Atributos de Deus (III)
A Imutabilidade de Deus
Esta é uma das perfeições divinas que normalmente não é suficientemente reflectida. É uma das excelências do Criador, que O distingue de todas as Suas criaturas. Deus é perpetuamente o mesmo: não está sujeito a qualquer mudança no Seu ser, atributos, ou determinações. É por isso que Deus é comparado a uma rocha (Deut. 32.4) que permanece inamovível, quando todo o oceano que a envolve se encontra em permanente estado alterado. Mesmo assim, ainda que todas as criaturas estejam sujeitas à mudança, Deus é imutável. Porque Deus não tem princípio e não tem fim, Ele não pode conhecer qualquer mudança. Ele é eternamente, «o Pai das luzes, em Quem não há mudança nem sombra de variação» (Tia. 1.17).
Primeiro, Deus é imutável na Sua essência. A Sua natureza e o Seu ser são infinitos, e assim, não sujeitos a mutações. Nunca houve um tempo em que Ele não existisse; nunca haverá um tempo em que Ele deixe de existir. Deus não tem evoluído, crescido, nem melhorado. Tudo o que Ele é hoje, Ele sempre foi e sempre será. «Eu, o Senhor, não mudo» (Mal. 3.6), é a Sua própria afirmação sem reservas. Ele não pode mudar para melhor, pois Ele já é perfeito; e sendo perfeito, não pode mudar para pior. Não se deixando afectar de forma alguma por algo fora de Si, o melhoramento ou a deterioração é impossível. Ele é perpetuamente o mesmo. Só Ele pode dizer, «EU SOU O QUE SOU» (Êxo. 3.14). Ele é totalmente insensível ao passar do tempo. Não há nenhuma ruga na sobrancelha da eternidade. Portanto o Seu poder nunca pode ser diminuído, nem a Sua glória murchar.
Segundo, Deus é imutável nos Seus atributos. Quaisquer que tenham sido os atributos de Deus antes do universo ter sido chamado à existência, eles agora são precisamente os mesmos, e assim permanecerão para todo o sempre. É necessariamente assim; pois eles são as próprias perfeições e qualidades essenciais do Seu ser. Semper idem (sempre o mesmo) está escrito sobre cada um deles. O Seu poder não diminui, a Sua sabedoria não minga, a Sua santidade não macula. Os atributos de Deus mudam tanto quanto a divindade poderia deixar de o ser. A Sua veracidade é imutável, pois a Sua palavra «para sempre permanece no céu» (Sal. 119.89). O Seu amor é eterno: «Com amor eterno te amei» (jer. 31.3) e, «Tendo amado os Seus, amou-os até ao fim» (João 13.1). A Sua misericórdia, porque é «eterna» Sal. 100.5), não cessa.
Terceiro, Deus é imutável no Seu conselho. A Sua vontade nunca varia. Talvez alguns objectem citando, «Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem» (Gén. 6.6). A nossa primeira réplica é: As Escrituras contradizem-se? Claro que isso nunca acontece. Então Números 23.19 é bastante claro: «Deus não é homem, para que minta; nem filho do homem, para que se arrependa». A explicação é simples. Quando fala de Si, Deus adapta frequentemente a Sua linguagem às nossas capacidades limitadas. Ele descreve-Se como revestido de membros corporais, como olhos, ouvidos, braços, mãos.
Ele fala de Si como «despertando» (Sal. 78.65), como «madrugando» (Jer. 7.13), ainda assim Ele nem dorme nem dormita. Ora, quando Ele institui uma mudança nos Seus tratos para com os homens, Ele descreve a Sua forma de conduta como «arrependimento».
Sim, Deus é imutável no Seu conselho. «Os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento» (Rom. 11.29). Tem que ser mesmo assim, pois «Se Ele está contra alguém quem então O desviará? O que a Sua alma quiser isso o fará» (Job 23.13).
O propósito de Deus nunca se altera. Uma de duas coisas leva o homem a mudar a sua mente e a inverter os seus planos: a falta de previsão para antecipação, ou a falta de poder de execução. Mas como Deus é tanto omnisciente como omnipotente, nunca tem necessidade de corrigir os Seus decretos. Não, «o conselho do Senhor permanece para sempre; os intentos do Seu coração de geração em geração» (Sal. 33.11). É por isso que lemos da «imutabilidade do Seu conselho» (Heb. 617).
Podemos perceber agora a distância infinita que separa a criatura mais elevada, do Criador. Criação e mutabilidade são termos correlativos. Se a criatura não fosse mutável, por natureza, não seria criatura; seria Deus. Por natureza tendemos para o nada, exactamente como viemos - do nada. Nada detém a nossa aniquilação a não ser a vontade e o poder sustentador de Deus. Ninguém se pode suster a si mesmo por um único momento que seja. Nós somos totalmente dependentes do Criador para todo o fôlego que exalamos. Nós confessamos alegremente com o Salmista, «O que sustenta com vida a nossa alma» (Sal. 66.9). A realização deste pensamento deveria fazer-nos prostrar com o sentimento da nossa nulidade na presença d'Aquele «em Quem vivemos, nos movemos e existimos».
Como criaturas caídas nós não somos apenas mutáveis, mas também tudo em nós se opõe a Deus. Como tal somos «estrelas errantes» (Judas 13), completamente fora da nossa própria órbita. Os ímpios são «como o mar bravo que se não pode aquietar» (Isa. 57.20). O homem decaído é inconstante. As palavras de Jacob a respeito de Ruben aplicam-se cheias de força a todos os descendentes de Adão, «inconstante como a água» (Gén. 49.4). Assim, não constitui apenas marca de piedade, mas também parte de sabedoria, dar ouvidos à injunção, «deixai-vos pois do homem» (Isa. 2.22). Nenhum ser humano é motivo de confiança. «Não confieis em príncipes nem em filhos de homens, em quem não há salvação» (Sal. 146.3). Se nós desobedecermos a Deus merecemos ser enganados e desiludidos pelos nossos co-iguais. As pessoas que gostam de ti hoje, podem odiar-te amanhã. A multidão que clamava, «Hosana ao Filho de David», depressa mudou para «Tira, tira, crucifica-O».
Esta verdade faculta-nos conforto sólido. Não se pode confiar na natureza humana; mas sim em Deus! Conquanto instável possa ser, conquanto inconstantes os meus amigos se possam revelar, Deus não muda. Se Ele mudasse como nós, se Ele quisesse uma coisa hoje e outra amanhã, se Ele fosse dominado pelo capricho, quem n'Ele poderia confiar? Mas Ele é sempre o mesmo. O Seu propósito é fixo, a Sua vontade constante, a Sua Palavra certa e segura. Eis aqui pois uma Rocha onde podemos firmar os nossos pés, enquanto a torrente forte arrasta tudo em nosso redor. A permanência do carácter de Deus garante o cumprimento das Suas promessas: «Porque as montanhas se desviarão, e os outeiros tremerão, mas a Minha benignidade não se desviará de ti, e o concerto da Minha paz não mudará, diz o Senhor que se compadece de ti» (Isa. 54.10).
Esta verdade é um encorajamento à oração. Que conforto haveria em orar a um deus que, mudasse de cor a todo o momento como fazem os camaleões? Quem dirigiria uma petição a um príncipe terreno que fosse mutável a ponto de a conceder num dia e a negá-la noutro? Perguntará alguém porque é que se há-de orar a Alguém que tem uma vontade fixa. Nós respondemos: porque Ele assim o requer. Que bênçãos Deus tem prometido sem que as tenhamos pedido, tudo para bem dos Seus filhos! «Se pedirmos alguma coisa segundo a Sua vontade Ele nos ouve» (I João 5.14). Ele tem querido tudo o que é para bem dos Seus filhos. Pedir para algo que é contrário à Sua vontade não é oração, mas rebelião.
Esta verdade é terror para os ímpios. Os que O desafiam, quebram as Suas leis, não têm qualquer preocupação pela Sua glória, vivendo as suas vidas como se Ele não existisse, não suponham que, quando por fim eles apelarem para a Sua misericórdia, Ele altere a Sua vontade, revogue a Sua palavra, e abdique das Suas terríveis ameaças. Não! Ele declarou: «Pelo que também Eu procederei com furor; o Meu olho não poupará, nem terei piedade; ainda que Me gritem aos ouvidos com grande voz, Eu não os ouvirei» (Eze. 8.18). Deus não se negará para gratificar as suas concupiscências. Deus é santo, imutavelmente santo. Por isso Deus odeia o pecado, odeia-o eternamente. Daí a eternidade da punição de todos os que morrem nos seus pecados.
A imutabilidade divina, como a nuvem que se interpunha entre os israelitas e o exército egípcio, possui um lado escuro como também um luminoso. Assegura a execução das Suas ameaças, como também a realização das Suas promessas.



