A Lei das Ofertas (Parte VI)
A OFERTA PACÍFICA (Lev.3 e 7.28-36)
A característica chave desta oferta é que tanto o ofertante como o sacerdote obtinham parte dela.
Devia ser comida diante do Senhor. Comer diante do Senhor é ter comunhão com Ele.
É um quadro de Deus e do pecador em paz um com o outro, com todas as questões entre eles perfeitamente resolvidas. É a paz na base dum sacrifício mutuamente aceite. É o quadro da reconciliação. «Isto é, Deus estava em Cristo reconciliando Consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados» (2 Cor. 5.19). «A vós também, que noutro tempo éreis estranhos, e inimigos no entendimento pelas vossas obras más, agora contudo vos reconciliou no corpo da Sua carne, pela morte, para perante Ele vos apresentar santos, e irrepreensíveis, e inculpáveis» (Col. 21.21,22). Esta paz é feita entre o pecador individual que crê e o seu Deus, como está escrito: «Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo» (Rom. 5.1).
Na noite de natal, em Belém, os anjos apareceram aos pastores dizendo, «Glória a Deus nas alturas, Paz na terra, boa vontade para com os homens» (Luc. 2.14). Nessa altura todas as manhãs e todas as noites era sacrificado um cordeiro no templo. A proclamação dos anjos aos pastores visava, entre outras coisas, comunicar-lhes que no serviço do templo já não eram mais necessários cordeiros, pois Deus tinha providenciado um Cordeiro. Ele haveria de efectuar um sacrifício que efectuaria a paz entre o pecador e Deus. Que boa vontade era aquela? «Porquanto a vontade d’Aquele que me enviou é esta: Que todo aquele que vê o Filho, e crê n’Ele, tenha a vida eterna; e Eu o ressuscitarei no último dia» (João 6.40).
A Oferta Pacífica também tinha o carácter de acção de graças (Lev. 7.11-13): «E esta é a lei do sacrifício pacífico que se oferecerá ao SENHOR: Se o oferecer por oferta de acção de graças, com o sacrifício de acção de graças, oferecerá bolos ázimos amassados com azeite; e coscorões ázimos amassados com azeite; e os bolos amassados com azeite serão fritos, de flor de farinha. Com os bolos oferecerá por sua oferta pão levedado, com o sacrifício de acção de graças da sua oferta pacífica». Lev. 7.11-34 contém a lei da Oferta Pacífica e fala do comer a Oferta Pacífica, que não é mencionado no cap. 3. Significa os graciosos resultados de paz conseguidos para o pecador através da obra de Cristo. A comunhão é o resultado, como louvor e gratidão.
Os bolos tipificam Cristo. Nesta bendita festa Cristo, como em toda a parte, tem a preeminência. O gozo de paz e a sua comunhão resultante é impossível aparte de Cristo. Ele é a nossa paz. «Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio» (Efé. 2.14). «Tenho-vos dito isto, para que em Mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, Eu venci o mundo» (João16.33). «E Este será a nossa paz» (Miq 5.5). Paz realizada entre o pecador que crê e o seu Deus pelo sangue da cruz, como está escrito: «E que, havendo por Ele feito a paz pelo sangue da Sua cruz, por meio d’Ele reconciliasse Consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus» (Col. 1.20).
O facto desta oferta ser feita no altar dos holocaustos revela que a paz foi possível a partir do momento que Deus foi satisfeito (Lev. 1.5).
Atentemos para a oferta:
1. O animal podia ser macho ou fêmea (v.1). Quando está em causa a comunhão com Deus não há macho nem fêmea – somos um em Cristo.
2. O animal devia ser sem defeito diante do Senhor (v.1). O que quer que os homens possam dizer ou pensar a respeito do Filho de Deus, Deus não vê qualquer defeito n’Ele. Até os demónios tiveram que confessar, «Dizendo: Ah! que temos nós contigo, Jesus Nazareno? Vieste a destruir-nos? Bem sei quem és: O Santo de Deus» (Luc. 4.34).
Deus tinha a Sua porção. A gordura e o sangue (Lev.7.33) simbolizavam a valiosíssima vida e as preciosas afeições do Cordeiro de Deus. Só Deus pode estimar o infinito valor destas verdades.
Aarão e os seus filhos alimentavam-se do peito e da espádua direita (Lev. 7.28-36). O peito e a espádua simbolizam afeição e força; amor e poder. Todos os membros da família sacerdotal tinham a sua própria porção. E todos os crentes agora, constituídos sacerdotes para Deus, podem alimentar-se do amor e poder de Cristo. Podem contar com o Seu coração amantíssimo e ombro poderoso para os confortar e suster continuamente. Quando O vemos no Sacrifício Pacífico, descobrimos Aquele que tem um lugar no Seu coração amantíssimo e sobre os Seus poderosos ombros para pecadores indignos e desamparados como nós.
É maravilhoso vermos na Bíblia que o Pai quis que o pródigo se alimentasse do bezerro cevado em comunhão consigo. O pai não dá ao pródigo um lugar inferior à sua mesa, nem qualquer outra porção senão aquela de que ele próprio se alimenta. A linguagem do sacrifício era esta: «era justo alegrarmo-nos e folgarmos» (Luc. 15.32) e «comamos, e alegremo-nos» (Luc. 15.23). Tal é a preciosa graça de Deus! Não há dúvidas que temos motivos para nos alegrarmos, com uma tal graça!
É importante não esquecermos que só podemos estar na presença divina se participarmos da vida divina e usufruirmos da justiça divina (pele do Holocausto).
O pai só podia ter o pródigo à sua mesa, vestido com o melhor vestido (pele). Tivesse o pródigo conservado os seus andrajos ou tivesse sido admitido como um dos jornaleiros (servos) nunca ouviríamos as gloriosas palavras «comamos, e alegremo-nos». Não é melhorando a nossa natureza que chegamos à presença divina; mas como possuidores duma nova natureza. Não foi remendando os trapos da sua condição anterior que o pródigo obteve um lugar à mesa do Pai, mas por Ter recebido d'Ele um vestido novo. Ele não trouxe esse vestido da terra longínqua nem o obteve no caminho. O Pai tinha-o em casa para lho dar. O Pródigo não o fez nem o ajudou a fazer. O Pai adquiriu-o para ele e alegrou-se por o ver vestido com ele. Foi assim que se assentaram à mesa em torno do bezerro cevado.
É da máxima importância fazer a distinção entre o pecado na carne e o pecado na consciência. Em Lev. 7.13, «Com os bolos oferecerá por sua oferta pão levedado, com o sacrifício de acção de graças da sua oferta pacífica» e Lev. 7.20, «Porém, se alguma pessoa comer a carne do sacrifício pacífico, que é do SENHOR, tendo ela sobre si a sua imundície, aquela pessoa será extirpada do seu povo» temos as duas coisas postas claramente diante de nós, a saber, o pecado em nós e o pecado sobre nós. O fermento era permitido porque há pecado na natureza do adorador. A imundície não era permitida porque não devia haver pecado na consciência do adorador. Onde há pecado não pode haver comunhão. Deus providenciou expiação pelo sangue para o pecado que Ele sabe existir em nós. «E de toda a oferta oferecerá uma parte por oferta alçada ao SENHOR, que será do sacerdote que espargir o sangue da oferta pacífica» (v.14). Por outras palavras, o fermento (pecado) na natureza do adorador estava perfeitamente expiado pelo sangue do sacrifício. O sacerdote que recebe o pão levedado é quem deve aspergir o sangue. Deus afastou da Sua vista o pecado para sempre. Apesar do pecado estar em nós Ele nunca o vê. Só vê o sangue. E por isso pode andar connosco e conceder-nos comunhão ininterrupta Consigo. Com pecado sobre é que não há comunhão.
Tratando-se de um voto, ou de oferta voluntária, os alimentos do Sacrifício Pacífico tinham de ser comidos no mesmo dia, e se alguma coisa sobejasse para o terceiro dia, seria queimado com fogo (7.16-18). Isso ensina-nos que devemos adorar o Senhor no poder e na força da comunhão presente. A comunhão de ontem já não dá para hoje.
Nos 4 Evangelhos a vida do Senhor Jesus Cristo não só é apresentado em quatro facetas diferentes - em Mateus, Rei; em Marcos, Servo; em Lucas, Homem; em João, Filho de Deus -, como a Sua morte é vista igualmente sob quatro facetas, nomeadamente sob quatro dos cinco sacrifícios de Levítico. Em Mateus vemos a sua morte sob a figura da Expiação da Culpa, em Marcos sob a figura da Oferta pelo Pecado, ou Expiação do Pecado, em João sob o tipo do Holocausto, e em Lucas sob a figura da Oferta Pacífica. Visto que Lucas apresenta a morte do Senhor Jesus sob a figura da Oferta Pacífica, naturalmente a palavra e o pensamento da paz é muito proeminente nesse livro. A Oferta Pacífica fala-nos mais do resultado da morte do Senhor Jesus do que da morte em si. É por isso que Lucas fala tão pouco do sofrimento de Cristo na cruz. Ele deixa de fora o clamor, Deus Meu, Deus meu, etc., mas enfatiza os frutos do sacrifício do Calvário. Assim, é neste livro que vemo-lO orar pelo perdão dos homens e perdoar ao malfeitor na cruz. Todo o Evangelho está repleto da bendita verdade da graça, remissão de pecados, e concessão de paz. O tema é: Ele fez a paz pelo sangue da Sua cruz. Notemos algumas dessas ocorrências da palavra paz.
O anúncio dos anjos, «Paz na terra, boa vontade para com os homens» (Luc. 2.14). Os incrédulos bem podem perguntar, "Onde está a paz, nestes quase 2.000 anos? A resposta está na leitura do contexto. Antes da proclamação paz na terra ter sido feita, o anjo declarou a oferta de boas novas de grande alegria, pois havia-lhes nascido naquele dia um Salvador que era Cristo o Senhor. Portanto, a recepção do Salvador era necessária antes de haver paz. Como pode haver paz com um Salvador rejeitado? O Senhor mesmo disse, «Importa, porém, que seja baptizado com um certo baptismo; e como me angustio até que venha a cumprir-se! Cuidais vós que vim trazer paz à terra? Não, vos digo, mas antes dissensão» (Luc. 12.50,51). Porque o Senhor Jesus foi rejeitado, os discípulos, mais tarde, falam de paz no céu, e não paz na terra - «E, quando já chegava perto da descida do Monte das Oliveiras, toda a multidão dos discípulos, regozijando-se, começou a dar louvores a Deus em alta voz, por todas as maravilhas que tinham visto, dizendo: Bendito o Rei que vem em nome do Senhor; paz no céu, e glória nas alturas» (Luc. 19.50,51). Notemos bem esta mudança! A paz foi para o céu quando Cristo voltou ao Pai. Se agora quiseres paz tens que sintonizar com o céu, volvendo-te para Ele que fez a paz pelo sangue da Sua cruz. A paz agora é apenas porção dos Seus remidos, como Ele mesmo disse ao deixar este mundo: «Deixo-vos a paz, a Minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize» (João 14.27). Esta paz é a paz interior da alma com Deus, não a paz exterior deste mundo. O Senhor também disse aos Seus discípulos, «Tenho-vos dito isto, para que em Mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, Eu venci o mundo» (João 16.33). Esta paz é realizada através da fé em Cristo, «Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo» (Rom. 5.1). À mulher que lavou os pés do Senhor com lágrimas Ele confirmou isso ao dizer-lhe: «E disse à mulher: A tua fé te salvou; vai-te em paz» (Luc. 7.50). Estás à espera de quê? Já creste no Senhor Jesus como teu único e suficiente Salvador?
Havia três tipos de Ofertas Pacíficas, dependendo do motivo ou propósito da oferta:
1. Como expressão de gratidão (7.12), louvando a Deus por alguma bênção especial.
2. Como voto (v.16), em cumprimento duma promessa feita a Deus.
3. Como acto de voluntarismo ou de livre vontade (vs.16,17), expressão espontânea de louvor a Deus como apreciação daquilo que Ele é.



