultrapassa todo o entendimento, enche as nossas vidas com ministérios incessantes, sempre activo no sacerdócio e advocacia do alto, quão verdadeiramente é amor abundante.
O nosso presente tema é inesgotável. O nosso Senhor veio aqui para que o Seu povo tivesse «vida, e vida com abundância» (João 10.10). A primeira alusão ao cumprimento prático desta verdade encontramo-la em João 20.22, quando o Senhor Jesus Cristo soprou sobre os discípulos, e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo». Era o Cristo ressuscitado a comunicar a Sua vida ressurrecta aos Seus. Ele próprio recebeu o Espírito sem medida» (João 3.34), e o apóstolo Paulo assegura-nos que Ele derramou o Espírito Santo sobre nós abundantemente (Tito 3.6). Uma vez mais vemos enfatizada a superabundância da liberalidade de Deus.
Consideremos agora as Suas confidências. O Senhor Jesus disse aos Seus discípulos, «Já vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu Senhor, mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto tenho ouvido de Meu Pai vos tenho feito conhecer» (João 15.15). Há coisas para as quais os anjos desejam atentar (I Ped. 1.12), e que nos foram reveladas pelo Espírito Santo (Cf. Efé. 3.9-11). Que revelação, a de Efé. 1.8,9 «Que Ele fez abundar para connosco em toda a sabedoria e prudência; descobrindo-nos o mistério da Sua vontade, segundo o Seu beneplácito, que propusera em Si mesmo»! Isto pode ser classificado como a abundância dos Seus conselhos e confidências.
Consideremos o exercício e manifestação do Seu poder. Paulo orou para que conhecêssemos, «qual a sobre-excelente grandeza do Seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do Seu poder, que manifestou em Cristo, ressuscitando-O dos mortos, e pondo-O à Sua direita nos céus» (Efé. 1.19,20). Eis o poder de Deus a operar transcendentemente duma forma objectiva. Efé. 3.20 é uma passagem correlactiva: «Ora Àquele que é poderoso para fazer tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos, segundo o poder que em nós opera». Isto é claramente a mais elevada forma de energia a operar subjectivamente. Ah, a Sua liberalidade!
Deus tem abençoado então o Seu povo numa medida enormíssima - como o apóstolo escreveu aos Colossenses: «porque n'Ele habita corporalmente toda a plenitude da divindade; e estais perfeitos (completos) n'Ele» (Col. 2.9,10). Mas uma coisa é conhecer a liberalidade de Deus intelectualmente; outra, bem diferente, é, pela fé, torná-la conhecida a nós mesmos. Uma coisa é estarmos familiarizados com a sua letra; outra, viver no seu poder e ser expressão pessoal da mesma.
Qual será a nossa resposta a tal munificência divina? Decerto que «tudo isto é por amor de vós, para que a graça, multiplicada ... faça abundar a acção de graças para glória de Deus» (2 Cor. 4.15). Certamente que é para que nós «abundemos em esperança pela virtude do Espírito Santo» (Rom. 15.13). É somente aqui que a esperança encontra a sua esfera de exercício, visto que só nos santos receberá plena fruição. Se Deus fala tão uniformemente do carácter das nossas bênçãos - seja a Sua graça, amor, vida, confidências, poder, misericórdia (I Ped. 1.3) - como sendo tão abundante, deve ser porque Ele quer impressionar os nossos corações com a exuberância da liberalidade que Ele nos tem concedido. O efeito prático disto nas nossas almas deveria levar-nos a «gloriarmo-nos em Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo» (Rom. 5.11), libertando tudo o que há em nós em verdadeira adoração, habilitando-nos assim a uma comunhão com Ele mais íntima e mais profunda. «E Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça, a fim de que tendo sempre, em tudo, toda a suficiência, abundeis em toda a boa obra» (2 Cor. 9.8).



