As Escrituras e Deus
As Santas Escrituras são totalmente sobrenaturais. São uma revelação divina. "Toda Escritura é inspirada por Deus. . ." (II Timóteo 3:16). Não ocorreu apenas que Deus elevou as mentes de certos homens, mas antes, que dirigiu os seus pensamentos. Não é simplesmente que Ele transmitiu-lhes determinados conceitos, mas também ditou as próprias palavras que eles empregaram. "...porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana, entretanto homens (santos) falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo" (II Pedro 1:21).
Qualquer "teoria" humana que pretenda negar a inspiração verbal das Escrituras é um artifício de Satanás, um ataque contra a verdade divina. A imagem divina acha-se estampada em cada uma das suas páginas. Escritos tão santos, tão celestiais, tão profundamente criadores de temor não poderiam ser produzidos pelos homens.
As Escrituras dão a conhecer um Deus sobrenatural. Talvez essa seja uma observação perfeitamente óbvia; mas, hoje em dia, precisa de ser feita. O "deus" em que crêem muitos cristãos professos, está a ser cada vez mais paganizado por eles. O lugar proeminente que o "desporto" tem ocupado na vida da nação, o amor excessivo pelos prazeres, a abolição da vida doméstica, a descarada imodéstia das mulheres, são outros tantos sintomas da mesma enfermidade que causou a queda e o desaparecimento de impérios como os de Babilônia, da Pérsia, da Grécia e de Roma. E o conceito de Deus que se propaga neste nosso século XX pela maioria das pessoas de países nominalmente "cristãos" rapidamente se aproxima do caráter atribuído aos deuses da antiguidade. Em violento contraste com isso, o Deus das Santas Escrituras está revestido de tais perfeições e está revestido de tais atributos que nenhum mero intelecto humano poderia tê-los inventado.
Deus só pode vir a ser conhecido por meio da revelação sobrenatural sobre a Sua própria pessoa. À parte das Escrituras, é totalmente impossível até mesmo a familiarização teórica com Deus. Continua sendo uma verdade que "... o mundo não O conheceu por sua própria sabedoria..." (I Coríntios 1:21). Em todos os lugares onde as Sagradas Escrituras são ignoradas, Deus é o "....DEUS DESCONHECIDO" (Atos 17 :23).
Porém, algo mais do que apenas as Escrituras se requer, antes que a alma possa conhecer a Deus, antes que possa conhecê-Lo de forma real, pessoal e vital. Mas isso parece ser reconhecido por bem poucos, hoje em dia. A prática prevalecente dá a entender que se pode obter o conhecimento de Deus através do mero estudo da Bíblia, da mesma maneira que o conhecimento sobre química pode ser obtido através do estudo de compêndios de química. O conhecimento intelectual de Deus talvez possa ser obtido desta maneira; mas nunca o conhecimento espiritual.
Pois o Deus sobrenatural só pode ser conhecido sobrenaturalmente (isto é, de um modo superior àquilo que a mera natureza humana pode adquirir), ou seja, mediante a revelação sobrenatural do próprio Deus ao coração humano. "Porque Deus que disse: De trevas resplandecerá luz –, ele mesmo resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo" (II Coríntios 4:6). Aquele que já foi favorecido com essa experiência sobrenatural já aprendeu que "... na Tua luz vemos a luz" (Salmos 36:9).
Deus só pode ser conhecido através da faculdade sobrenatural. Isso Cristo deixou bem claro, ao dizer: "Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus" (João 3:3). Os indivíduos sem regeneração não têm qualquer conhecimento espiritual de Deus. "Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las porque elas se discernem espiritualmente" (I Coríntios 2:14). A água, por si mesma, jamais se eleva acima do seu próprio nível. Assim também o homem natural é incapaz de perceber aquilo que transcende à mera natureza. No entanto, "... a vida eterna é esta: que te conhecem a Ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste" (João 17:3). A vida eterna precisa de ser outorgada, antes que se possa conhecer o "verdadeiro Deus". Isso é afirmado claramente na passagem de I João 5:20: "Também sabemos que o Filho de Deus é vindo, e nos tem dada entendimento para reconhecermos o verdadeiro; e estamos no verdadeiro, em seu Filho Jesus Cristo.... " Sim, o "entendimento", um entendimento de natureza espiritual, por meio de uma nova criação, precisa de nos ser dada, antes que possamos conhecer a Deus de maneira espiritual.
O conhecimento sobrenatural de Deus produz uma experiência sobrenatural, mas isso é algo para o que multidões de membros de igrejas são totalmente estranhos. A maior parte da "religiosidade" da nossa época é apenas um "velho Adão" retocado. É meramente o adornar de sepulcros cheios de corrupção. É apenas uma formalidade "externa". E até nos casos onde há um credo saudável, com exagerada frequência tal ortodoxia é morta.
E também não nos deveríamos admirar com tal estado de coisas. Sempre foi assim. Assim sucedia quando Cristo estava neste mundo. Os judeus eram muito ortodoxos. Naquela ocasião eles estavam isentos de idolatria. O templo permanecia de pé em Jerusalém, a lei mosaica era exposta e o Senhor era adorado. No entanto, Cristo disse a respeito deles: "... Aquele que me enviou é verdadeiro, aquele a quem vós não conheceis" (João 7:28). "Não Me conheceis a Mim nem a Meu Pai; se conhecêsseis a Mim, também conheceríeis a Meu Pai" (João 8:19). "...Quem Me glorifica é Meu Pai, o Qual vós dizeis que é vosso Deus, entretanto vós não O tendes conhecido; eu, porém, O conheço. Se disser que não O conheço, serei como vós, mentiroso; mas eu O conheço e guardo a Sua palavra" (Joio 8:54,55). E não nos esqueçamos de que tudo isso foi dito a um povo que tinha as Escrituras e que as rebuscavam diligentemente, venerando-as como a Palavra de Deus! (João 5:39) Teoricamente, pelo menos, estavam bem familiarizados com a ideia de Deus, mas não possuíam o conhecimento espiritual a Seu respeito.
Assim como ocorria no mundo do judaísmo, assim também sucede na cristandade. Multidões que "acreditam" no Espírito Santo são completamente despidas de conhecimento sobrenatural ou espiritual de Deus. E como podemos ter tanta certeza a esse respeito? Da seguinte maneira: o carácter do fruto revela o carácter da árvore que o produz; a natureza da água dá a conhecer a natureza do manancial de onde ela flui. O conhecimento sobrenatural de Deus produz uma experiência sobrenatural, e a experiência sobrenatural resulta em fruto espiritual.
Isso equivale a dizer que quando Deus vem realmente residir num coração, aquela vida é sujeita a uma revolução, é transformada. E então é produzido aquilo que a simples natureza não pode produzir, sim, aquilo que é directamente contrário a essa natureza. Mas isso faz-se notavelmente ausente nas vidas de talvez noventa e cinco entre cada cem pessoas que actualmente professam ser filhos de Deus. Na vida dos cristãos professos comuns nada existe que não possa ser explicado com base em questões naturais. No caso de um genuíno filho de Deus a questão é totalmente diferente. Tal filho de Deus é, na verdade, um milagre da graça divina – ele é "... nova criatura..." (II Coríntios 5:17). Tanto a sua experiência como a sua vida são sobrenaturais.
A experiência sobrenatural do crente vê-se na sua atitude para com Deus. Possuindo intimamente a própria vida de Deus, ele torna-se participante da "natureza divina" (ver II Pedro 1:4), e necessariamente ama a Deus, ama aquilo que pertence a Deus, ama aquilo que Deus ama; e, por outro lado, abomina aquilo que Deus abomina.
Essa experiência sobrenatural é efectuada no crente pelo Espírito de Deus, e isso por intermédio da Palavra de Deus. De fato, o Espírito nunca opera à parte da Palavra. É por meio dessa Palavra que Ele revivifica. É por meio dessa Palavra que Ele produz convicção de pecado. É por meio dessa Palavra que Ele santifica. É por meio dessa Palavra que Ele confere segurança. E é por meio dessa Palavra que Ele faz o santo se desenvolver espiritualmente.
Desse modo, qualquer um de nós pode averiguar até que ponto está a tirar proveito da sua leitura e do seu estudo das Escrituras, mediante os efeitos que elas estão a produzir em nós, através da aplicação que delas faz o Espírito. Entremos em seguida nos pormenores. Aquele que aproveita das Escrituras verdadeira e espiritualmente:
1. Recebe um mais claro reconhecimento das reivindicações de Deus.
A grande controvérsia entre o Criador e a criatura tem girado em torno de se Ele ou ela deve ser Deus, se a sabedoria d'Ele ou a sabedoria dela deve ser o princípio orientador das suas ações, se a vontade divina ou a vontade da criatura deve ser suprema. O que produziu a queda de Lúcifer foi o seu ressentimento por estar em sujeição ao Senhor: "Tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono. . . subirei acima das mais altas nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo" (Isaías 14:13,14). A mentira da serpente que encantou os nossos primeiros pais e os levou à destruição, foi a seguinte: "...como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal" (Gênesis 3:5). E desde essa ocasião, o sentimento do coração do homem natural tem sido: "Retira-te de nós! Não desejamos conhecer as teus caminhos. Que é o Todo-poderoso, para que nós o sirvamos? E que nos aproveitará que lhe façamos orações?" (Jó 21:14,15). "... pois dizem: Com a língua prevaleceremos, os lábios são nossos: quem é senhor sabre nós? " (Salmos 12:4). "Por que, pois, diz o Meu povo: Somos livres! Jamais tornaremos a ti?" (Jeremias 2:31).
O pecado alienou o homem para longe de Deus (Efésios 4:18). O coração humano tornou-se avesso a Deus, a sua vontade oposta à Sua vontade, a sua mente em inimizade contra Deus. Em contraste com isso, a salvação significa ser alguém restaurado a Deus: "Pois também Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus. . . " (1 Pedro 3:18). Legalmente falando, isso já foi feito; experimentalmente, porém, acha-se no processo de realização.
Ser salvo significa ter sido reconciliado com Deus; e isso envolve e inclui o facto de que o domínio do pecado sobre nós foi interrompido, que a inimizade foi descontinuada, e que o coração foi conquistado para Deus. Disso é que consiste a verdadeira conversão – do derrube de todo ídolo, da renúncia das vaidades ocas de um mundo enganador, em que tomamos a Deus como a nossa porção, o nosso dirigente, o nosso tudo em tudo. A respeito dos Coríntios lemos que "... deram-se a si mesmos primeiro ao Senhor" (II Coríntios 8:5). O desejo e a determinação daqueles que verdadeiramente se converteram é que "não viviam mais para si mesmos, mas para Aquele que por eles morreu e ressuscitou" (II Coríntios 5:15).
Então as reivindicações de Deus passam a ser reconhecidas, e admitimos o Seu legítimo domínio sobre nós mesmos, porque Ele é reconhecido como Deus. Os convertidos entregam-se a Deus como "ressurrectos dentre os mortos", e os seus membros são entregues como "instrumentos de justiça" (Romanos 6:13). Essa é a exigência que o Senhor nos impõe: ser o nosso Deus, ser servido por nós como tal; e que nós sejamos e façamos, de forma absoluta e sem reservas, tudo quanto Ele nos ordenar, rendendo-nos totalmente a Ele (Lucas 14:26,27,33). A Deus cabe, porque é Deus, legislar, prescrever e determinar tudo o que nos concerne; e a nós compete, como dever obrigatório, sermos dirigidos, governados e sermos livremente usados por Ele, segundo o Seu bom prazer.
Reconhecer que Deus é o nosso Deus equivale a dar-Lhe o trono dos nossos corações. É a mesma coisa dita na linguagem de Isaías 26:13: "Ó Senhor Deus nosso, outros senhores têm tido domínio sobre nós; mas graças a Ti somente é que louvamos o Teu nome". Também é declarar, juntamente com o salmista, sem hipocrisia, mas com sinceridade: "Ó Deus, tu és o meu Deus forte, eu te busco ansiosamente" (Salmos 63 :1). Ora, é na proporção em que isso se torna nossa experiência real que tiramos proveito das Escrituras. É nelas, e somente nelas, que as reivindicações de Deus são reveladas e postas em vigor; na medida exacta em que estivermos obtendo um ponto de vista mais claro e mais completo sobre os direitos de Deus, em que nos estivermos a submeter a eles é que estaremos a ser realmente abençoados.
2. Sente maior temor pela majestade de Deus.
"Tema ao SENHOR toda a terra, temam-no todos as habitantes do mundo" (Salmos 33:8). Deus está tão acima de nós que o simples pensamento da Sua majestade deveria fazer-nos estremecer. O Seu poder é tão grande que a percepção dele deveria aterrorizar-nos. E Ele é tão inefavelmente santo, e Seu ódio ao pecado é tão infinito, que o próprio pensamento de actos errados nos deveria encher de horror. "Deus é sobremodo tremendo na assembleia dos santos, e temível sobre todos o que o rodeiam" (Salmos 89:7).
"O temor do SENHOR é o princípio da sabedoria, e o conhecimento do Santo é prudência" (Provérbios 9:10). Ora, a "sabedoria" consiste do correcto uso do "conhecimento". Até ao ponto onde Deus é verdadeiramente conhecido, até esse ponto será devidamente temido. Acerca dos ímpios, porém, está escrito: "Não há temor de Deus diante de seus olhos" (Romanos 3 :18). Esses homens não têm qualquer percepção acerca da majestade de Deus, não têm nenhuma preocupação com a Sua autoridade, não têm qualquer respeito pelos Seus mandamentos, não se alarmam ante o facto de que Ele os julgará. No entanto, no tocante ao povo que entrou em pacto com Deus, o Senhor prometeu: "Porei o meu temor no seu coração, para que nunca se apartem de Mim" (Jeremias 32:40). Par essa razão é que os remidos tremem ante a Sua Palavra (Isaías 66:5), e andam cautelosamente diante dos Seus olhos.
"O temor do SENHOR consiste em aborrecer o mal" (Provérbios 8:13). E novamente: "... pelo temor do Senhor os homens evitam o mal" (Provérbios 16:6). O homem que vive no temor de Deus tem consciência de que "os olhos do SENHOR estão em todo lugar, contemplando os maus e os bons" (Provérbios 15:3). Por isso mesmo, vive conscienciosamente tanto em sua conduta particular como em sua conduta em público.
O homem que evita cometer determinados pecados, porque os olhos dos homens estão fixos sobre ele, mas que não hesita em cometê-los quando está sozinho, é destituído do temor de Deus. Por semelhante modo, o indivíduo que modera a sua linguagem quando há crentes ao seu redor, mas que não age assim noutras ocasiões, não tem temor a Deus. Não sente a consciência inspiradora de respeito de que Deus o vê e ouve em todos os momentos.
A alma verdadeiramente regenerada teme desobedecer a Deus e desafiá-Lo. E nem mesmo deseja fazer tal. Não, porquanto o seu real e mais profundo anelo consiste em agradar ao Senhor em todas as coisas, em todas as oportunidades e em todos os lugares. A sua oração intensa é: "Dispõe-me o coração para só temer o Teu nome" (Salmos 86:11).
Ora, até mesmo aos santos é mister ensinar o temor de Deus, segundo se vê no Salmo 34:11. E nesse aspecto, como em tudo o mais, é através das Escrituras que esse ensinamento nos é conferido (Provérbios 2 :5).
É por meio das Escrituras que aprendemos que os olhos do Senhor estão continuamente fixos sobre nós, assinalando as nossas acções e pesando os nossos motivos. Na medida em que o Espírito Santo vai aplicando as Escrituras ao nosso coração, assim também vamos obedecendo crescentemente àquele mandamento que diz: ''... no temor do SENHOR perseverarás todo dia" (Provérbios 23:17). Por conseguinte, na medida exacta em que formos tomados pelo senso de respeito da tremenda majestade divina, nessa medida também teremos consciência de que "Tu és Deus que vês" (Gênesis 16:13), pondo em acção a nossa salvação com "temor e tremor" (Filipenses 2:12), e assim tiramos real proveito dos nossos estudos bíblicos e da leitura das Escrituras.
3. Tem mais profunda reverência pelos mandamentos de Deus.
O pecado entrou no mundo através da desobediência de Adão contra a lei de Deus, e todos os seus filhos decaídos são gerados com similar depravação (Génesis 5:3). "O pecado é a transgressão da lei" (I João 3:4). O pecado é uma forma de alta traição, de anarquia espiritual. É o repúdio ao domínio exercido por Deus, em que a Sua autoridade é repelida, em que o indivíduo se rebela contra a Sua vontade. O pecado consiste em seguirmos pelo nosso próprio caminho. Ora, a salvação consiste em sermos libertados do pecado, da sua culpa, do seu poder e até mesmo da sua penalidade. O mesmo Espírito que nos convence sobre a necessidade da graça de Deus também nos convence da necessidade que temos de ser dirigidos pelo governo de Deus. A promessa de Deus ao povo que com Ele entrou em pacto, é: "Nas suas mentes imprimirei as Minhas leis, também sobre os seus corações as inscreverei; e Eu serei o seu Deus, e eles serão o Meu povo" (Hebreus 8:10).
O espírito de obediência é proporcionado a toda a alma regenerada. Cristo Jesus disse: "Se alguém Me ama, guardará a Minha palavra" (João 14:23). Portanto, esse é o grande teste: "Ora, sabemos que O temos conhecido por isto: se guardamos os Seus mandamentos" (I Joio 2:3). Nenhum de nós observa os mandamentos de Deus com perfeição; mas todo o verdadeiro crente tanto deseja fazê-lo como se esforça nesse sentido. O crente verdadeiro diz juntamente com Paulo: "Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus" (Romanos 7:22). E também declara, juntamente com o salmista: "Escolhi o caminho da fidelidade; decidi-me pelos teus juízos. Os teus testemunhos recebi-os por legado perpétuo" (Salmo 119:30, 111).
E todo e qualquer ensinamento que avilta a autoridade de Deus, que ignora os seus mandamentos, que afirma que o crente, em nenhum sentido, está sob a lei, vem da parte do diabo, sem importar quão suaves sejam as palavras do seu instrumento humano. Cristo redimiu o Seu povo da maldição da lei, e não dos mandamentos que ela contém; Cristo salvou-os da ira de Deus, mas não para ficarem fora do Seu governo. Nunca foram e nunca serão revogadas as palavras que dizem: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração" (Mateus 22:37).
A passagem de I Coríntios 9:21 afirma expressamente que estamos ''debaixo da lei de Cristo." E o trecho de I João 2:6 estipula: "Aquele que diz que permanece nele, esse deve também andar assim como Ele andou". Ora, como foi que Cristo "andou"? Na perfeita obediência a Deus Pai; em total sujeição às Suas leis, honrando-as e obedecendo-lhes em Seus pensamentos, em Suas palavras e em Seus actos. Cristo não veio para destruir a lei, e, sim, para cumpri-la (ver Mateus 5:17). E o nosso amor por Ele é expresso, não em emoções agradáveis ou em palavras bonitas, e, sim, na observância dos seus mandamentos (João 14:15). E os mandamentos de Cristo são os mandamentos de Deus (conferir Êxodo 20:6).
A oração intensa do crente autêntico é: "Guia-me pela vereda dos Teus mandamentos, pois nela me comprazo" (Salmos 119:35). Até ao ponto em que a nossa leitura e os nossos estudos da Bíblia, mediante a aplicação do Espírito Santo, vai gerando em nós um maior amor e um mais profundo respeito, além da observância mais exacta dos mandamentos de Deus, nessa proporção vamos sendo realmente beneficiados.
4. Uma confiança mais firme na suficiência de Deus.
Aquilo ou aquele em quem um homem mais confia, esse é o seu "deus". Algumas pessoas confiam na saúde, e outros nas riquezas; alguns confiam em si mesmos, e outros confiam em seus amigos. E a atitude que caracteriza a todos os indivíduos sem regeneração é que dependem do braço da carne. Porém, a eleição da graça desvia os seus corações de todos os apoios dados pela criatura, para que se estribe no Deus vivo. O povo de Deus são os filhos da fé. A linguagem emitida pelos seus corações é: "Deus meu, em ti confio, não seja eu envergonhado" (Salmos 25:2). E uma vez mais: "Eis que me matará, já não tenho esperança; contudo defenderei o meu procedimento" (Jó 13:15). Esses dependem de Deus, para que lhes proveja o necessário, para que os proteja e abençoe. Olham continuamente para um recurso invisível, ficam na dependência do Deus invisível, apoiam-se num Braço oculto.
É verdade que há ocasiões em que a fé dos verdadeiros crentes hesita; mas, embora tropecem, não ficam inteiramente prostrados. Embora isso não reflicta a experiência uniforme deles, contudo o Salmo 56:11 expressa o estado geral das suas almas: "... neste Deus ponho a minha confiança e nada temerei. Que me pode fazer o homem? " (Lucas 17.5). E a oração anelante deles é: "Senhor, aumenta a nossa fé!" Conforme diz a passagem de Romanos 10:17: "E assim, a fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Cristo". E dessa maneira, enquanto meditamos nas Escrituras, acolhendo na nossa mente as suas promessas, a nossa fé é fortalecida, a nossa confiança em Deus aumenta, e a nossa segurança aprofunda-se. Desse modo podemos descobrir que estamos a tirar proveito ou não do nosso estudo da Bíblia.
5. Deleita-se mais plenamente nas perfeições de Deus.
Aquilo em que um homem mais se deleita é o seu "deus". O pobre indivíduo mundano procura satisfação nas suas actividades, prazeres e possessões materiais. Ignorando a "substância", ele persegue inutilmente as sombras. O crente, entretanto, deleita-se nas admiráveis perfeições de Deus. Realmente, reconhecermos Deus como o nosso Deus consiste não somente em nos submetermos ao Seu ceptro, mas em amá-Lo mais do que ao mundo, e valorizá-Lo acima de tudo e de todos. Consiste também em termos, paralelamente ao salmista, a percepção experimental de que ". . .Todas as minhas fontes estão em Ti" (Salmos 87:7). Os remidos não apenas receberam alegria da parte de Deus, tal alegria que este nosso pobre mundo jamais nos poderia outorgar, mas também se gloriam e regozijam em Deus (ver Romanos 5:11); e acerca disso o indivíduo mundano nada sabe. A linguagem dos remidos é aquela que afirma: "A minha porção é o SENHOR. . ." (Lamentações 3:24).
Os exercícios espirituais são enfadonhos para a carne. Mas o crente autêntico diz: "Quanto a mim, bom é estar junto a Deus..." (Sal. 73:28). O homem carnal é arrastado por muitas paixões e ambições; porém, a alma regenerada assevera: "Uma coisa peço ao SENHOR, e a buscarei: que eu possa morar na casa do SENHOR todos os dias da minha vida, para contemplar a beleza do SENHOR, e meditar no seu templo" (Salmos 27:4). E, porquê? Porque o verdadeiro sentimento do seu coração diz: "Quem mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eu me compraza na terra" (Salmos 73:25). Ah, prezado leitor, se o seu coração não tem sido impelido a amar a Deus e a deleitar-se nEle, então ainda está morto para com Ele.
A linguagem dos santos é a que diz: "Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas tenham sido arrebatadas do aprisco e nos currais não haja gado, todavia eu me alegrarei no SENHOR, exultarei no Deus da minha salvação" (Hab. 3:17,18). Ah! essa é verdadeiramente uma experiência sobrenatural! Sim, o crente pode regozijar-se quando todas as suas possessões materiais lhe são tiradas (ver Hebreus 10:34). Quando jaz numa masmorra, com as costas a sangrar, ainda assim pode entoar louvores a Deus (Atos 16:25). Portanto, na proporção em que o leitor estiver sendo desmamado dos prazeres ocos deste mundo, também estará a aprender que não há bênção fora de Deus, estará a descobrir que Ele é a fonte e a súmula de toda a excelência, e o seu coração estará a ser atraído para o Senhor, a sua mente estará a apegar-se a Ele, a sua alma estará a encontrar n'Ele a sua alegria e satisfação, e o leitor estará realmente a receber benefício das Escrituras.
6. Maior submissão aos actos providenciais de Deus.
É natural murmurarmos quando as coisas não nos correm bem, mas é sobrenatural conservar a tranquilidade nessas ocasiões (Levítico 10:3). É natural sentirmo-nos desiludidos quando os nossos planos abortam, mas é sobrenatural inclinarmo-nos ante as determinações divinas. É natural querermos as coisas a nosso jeito, mas é sobrenatural poder dizer: "Não seja feita a minha vontade, mas a tua" (Lucas 21.42). É natural rebelarmo-nos quando algum ente querido nos é arrebatado pela morte; mas é sobrenatural poder dizer de todo o coração: ". . .o SENHOR o deu, e o SENHOR o tomou: bendito seja o nome do SENHOR!" (Jó 1:21). Quando Deus Se tem tornado verdadeiramente a nossa porção, então aprendemos a admirar a Sua sabedoria, e é então também que reconhecemos que Ele faz bem feitas todas as coisas.
Dessa maneira, por igual modo, o coração é conservado "...em perfeita paz...", quando a mente se fixa no Senhor (Isaías 26:3). Neste particular, pois, encontramos um outro teste seguro: se a Bíblia que o leitor estuda está a ensinar-lhe que o caminho de Deus é o melhor, se isso o está a levar a submeter-se sem queixumes a todas as Suas dispensações, se se sente capaz de dar graças a Deus por todas as coisas (Efésios 5:20), então realmente está a receber benefício das Escrituras.
7. Mais fervorosos louvores devido à bondade de Deus.
O louvor é o extravasamento de um coração que encontra satisfação em Deus. A linguagem de tal pessoa é: "Bendirei ao Senhor em todo o tempo, o Seu louvor estará sempre nos meus lábios" (Salmos 34:1). Quão abundantes são os motivos que tem o povo de Deus para louvá-Lo! Amados com um amor eterno, feitos filhos e herdeiros, todas as coisas cooperam para o bem deles, cada uma das suas necessidades é suprida, uma eternidade de bem-aventurança é-lhes assegurada – as suas harpas de alegria jamais deveriam ficar silenciosas. De facto, não se silenciarão enquanto desfrutarem de companheirismo com o Senhor, o qual é "...totalmente desejável..." (Cantares 5:16).
Quanto mais crescemos no "conhecimento de Deus" (Col. 1:10), mais haveremos de adorá-Lo. Porém, é somente na medida em que a Palavra habitar ricamente em nós que seremos invadidos de cânticos espirituais (Col. 3:16), pois então poderemos entoar melodias ao Senhor, nos nossos corações. Quanto mais as nossas almas são impulsionadas para uma verdadeira adoração, tanto mais nos sentimos impelidos a agradecer e a louvar ao nosso grande Deus, o que é evidência claríssima de que os nossos estudos na Palavra de Deus nos estão a beneficiar.



