A Lei das Ofertas (Parte VII)
A EXPIAÇÃO DO PECADO, ou OFERTA PELO PECADO (Lev.4)
A Expiação do Pecado, juntamente com a Expiação da Culpa, não são chamadas ofertas de cheiro suave. Nestas ofertas vemos Cristo como Aquele que leva sobre Si os pecados do Seu povo; e como tal tem de tomar sobre Si o juízo de Deus. É por isso que estas ofertas não são chamadas de cheiro suave; pois Deus não se deleita em juízo. O juízo é para Deus uma obra estranha, «Porque o SENHOR se levantará como no monte Perazim, e se irará, como no vale de Gibeão, para fazer a Sua obra, a Sua estranha obra, e para executar o Seu acto, o Seu estranho acto» (Isa. 28.21).
Notemos também que as 3 anteriores eram voluntárias, enquanto que estas duas eram compulsórias, ou obrigatórias - «Quando uma alma pecar … oferecerá ao Senhor» (Lev. 4.2,3).
A Expiação do Pecado está em contraste directo com o Holocausto. No Holocausto é tudo para Deus. Na expiação do Pecado é tudo para o homem. Na Oferta pelo Pecado o Senhor Jesus Cristo é figurado como dando-Se em oferta e sacrifício a Deus pelos homens.
A oferta pelo Pecado era pelos pecados de ignorância (Lev. 4.2). O homem é um pecador, quer ele saiba quer não. O pecado é mais profundo do que as piores obras de qualquer homem podem demonstrar. O pecado não é apenas o que o homem faz, mas o que o homem é. O homem é pecado. Compreendemos agora porque é que «Àquele que não conheceu pecado, (Deus) o fez pecado por nós; para que n’Ele fossemos feitos justiça de Deus»? Cristo não só levou os nossos pecados, mas foi feito pecado por nós, isto é, Ele não só morreu pelos pecados, mas pelo pecado.
O homem tem uma natureza de pecado, que é chamada em Rom. 8.3 «pecado na carne», isto é, a raiz de todo o pecado. Na mesma passagem nós somos chamados «carne do pecado».
O homem não é pecador porque comete pecados, mas comete pecados porque é pecador, porque a raiz do pecado está nele.
O Senhor Jesus definiu a fonte do pecado quando disse, «Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfémias. São estas coisas que contaminam o homem» (Mat. 15.19,20). Ao dizer isto Ele só veio enfatizar o que Ele já tinha dito séculos antes, a saber, «Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá? Eu, o Senhor, esquadrinho o coração» (Jer. 17.9,10). Só Ele conhece o coração – e conhece-o como sendo a fonte do pecado. O pecado é pecado, seja ele inocente, dormente, ou violento.
Ora, o padrão de Deus é a santidade. Está escrito, «Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor» (Heb. 12.14). O pecador aberto não se enquadra neste padrão. Assim também o homem que é perfeitamente moralista, não só porque lhe falta a santidade absoluta, mas também porque possui uma natureza de pecado.
Há uma diferença nos homens a respeito dos graus de pecado. O homem que é moral e íntegro, vive uma vida recomendável por amor aos seus e aos outros. É melhor ser sóbrio, honesto, íntegro e disponível para desempenhar todos os deveres, do que ser um transgressor. É melhor para a sua saúde e consciência. É melhor para a comunidade em que vive e em todos os aspectos da sua vida neste mundo.
Mas ele está destituído do padrão da justiça de Deus – perfeição impecável. (E Deus, atendendo à Sua própria santidade, não pode exigir menos).
Ao falhar nisto com todo o seu bom carácter, ele está destituído daquilo que Deus requer dele. O homem que peca abertamente está destituído do padrão de Deus em todas as direcções, a todos os níveis.
Há uma diferença entre estes dois homens no nível ou no grau do pecado, mas não há diferença nenhuma neles no facto do pecado. Estão ambos destituídos do que Deus requer. Estão ambos destituídos de santidade; da perfeição impecável. E isto tem que lhes ser dito clara e firmemente. Vemos assim que, bem lá no fundo, afinal não há qualquer diferença entre eles. O esplêndido homem bom e o verme, estão ambos aquém do que Deus requer, e como tal, estão ambos perdidos, ambos separados de Deus – o bom e o mau homem.
É por isso que a Bíblia diz claramente, «porque não há diferença. Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus» (Rom. 3.22,23).
O homem não é sentenciado à morte por cometer um grande pecado, mas por causa dum pequeno pecado cometido ignorantemente, mas que aos olhos de Deus é tão grande que para lhe ser expiada a culpa todo o sangue do sacrifício teve que ser derramado sobre a base do altar. Isto mostra quão terrível é o pecado.
A vítima para o sacrifício tinha quer ser sem defeito (Lev. 4.3). Se apresentasses um homem para pagar a dívida que tu não podes pagar, esse homem tinha ele mesmo que estar isento de dívida. Se tivesses alguém que se apresentasse para morrer em teu lugar uma pena de morte, esse alguém não podia ter sobre si mesmo pendente uma pena de morte; tinha que ser alguém sobre quem a lei da justiça não pendesse.
Na base da Sua perfeição impecável, não pendendo sobre Ele a lei da justiça, o Senhor vem e oferece-Se como substituto pelo pecador, a fim de pagar a sua dívida.
Na Oferta pelo pecado a vítima era o substituto cerimonial do pecador (v.3). Acerca do Senhor Jesus lemos, que «Àquele que não conheceu pecado, (Deus) o fez pecado por nós; para que n’Ele fossemos feitos justiça de Deus» (2 Cor. 5.21). «Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o Justo pelos injustos, para levar-nos a Deus» (I Ped. 3.18).
O pecador punha a sua mão sobre o substituto que iria morrer (v.4). No Holocausto acontecia o mesmo (1.4). Isto explica a verdade da substituição. No Holocausto a impecabilidade da vítima é transferida para o adorador. Na Oferta pelo Pecado a pecaminosidade do pecador é transferida para a vítima. No Holocausto o crente é visto identificado com Cristo e aceite n’Ele; na Oferta pelo Pecado Cristo identificou-Se connosco no nosso pecado. O pecado foi transferido para Ele como nosso substituto. A identificação pessoal com Cristo traz a paz, pois significa a remoção do pecado e a recepção da justiça.
A imposição dos nossos pecados sobre o Senhor Jesus (4.4) não é um acto nosso, mas de Deus. «o SENHOR fez cair sobre Ele a iniquidade de nós todos» (Isa. 53.6). «ao SENHOR agradou moê-lO» (53.10).
O sangue da Oferta pelo Pecado era todo derramado na base do altar (Lev. 4.7). Como isso nos recorda o facto da Antitípica Oferta pelo Pecado, o nosso Senhor Jesus Cristo, ter derramado todo o Seu sangue aos pés da cruz!
Que Ele derramou o sangue todo, revelou-o e demonstrou-o aos discípulos na noite após a Sua ressurreição quando lhes disse no cenáculo em Jerusalém, «Vede as Minhas mãos e os Meus pés, que sou Eu mesmo; apalpai-Me e vede, pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que Eu tenho» (Luc. 24.39). Repare que Ele não disse que tinha carne e sangue, pois derramara-o todo. E derramara-o todo porque Ele foi oferecido como Oferta pelo Pecado.
Certamente que tiraram o corpo branco do Senhor Jesus da cruz, tão branco como o linho em que o envolveram. Agora aparece certamente pálido no cenáculo. Porque lhe chamam de fantasma? Porque pintam os fantasmas de branco? Apenas uma curiosidade! A oferta pelo pecado estava ali diante deles, com carne e ossos, mas sem sangue! O sangue fora todo derramado por causa dos pecadores em Oferta pelo Pecado.
O sangue era aspergido sete vezes. «E o sacerdote molhará o seu dedo no sangue, e daquele sangue espargirá sete vezes perante o Senhor diante do véu do santuário» (v.6). Isto indica a nossa posição perfeita na presença de Deus. É por isso que temos ousadia para entrar no Santuário, pelo sangue do Senhor Jesus. «Tendo, pois, irmãos, ousadia para entrar no santuário, pelo sangue de Jesus, Pelo novo e vivo caminho que Ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela Sua carne, e tendo um grande sacerdote sobre a casa de Deus, Cheguemo-nos com verdadeiro coração, em inteira certeza de fé, tendo os corações purificados da má consciência, e o corpo lavado com água limpa» (Heb. 10.19-22).
A vítima deveria ser levada para fora do arraial e queimada até à cinza (v.12). O nosso Senhor também foi levado para fora do arraial, como está escrito, «E por isso também Jesus, para santificar o povo pelo Seu próprio sangue, padeceu fora da porta» (Heb. 13,12). Eles levavam o corpo da Oferta pelo Pecado para fora do arraial, onde era queimada e transformada em cinzas. O Senhor Jesus também foi levado para fora da porta de Jerusalém, para um lugar chamado Gólgota. Ele disse antecipada e profeticamente pela boca dum profeta, «Desde o alto enviou fogo a Meus ossos» (Lam. 1.13). «Sobre Mim pesa o Teu furor ... A Tua ardente indignação sobre Mim vai passando; os Teus terrores Me têm retalhado» (Sal. 88.7,16). «Estou desfalecido pelo golpe da Tua mão» (Sal. 39.10).
A relação do ofertante individual com a Oferta pelo Pecado. Ele tem que apresentar-se diante de Deus e curvar-se como pecador. Ele tem que se confessar pecador, não porque era consciente do pecado, mas porque Deus dissera que ele era pecador e que deve assumir a opinião que Deus tem dele. Ele tem que tomar o sacrifício que Deus providenciou para ele e oferecê-lo como seu sacrifício pessoal. Ele tem que colocar a sua mão sobre a cabeça da vítima, confessar os seus pecados e reivindicá-la como seu substituto individual. «E porá a sua mão sobre a cabeça da oferta da expiação do pecado, e a degolará no lugar do holocausto» (Lev. 4.29). É assim que cada indivíduo tem que actuar se quiser ser salvo hoje. Ele tem que assumir a opinião que Deus tem dele como pecador, por natureza ou por transgressão. Deus diz que ele é pecador por natureza e prática. Ele tem que aceitar o veredicto divino. Ele tem que colocar a sua mão sobre a cabeça do crucificado, isto é, ele tem que aceitá-lO naquela cruz como o sacrifício providenciado por Deus para ele. Ele tem de oferecê-l’O pela fé por si mesmo e não por outro, tem que O reivindicar como seu substituto que sofre o castigo e a morte que ele próprio merecia.
É desta forma e só desta forma que Cristo nos pode valer.
Deste modo e só deste modo pode o Cristo de Deus tornar-Se no Salvador tanto do melhor como do pior dos homens.
A dupla relação da Oferta pelo Pecado com o ofertante.
O sangue estava perante o Senhor que está na tenda da congregação (v.7). As cinzas estavam fora do arraial (v.12). Sangue diante do Senhor; cinzas fora do arraial.
O sangue diante do Senhor mostrava-lhe que o sacrifício por ele tinha sido aceite.
As cinzas fora do arraial. Quando ele via as cinzas via que o juízo de Deus tinha cerimonialmente caído sobre os seus pecados. Quando ele olhava e via o vento soprar e espalhar as cinzas fazendo-as desaparecer da sua vista, ele sabia que a questão entre ele e o Deus de Israel tinha sido resolvida, e que, cerimonialmente, os seus pecados tinham sido desfeitos.
Observemos a cruz. Não vemos ali a aceitação do sacrifício por nós? Não vemos ali os nossos pecados desfeitos? Os nossos pecados desapareceram da vista de Deus para sempre – perdoados, esquecidos, como está escrito, «E jamais Me lembrarei de seus pecados e de suas iniquidades» (Heb. 10.17). Quão bom sabermos que «o sangue de Jesus Cristo, Seu Filho nos purifica de todo o pecado» (I João 1.7). Que mais poderíamos ter?
A queima do sacrifício fora do arraial, ensina-nos lições muito práticas. É um quadro da forma como Deus tratou «o corpo do pecado». Lemos em Rom. 6.6, «Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com Ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado». Isto traz diante de nós a diferença entre aquilo que eu sou e o que eu faço. O que eu faço pode ser expiado pelo sangue e pelo perdão reservado para os pecados, mas os pecados não podiam ser crucificados. Por outro lado, o que eu sou não podia ser perdoado nem expiado, porque o perdão não se aplica a uma natureza.
A inclinação da carne (ou natureza) é inimiga de Deus (Rom. 8.7), e essa não pode ser perdoada, porque é a raiz, e a árvore (pecado) da qual vem o fruto (pecados).
O pecado tem de ser desfeito por Deus para libertar dele a Sua criação para sempre (Heb. 9.26; João 1.29). Este aspecto do sacrifício aponta-nos também para a nossa libertação do poder do pecado.
O que eu sou é a raiz do que eu faço. Preciso tanto de ser libertado da energia ou do poder desta natureza pecaminosa, como ser livre do julgamento dos meus pecados.
Se todos os meus pecados fossem perdoados, e permanecesse a minha natureza pecaminosa, continuaria só a pecar. Contudo, Deus, para o evitar, providenciou, «enviando o Seu Filho em semelhança da carne do pecado, e pelo pecado (não pecados), condenou o pecado na carne» (Rom. 8.3). Deus nunca perdoa o pecado (a natureza pecaminosa). Ele julgou-a na cruz, e temos o tipo disto no corpo do animal que, no Sacrifício pelo Pecado, era queimado fora do arraial. E temos o perdão dos nossos pecados pelo sangue derramado. Toda esta verdade sobressai muito na carta aos Romanos. «Sabendo isto, … Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor» (Rom. 6.6,11).
Notemos o Evangelho em miniatura: pecado (v.27); culpado (v.27); sangue (v.30); perdoado (v.31). O homem peca, é declarado culpado e portanto condenado, mas o derramamento do sangue duma vítima inocente permite-lhe que seja perdoado.
Notemos também o solene princípio aqui estabelecido: a gravidade do pecado depende da posição daquele que peca. Se fosse sacerdote a responsabilidade era maior. A oferta era superior – um novilho. Quando o sacerdote pecava o resultado era tal que toda a congregação pecava. Que responsabilidade, a responsabilidade dos que têm responsabilidades no meio do povo de Deus!



