A Ceia do Senhor (Parte 1)
Quando era menino, os meus pais obrigavam-me a ir à igreja. Na verdade, na altura eu não gostava, mas havia pelo menos uma vez no ano em que gostava. A igreja realizava o que chamavam de “culto de comunhão”. Eu não entendia do que se tratava, mas certamente eu e o meu irmão gostávamos de beber aqueles pequenos copos de sumo de uva e comer os biscoitos.
Desde que me tornei um crente em Jesus Cristo, tenho tentado estudar este assunto a partir de todos os ângulos possíveis à luz da Palavra de Deus. Pela graça de Deus, eu creio que agora entendo do que se trata e desejo partilhar o conhecimento com os outros.
Quantos de nós que celebram a Ceia do Senhor podem explicar porque o fazem e qual o seu significado espiritual? Percebi que muitos crentes têm sérios equívocos ou pelo menos uma conceção nublada do significado da Ceia do Senhor. Devido a essa falha no pensamento de muitos, vamos começar com alguns factos sobre a Ceia. Depois abordaremos algumas objeções levantadas por alguns crentes que acreditam que não devemos celebrá-la hoje. Por fim, vamos ver argumentos a favor da sua celebração, bem como passagens bíblicas que reforçarão as consciências daqueles que se sentem indignos de comer daquele pão e beber daquele cálice. As passagens bíblicas que incidem sobre o assunto são: Mateus 26:26-29, Marcos 14:22-25, Lucas 22:14-20, I Coríntios 10:16-17, 11:17-34. É de notar que Paulo, o apóstolo dos gentios, dá mais informações sobre o assunto em I Coríntios que todas as outras passagens juntas.
A Ceia do Senhor é conhecida por vários nomes diferentes, mas relacionados:
1. Eucaristia – I Coríntios 11:24 (onde a expressão “dado graças” é traduzida da palavra grega “eucharisteo”).
2. Comunhão - I Coríntios 10:16
3. Mesa do Senhor - I Coríntios 10:21
4. Partir do pão - Atos 2:42,46; 20:711
5. Ceia do Senhor - I Coríntios 11:20
Antes de olharmos para o significado espiritual da Ceia do Senhor, pode ser benéfico examinar o que ela não é.
1) Não é a Páscoa.
Ninguém vai negar que a primeira celebração da Ceia do Senhor estava relacionada com a Páscoa. Mas tanto Lucas como Paulo deixam claro que foi instituída depois de a refeição da Páscoa estar concluída (Lucas 22:20; I Coríntios 11:25)2. A Páscoa incluía o consumo de cordeiro assado, pães asmos e ervas amargosas (Êxodo 12 : 8). A Ceia do Senhor incluiu apenas pão e vinho.
Alguns têm sugerido que a lembrança da morte de Cristo foi adicionada pelo nosso Senhor no fim da refeição da Páscoa e, portanto, deve ser celebrada uma vez por ano. Se isso era verdade para os doze apóstolos, certamente não era verdade na prática entre os gentios. Paulo, através das revelações que lhe foram dadas, acrescenta alguns detalhes sobre o significado espiritual que seriam para colocar em prática entre os gentios. A Páscoa era celebrada apenas uma vez por ano3. A Ceia do Senhor é celebrada as vezes que cada igreja entender.
Há outras diferenças. A Páscoa apontava para a libertação de Israel da escravidão do Egito. A Ceia do Senhor aponta para a Cruz e para a unidade intrínseca do Corpo de Cristo. Além disso, a Páscoa era uma ordenança do Antigo Testamento, enquanto a Ceia do Senhor é uma celebração do Novo Testamento.
2) Não é uma ordenança.
Esta é outra diferença entre a Ceia do Senhor e a Páscoa. Esta última é definitivamente chamada de ordenança (Êxodo 12:14,43), enquanto a primeira nunca o foi. Qualquer um que chame a Ceia do Senhor de ordenança deve ser capaz de indicar capítulo e versículo da Bíblia para provar isso. Não existe. É importante aqui ter cuidado com as tradições dos homens que anulam a Palavra de Deus. Quantas vezes já ouvimos dizer que há apenas duas ordenanças para a Igreja hoje: a Ceia do Senhor e o batismo na água? Na realidade, não há qualquer lugar na Escritura onde Ceia do Senhor e o batismo na água estejam ligados entre si como as ordenanças ou sacramentos para a Igreja, o Corpo de Cristo4. O baptismo na água era uma ordenança sob a lei de Moisés e ainda durante a pregação do evangelho do reino (Números 19:2,9; Hebreus 9:10; Marcos 1:4, Atos 2:38).
No caso da Ceia do Senhor, não há uma altura específica para a sua observância, e nenhuma punição ligada à falha em celebrá-la. Em vez disso, o Senhor solicita aos seus filhos que se lembrem dEle desta maneira e parte do princípio de que vão manter este memorial da Sua morte “até que [Ele] venha”.
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1 Esta designação é usada por alguns do movimento dos chamados Irmãos, mas as passagens citadas não parecem claras quanto a uma referência à Ceia do Senhor. Na verdade, o cálice não é mencionado e o mais certo é que se refira a refeições comunitárias entre crentes.
2 Devemos aqui distinguir entre a Última Ceia (a Páscoa) e aquilo que veio a ser conhecido como Ceia do Senhor (Comunhão ou Eucaristia).
3 Alguns tentam dizer que os crentes de Corinto estavam a observar a festa da Páscoa com base na exortação de Paulo em I Coríntios 5:7,8. Mas o contexto claramente diz que eles deviam celebrá-la (espiritualmente), limpando-se da maldade e da malícia, substituindo-as pela sinceridade e pela verdade.
4 A referência a “ordenanças” em I Coríntios 11: 2 nalgumas versões é uma tradução infeliz. A palavra é o “paradosis” que é sempre traduzido por “tradição” nas restantes ocorrências.
Ken Lawson,
The Berean Searchlight
Fevereiro de 2011, páginas 11-16
(Tradução de Daniel Ferreira)
Continua
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