A Ceia do Senhor (Parte 3)
6) Não é transitória.
Tem sido dito que algumas das coisas praticadas por Paulo e pela Igreja no início do seu ministério inicial foram de carácter transitório e que a Ceia do Senhor poderá estar nessa categoria. É verdade que coisas como o batismo na água, os dons de línguas, curas, manifestações miraculosas, etc. foram praticados durante o período de tempo que abrange o livro de Atos. Elas serviram como um testemunho para os judeus que viviam fora da terra de Israel. No entanto, em cada caso Deus deixa claro que elas não eram práticas permanentes para a Igreja, Corpo de Cristo. Os sinais cessariam quando a Palavra de Deus fosse completada (I Coríntios 13:8-13; Colossenses 1:25), os poderes de cura física por parte de Paulo começaram a diminuir, tendo sido incapaz de se curar a si mesmo (II Coríntios 12:7-10; 4:16; Romanos 8:23), e não foi enviado para batizar, mas para pregar o Evangelho (I Coríntios 1:17).
No entanto, quanto à Ceia do Senhor temos algo completamente diferente. Longe de sugerir que possa ser temporária, as Escrituras ensinam a sua unidade com o Novo Testamento, o qual é permanente. Paulo chamou a si mesmo um ministro capaz do Novo Testamento (II Coríntios 3:6)1. Então, ele contrasta o Velho Testamento dado por Moisés, que estava sendo posto de parte e abolido, com o Novo Testamento que permanece (II Coríntios 3:6-18; note-se no versículo 11: “o que permanece”).
O Velho Testamento é chamado de ministério da morte e condenação. O Novo Testamento está associado com o Espírito e administra vida, liberdade e justiça. Estas são realidades espirituais que são as caraterísticas do tempo de graça em que vivemos. Ainda que o Velho Testamento tenha sido glorioso, o Novo Testamento é descrito como muito mais glorioso (II Coríntios 3:9-11). O Novo Testamento revela Deus de uma forma que o Velho nunca poderia. Esta é a glória que permanece.
Alguns que estudam a Bíblia dispensacionalmente ficam intrigados quando falamos do Novo Testamento porque o Novo Testamento foi prometido a Israel e não há qualquer menção na profecia sobre a Igreja ou os gentios estarem relacionados com ele (Jeremias 31:31-34, Hebreus 8:7-13). Eles dizem que profecia é profecia e mistério é mistério. Quererão eles dizer que não há nenhum ponto de contacto entre o programa profético de Deus para com Israel e o programa do mistério que diz respeito à Igreja Corpo de Cristo? Não é o Senhor Jesus Cristo o centro de ambos os programas? E não é o Seu sangue derramado a base de toda a bênção espiritual?
O facto é que o sangue do Novo Testamento, que foi derramado pelos pecados de Israel é o mesmo sangue que hoje nos beneficia, gentios debaixo da graça. A cruz de Cristo é sempre o ponto de encontro para os santos de todas as eras. Assim, não deverá parecer estranho que Paulo, o apóstolo dos gentios, se refira a si mesmo como um ministro do Novo Testamento ou que a observância por parte dos gentios da Ceia do Senhor seja associada a ele (o Novo Testamento). Tudo o que provém do Novo Testamento é de caráter espiritual, sendo o principal, o perdão dos pecados. Isto está de acordo com o ministério prisional de Paulo que enfatiza o perdão de Deus por meio da fé no sangue derramado de Cristo (Efésios 1:6-7; 2:8,9,13,16; Colossenses 1:14,20, 2:13). Lembremos que estas coisas, que foram prometidas a Israel, recebemos como uma surpresa da graça.
7) Não é incompatível com as coisas espirituais.
Alguns têm dito que os emblemas físicos do pão e do vinho são estranhos para aqueles que foram ressuscitados e sentados com Cristo nos lugares celestiais. Mas serão as coisas físicas realmente incompatíveis com as coisas espirituais? Não são as nossas Bíblias e os nossos materiais de estudo bíblico também físicos? O nosso Senhor e os Seus apóstolos não nos encorajam a dar dos nossos bens físicos para o progresso do Evangelho? Não eram físicos o corpo de Cristo que foi dado por nós e o sangue que pagou a dívida do pecado? Mas poderá alguém perguntar: “Não posso lembrar-me do Senhor sem os emblemas da Ceia do Senhor?” A resposta é sim, pode! Mas por que não fazer como o nosso Senhor pediu? Devemos recordar o sacrifício do Senhor cada vez que vamos até Ele em oração. Também nos devemos lembrar d'Ele juntos, como uma família, na Ceia do Senhor. Como Jesus disse noutro contexto, “deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas” (Mateus 23:23).
A viúva que sente a falta do marido mantém as memórias vivas em sua mente, mas quem lhe diria para deitar fora as fotografias antigas porque elas não são espirituais? O nosso Senhor Jesus Cristo, que nos conhece melhor do que nós mesmos, previu que os Seus filhos precisavam de uma imagem especial para se lembrarem d'Ele. Ele sabe que somos propensos a esquecer e assim buscamos agradar a Deus desta forma, através da Ceia do Senhor.
E quanto às ideias não bíblicas, más interpretações e divisões que surgiram em torno da Ceia? Quanto a mim, isso é um argumento para um melhor estudo da Bíblia sobre o assunto e não para o seu abandono. O critério para qualquer crença ou prática é o seu fundamento bíblico e dispensacional, e não o facto de alguns a compreenderem mal ou abusarem dela.
As Escrituras tanto são contra a forma fria e legalista com que alguns dos irmãos celebram a Ceia do Senhor como eram contra os sacrifícios que Israel trazia para o altar com corações impuros. Formas e rituais vazios não agradam a Deus, e, muitas vezes, a Ceia do Senhor tem degenerado nisso. É celebrada mais como uma ordenança solene do que como uma celebração feliz, que é o que é suposto ser. Muitos ficam frios e indiferentes porque o seu verdadeiro significado não é valorizado. A minha oração é que este artigo humilde possa ajudar a reparar isso.
Havendo examinado o que a Ceia do Senhor não é, vamos ver o que ela é, assim como o seu significado espiritual.
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1 As palavras “testamento” e “aliança” são sinónimas e traduzidas a partir da mesma palavra grega “diatheke”.
Ken Lawson,
The Berean Searchlight
Fevereiro de 2011, páginas 11-16
(Tradução de Daniel Ferreira)
Continua
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