Atributos de Deus (IV)
A IRA DE DEUS
É triste encontrar tantos crentes professos que parecem olhar para a ira de Deus como algo de que precisam de pedir desculpas; ou pelo menos desejariam de que tal coisa não existisse. Apesar de alguns não irem tão longe a ponto de considerarem esta verdade como uma nódoa no carácter divino, todavia estão longe de a considerarem com deleite. Não gostam de pensar nela, e raramente a ouvem mencionada sem um ressentimento secreto contra ela que se ergue dos corações. Mesmo com os que são mais sóbrios no seu juízo, não são poucos os que parecem imaginar que há muita severidade na ira divina, de tal forma que acham ser demasiado aterrador apresentar o assunto como tema proveitoso para ser considerado. Outros abrigam a ilusão de que a ira de Deus não é consistente com a Sua benignidade, e assim procuram bani-la dos seus pensamentos.
Sim, muitos desviam-se da visão da ira de Deus como se fossem chamados a procurar alguma mancha no carácter, ou algum defeito no governo divinos. Mas o que dizem as Escrituras? Quando nos volvemos para elas descobrimos que Deus não tem feito nenhuma tentativa para esconder o facto da Sua ira. Ele não se envergonha de divulgar que a vingança e a fúria Lhe pertencem. O Seu próprio desafio é, «Vede agora que Eu, Eu o sou, e mais, nenhum deus Comigo; Eu mato, e Eu faço viver; Eu firo, e Eu saro; e ninguém há que escape da Minha mão. Porque levantarei a Minha mão aos céus, e direi: Eu vivo para sempre. Se Eu afiar a Minha espada reluzente, e travar do juízo a Minha mão, farei tornar a vingança sobre os Meus adversários, e recompensarei aos Meus aborrecedores» (Deut. 32.39-41). Um estudo efectuado com base na Concordância Bíblica revelará que nas Escrituras há mais referências à cólera, fúria, e ira de Deus, do que ao Seu amor e afecto. Porque Deus é santo, Ele odeia todo o pecado; porque Ele odeia todo o pecado, a Sua ira consome o pecador (Sal.7.11).
A ira de Deus é tão perfeição divina quanto a Sua fidelidade, poder e misericórdia. Assim tem de ser, pois não há qualquer mancha, nem o mais leve defeito no carácter de Deus. No entanto haveria, se a «ira» estivesse ausente d'Ele! A indiferença para com o pecado é um defeito moral, e quem não o odeia é um leproso moral. Como é que Ele, que é a soma de toda a excelência, poderia olhar com satisfação igual a virtude e o vício, a sabedoria e a tolice? Como é que Ele, que é infinitamente santo, poderia ignorar o pecado e recusar manifestar a Sua «severidade» (Rom. 11.22) para com ele? Como é que Aquele que se deleita apenas naquilo que é puro e amável, não é avesso e odeia aquilo que é impuro e vil? A própria natureza de Deus torna o inferno uma necessidade real, um requisito imperativo e eterno, como o próprio céu. Não apenas não há imperfeição em Deus, como não haveria n'Ele perfeição se porventura fosse menos perfeito que outrem.
A ira de Deus é a repulsa eterna de toda a injustiça. É o desagrado e a indignação da equidade divina contra o mal. É a santidade de Deus inflamada em actividade contra o pecado. É a acção judicial motora da justa sentença que Ele passa sobre os malfeitores. Deus ira-se contra o pecado porque este é uma rebelião contra a Sua autoridade, um atentado à Sua inviolável soberania. Os insurreccionistas contra o governo de Deus saberão que Deus é o Senhor. Saberão quão grande é a majestade que desprezam e quão terrível é a ira que eles tanto subestimaram. Não que a ira de Deus seja uma retaliação maligna e maléfica, infligindo injúria só por infligir, ou em troca pela injúria recebida. Não! Enquanto Deus reivindicar o Seu domínio como Governador do universo, Ele não será rancoroso ou vingativo.
Que a ira divina é uma das perfeições de Deus não é apenas evidente nas considerações atrás apontadas, mas está também claramente estabelecido em declarações expressivas da Sua própria Palavra. «Porque do céu se manifesta a ira de Deus» (Rom. 1.18). «Por isso jurei na Minha ira» (Salmo 95.11). As Escrituras revelam que há duas ocasiões em que Deus «jura»: ao fazer promessas (Gén. 22.16) e ao denunciar ameaças (Deut. 1.34). Na primeira, jura aos Seus filhos em misericórdia; na última, jura para aterrorizar os ímpios. Um juramento é uma confirmação solene (Heb. 6.16). Em Gén. 22.16 Deus disse: «Por Mim mesmo, jurei, diz o Senhor». No Salmo 89.35, Ele declara: «Uma vez jurei por Minha santidade», e no Salmo 95.11 Ele afirmou, «jurei na Minha ira». Assim, o grande Jeová apela para a Sua ira como uma perfeição igual à Sua santidade: Ele jura tanto por uma como pela outra. Demais; como em Cristo «habita corporalmente toda a plenitude da divindade» (Col. 2.9), e como todas as perfeições divinas são ilustremente manifestadas por Ele (João 1.18), lemos por isso da «ira do Cordeiro» (Apoc. 6.16).
A ira de Deus é uma perfeição do carácter divino que necessitamos de meditar frequentemente. Em primeiro lugar, para que os nossos corações sejam convenientemente impressionados com a abominação do pecado da parte de Deus. Nós somos propensos a lidar com o pecado levianamente, a branquear a sua hediondez, a desculpá-lo. Mas quanto mais estudamos e ponderamos a abominação do pecado da parte de Deus e a Sua vingança terrível, mais nos aproximaremos da realidade da sua hediondez. Em segundo lugar, para que se gere um verdadeiro temor de Deus nas nossas almas: «Retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus agradavelmente com reverência (temor) e piedade; porque o nosso Deus é um fogo consumidor» (Heb. 12.28,29). Nós não podemos servi-lO aceitavelmente a menos que haja uma reverência adequada à Sua enorme Majestade e temor pio à Sua justa ira; sendo isto mais facilmente promovido se trouxermos frequentes vezes à mente o facto de que «o nosso Deus é um fogo consumidor». Em terceiro lugar, para que as nossas almas sejam induzidas ao louvor fervoroso por terem sido libertas da «ira futura» (I Tes. 1.10).
A nossa prontidão ou a nossa relutância em meditar na ira de Deus é o teste seguro de quão afectados por Ele estão os nossos corações. Se não nos regozijarmos verdadeiramente em Deus, pelo que Ele é em Si mesmo, e isso por causa de todas as perfeições que são eternamente residentes n'Ele, então como é que habita o amor de Deus em nós? Cada um de nós necessita de orar mais contra a projecção mental de uma imagem de Deus modelada pelas nossas inclinações pecaminosas. No Velho Testamento o Senhor queixou-se, «Pensavas que Eu era como tu» (Sal. 50.21). Se não nos regozijarmos «em memória da Sua santidade» (Sal. 97.12), se não nos alegrarmos no conhecimento de que brevemente Deus fará uma manifestação gloriosa da Sua ira, tomando vingança de todos os que agora se Lhe opõem, isso é uma prova positiva de que os nossos corações não Lhe estão sujeitos; que ainda estamos nos nossos pecados.
«Jubilai, ó nações (Gentios), com o Seu povo, porque vingará o sangue dos Seus servos, e sobre os Seus adversários fará tornar a vingança, e terá misericórdia da Sua terra e do Seu povo» (Deut. 32.43). E outra vez, «Ouvi no céu como que uma grande voz de uma grande multidão, que dizia; Aleluia: Salvação, e glória, e honra, e poder pertencem ao Senhor nosso Deus; porque verdadeiros e justos são os Seus juízos, pois julgou a grande prostituta, que havia corrompido a terra com a sua prostituição, e das mãos dela vingou o sangue dos Seus servos. E outra vez disseram: Aleluia» (Apoc. 19.1-3). Grande será o regozijo dos santos nesse dia quando o Senhor reivindicar a Sua majestade, exercitar o Seu grande domínio, magnificar a Sua justiça, e destroçar os orgulhosos rebeldes que tiveram a ousadia de O desafiar.
«Se Tu, Senhor, observares as iniquidades, Senhor, quem subsistirá?» (Sal. 130.3). Bem pode cada um de nós fazer a interrogação, pois está escrito, «os ímpios não subsistirão no juízo» (Sal. 1.5). Quão penosamente foi a alma de Cristo exercitada com pensamentos da observação das iniquidades do Seu povo quando estas foram colocadas sobre Ele. «Ele começou a ter pavor e a angustiar-se» (Mar. 14.33). A Sua terrível agonia, o Seu suor ensanguentado, os Seus grandes clamores e lágrimas (Heb. 5.7), as Suas repetidas orações, «Se é possível, passa de Mim este cálice», o Seu último brado, «Deus Meu, Deus Meu, porque Me desamparaste?», revela as terríveis apreensões que Ele tinha, do que era para Deus «observar as iniquidades». Bem podem os pobres pecadores clamar, Senhor quem «subsistirá» quando o próprio Filho de Deus tremeu tanto sob o peso da Sua ira? Se tu, não fugires para te refugiar em Cristo, o único Salvador, «que farás na enchente do Jordão?» (Jer. 12.5)? Quando considero como a benignidade de Deus é abusada pela maior parte da humanidade, não posso deixar de concordar com quem disse que o maior milagre no mundo é a paciência e generosidade de Deus para com um mundo cheio de ingratidão. Se um príncipe tem um inimigo intrometido numa das suas cidades, ele não provisiona para ele, mas sitiará o lugar e levá-lo-á a capitular à fome. Porém o grande Deus, que podia destruir os Seus inimigos, suporta-os e mantém-nos diariamente a grande custo. Bem pode Ele mandar-nos abençoar quem nos amaldiçoa, que Ele próprio faz bem aos maus e cheios de ingratidão. Mas não penseis, pecadores, que escapareis assim; a mó do juízo divino rola devagar, mas despedaça; quanto maior é a Sua paciência e generosidade, mais terrível e insuportável será a fúria que se levantará do abuso da Sua bondade. Nada mais manso do que o mar calmo, mas que como este, quando açoitado pelo vento em tempestade, nada mais devastador. Não há nada mais doce do que a paciência e benignidade de Deus, e não há nada mais terrível do que a Sua ira quando se inflama.
Então, foge, foge para Cristo; «foge da ira futura» (Mat. 3.7) ou será demasiado tarde.
Uma palavra para os que evangelizam: No teu ministério oral anuncias esta verdade solene tanto quanto devias? Os profetas do Velho Testamento diziam frequentemente aos seus ouvintes que as suas vidas ímpias provocavam o Santo de Israel, e que entesouravam para si mesmos ira para o dia da ira. As condições no mundo agora, não são melhores do que então! Atenção: o nosso Deus é um «Deus que se ira todos os dias» (Sal. 7.11).
O arauto de Cristo avisou os seus ouvintes para fugirem «da ira futura» (Mat. 3.7). O Salvador proclamou aos que O escutavam, «Temei Aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno; sim, vos digo, a Esse temei» (Luc. 12.5). Paulo avisou, «Sabendo o terror que se deve ao Senhor, persuadimos os homens à fé» (2 Cor. 5.11). A fidelidade exige que falemos tão claramente acerca do inferno como do céu.



