Pode a alma morrer ou ser destruída por Deus no Inferno?

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QUESTÃO: Estava a ler o vosso artigo «Inferno, Sheol, Hades, Paraíso e Sepultura», de W. Edward Bedore. No final do artigo, ele mencionou a imortalidade da alma. Gostaria que me esclarecessem dois versículos que, na minha opinião, parecem sugerir que a alma pode morrer ou que Deus a pode destruir no Inferno.
Ezequiel 18:4 — «Eis que todas as almas são Minhas; como a alma do pai, também a alma do filho é Minha; a alma que pecar, essa morrerá.»
Mateus 10:28 — «E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, Aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo.»
RESPOSTA: Quero começar por agradecer-lhe as palavras de apreço pelo artigo do irmão Edward Bedore, que esclareceu este assunto para muitas pessoas. Quanto à sua pergunta, parece que pretende saber se Ezequiel 18:4 e Mateus 10:28 abrem a possibilidade ao Aniquilacionismo, segundo o qual a alma paga pelos pecados de uma pessoa até deixar de existir. De acordo com este ensino, a pessoa deixa de existir ou de viver de qualquer forma.
O irmão Edward Bedore, no seu livro The State and Place of the Dead (O Estado e o Lugar dos Mortos), depois de citar Mateus 10:28, escreveu:
«As palavras alma e espírito são por vezes utilizadas nas Escrituras de uma forma que parece equivalente, referindo-se ao homem interior. Isto acontece porque tanto a alma como o espírito são de natureza imaterial e estão intimamente ligados entre si. No entanto, existe uma diferença. Nas Escrituras, a alma e o espírito são claramente apresentados como duas partes distintas daquilo que constitui o homem no seu todo… Cremos que o homem é espírito, alma e corpo, e que a alma do homem sobrevive à morte do corpo como uma entidade espiritual num estado de consciência. Os salvos vão estar com o Senhor enquanto aguardam a sua ressurreição para a glória, e os não salvos vão para Sheol/Hades, onde aguardam a sua ressurreição para a condenação.» [Bedore, The State and Place of the Dead, páginas 101-102, 104-105.]
Problemas com o Aniquilacionismo
Existem muitos problemas evidentes nas Escrituras com o ensino de uma pessoa um dia deixar de existir. Por exemplo, Isaías 66:22-24 descreve o tempo ainda futuro em que os céus e a terra serão renovados. Descreve desta forma aqueles que rejeitaram o Senhor: «porque o seu verme nunca morrerá, nem o seu fogo se apagará» (v. 24). Embora não forneça tantos pormenores como os que encontramos no Novo Testamento, trata-se obviamente de uma morte que envolve tormento eterno. Daniel 12:1-2 fala de um tempo posterior à Grande Tribulação, quando terá lugar a ressurreição e será executado o juízo. Alguns irão para a «vida eterna», enquanto outros irão para «vergonha e desprezo eterno». O desprezo eterno é uma repulsa que durará para sempre.
Passando ao Novo Testamento, Mateus 18:8-9, ao advertir contra a tendência da carne para o pecado e o castigo que este acarreta, fala do «fogo eterno» (v. 8) e do «fogo do Inferno» (v. 9). Juntando estas duas expressões, podemos dizer que o fogo do Inferno é fogo eterno. Marcos 9:42-48 encontra-se no mesmo contexto; a consequência para os pecadores é serem «lançados no fogo do inferno, onde o seu bicho não morre, e o fogo nunca se apaga.» Um verme que não morre e um fogo que não se apaga indicam um tormento para sempre.
Outra passagem relevante em Mateus é aquela a que habitualmente se chama o «Juízo das Ovelhas e dos Bodes». A recompensa dos fiéis é: «Vinde, benditos de Meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo» (v. 34). Assim como esta recompensa não é temporária, também o castigo dos infiéis não é temporário. Aos infiéis é dito: «Apartai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos» (v. 41). Aqueles que rejeitam o caminho de Deus habitarão eternamente no mesmo lugar que foi originalmente criado para Satanás e os seus anjos caídos. Mateus 25:46 resume a questão: «E irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna.»
O nosso apóstolo Paulo refere-se àqueles que «por castigo, padecerão eterna perdição, ante a face do Senhor» (2 Tessalonicenses 1:9). Judas, que era um crente do programa do Reino, menciona a «pena do fogo eterno» (v. 7) e aqueles «para os quais está eternamente reservada a negrura das trevas» (v. 13).
Finalmente, o Apocalipse apresenta esta advertência: «E a fumaça do seu tormento sobe para todo o sempre; e não têm repouso, nem de dia nem de noite, os que adoram a besta e a sua imagem e aquele que receber o sinal do seu nome.» (14:11) Depois, mostra que esta advertência se cumpre no capítulo 20 de Apocalipse, afirmando que o «lago de fogo e enxofre» é o lugar onde aqueles que nele se encontram «serão atormentados de dia e de noite, para todo o sempre» (Apocalipse 20:10). Em Apocalipse 20:15, é-nos dito: «E aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo», o que significa que os não salvos passarão a eternidade no Lago de Fogo.
Todas estas passagens mencionadas falam claramente de uma existência interminável de tormento para aqueles que rejeitam a mensagem de Deus, quer tenham tido uma oportunidade no âmbito da Profecia, quer no âmbito do Mistério. O ensino de que as almas daqueles que vão para o Inferno um dia desaparecerão, deixando de existir, é completamente contrário às Escrituras.
Ezequiel 18:4 e Mateus 10:28
Quando compreendemos devidamente as palavras utilizadas e mantemos os versículos no seu contexto, percebemos que as duas passagens mencionadas na pergunta não contradizem estas claras afirmações das Escrituras.
Como experimentamos a morte como o fim da vida física, tendemos a pensar na morte como uma cessação. A Bíblia não limita a palavra «morte» a este significado. Seria melhor pensar na morte como uma separação. Na morte física que experimentamos, a nossa alma e o nosso espírito separam-se da nossa carne. Mas existe uma morte ainda mais grave. No caso de Adão e Eva, eles morreram no momento em que Adão comeu do fruto proibido, pois ficaram espiritualmente separados de Deus. Quando Apocalipse 20:14 utiliza a expressão «segunda morte», não está a dizer que alguém morreu fisicamente duas vezes; está a afirmar que esta «segunda morte» é a separação final e eterna de Deus para aqueles que O rejeitaram.
Assim, ao concentrarmo-nos em Ezequiel 18:4, compreendemos que a palavra «morte» neste versículo não significa deixar de existir. O Senhor está a corrigir um entendimento errado que estava a ser ensinado em Israel: «Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos se embotaram». Isto significa que o povo tinha concluído que os filhos eram diretamente responsabilizados pelos pecados cometidos pelos seus pais. É certamente verdade que os filhos podem ser afetados pelas consequências do pecado dos seus pais, como aconteceu com Israel, mas o Senhor queria esclarecer que cada indivíduo é responsável pelas suas próprias transgressões. É por isso que Ezequiel 18:4 existe: para afirmar que a alma ficará eternamente separada d'Ele (Ezequiel 18:9). Ezequiel 18:4 não está a falar de alguém deixar de existir. Apresenta duas possibilidades quanto ao destino da pessoa: existir eternamente separado de Deus (morte) ou viver para sempre com Ele no Reino.
As palavras «matar» e «perecer, ou destruir», utilizadas em Mateus 10:28, podem inicialmente causar-nos alguma preocupação. Na realidade, estas palavras estão de certa forma relacionadas: «matar» pode significar destruir, enquanto «destruir» vai ainda mais longe, significando destruir completamente; perecer. No entanto, destruir não significa deixar de existir. Recentemente, o nosso congelador vertical avariou-se por completo, mas não deixou de existir. Para ilustrar o versículo, neste momento está «morto». No dia em que o retirar da minha garagem e o deixar no depósito de lixo, estará «completamente destruído», mas continuará a não deixar de existir. Embora todas as ilustrações tenham as suas limitações quando as analisamos em pormenor, o Senhor Jesus utiliza a morte do corpo para ilustrar aquilo que realmente importa. Não deviam temer a morte do corpo, porque o Senhor cuidaria daqueles santos do Reino que Lhe fossem fiéis, confessando-os diante de Seu Pai no Céu (Mateus 10:32). Eles deviam preocupar-se com a vida eterna, em vez de procurarem viver mais tempo na sua estrutura física, pois a consequência de O negarem (Mateus 10:33) seria a morte da alma, que seria completamente destruída quando fosse lançada no Inferno, passando a existir numa separação eterna d'Ele. Interpretar neste versículo a aniquilação da alma é perder de vista o contexto e o cerne do ensinamento do Senhor Jesus: perseverar perante a ameaça de morte física resultante do serviço prestado a Ele, recebendo assim uma recompensa eterna, ou afastar-se d'Ele e ficar separado d'Ele na segunda morte.
Fé Somente em Cristo
Não nos deve surpreender sermos perturbados com a ideia de alguém passar a eternidade num lugar de tormento. Deus não deseja esse resultado para as pessoas (1 Timóteo 2:4), «não querendo que alguns se percam [ou, pereçam, ou sejam destruídos]» (2 Pedro 3:9). (Nota adicional: todas as traduções são possíveis, como em Mateus 10:28.) Deus preocupou-Se connosco e amou-nos tanto que fez tudo, sem nos obrigar a crer, para providenciar plenamente o caminho que nos permite estar ligados a Ele por toda a eternidade (Romanos 5:8). Enviou o Seu Filho, Jesus Cristo, para morrer pelos nossos pecados, satisfazendo a ira de Deus e permitindo-Lhe ser justo ao declarar-nos justos (Romanos 3:24-26). É somente pela fé, e apenas pela fé, na obra do Senhor Jesus Cristo — na Sua morte, sepultamento e ressurreição — que passamos da morte eterna/separação/tormento para a vida eterna/comunhão/bem-aventurança. Aquele que passar a eternidade no castigo eterno só terá de se culpar a si mesmo.
Por favor, se nunca depositou a sua confiança somente em Cristo para a salvação, faça-o hoje.
- Matt Ritchey



