O homicídio involuntário, o homicídio voluntário e o mistério - abundante graça (2)
O FIZESTES POR IGNORÂNCIA
Neste contexto negro encontramos Pedro a declarar a um grupo de ouvintes judeus:
“E agora, irmãos, eu sei que o fizestes por ignorância, como também os vossos príncipes” (Atos 3:17).
E com isto ele oferece-lhes efetivamente o retorno de Cristo e “os tempos do refrigério”, se eles se arrependessem (Ver Vers. 18-21).
O quê?! Ele agora desculpa os homicidas voluntários do Senhor? Ele declara-os inocentes? Não, mas ele oferece-lhes arrependimento e perdão com base na ignorância.
Nós não nos devemos esquecer que o próprio nosso Senhor tinha orado da cruz:
“… Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem …” (Luc. 23:34).
É indubitavelmente verdade que eles foram culpados de homicídio de primeiro grau. Eles tinham deliberadamente assassinado uma pessoa inocente. Porém eles ainda não tinham compreendido Quem era que eles estavam a crucificar. É verdade que eles podiam e deviam ter sabido, mas o facto permanece que eles não sabiam. O próprio nosso Senhor tinha dito aos principais:
“… Quando levantardes o Filho do homem, então conhecereis quem Eu sou …” (João 8:28).
O Apóstolo Paulo adiciona a isto a declaração de que “se … conhecessem, nunca crucificariam ao Senhor da glória” (1 Cor. 2:8).
Assim, em resposta à oração do nosso Senhor na cruz, a acusação foi alterada de homicídio voluntário para homicídio involuntário com base no facto de apesar de eles saberem que estavam a assassinar uma pessoa inocente, não sabiam Quem estavam a assassinar, pois se o tivessem sabido, poderiam [em teoria] ter tomado uma resolução diferente. Isto foi tecnicamente usado, em graça, a seu favor.
CRISTO – REFÚGIO DE ISRAEL
Prendendo os apóstolos do nosso Senhor, pouco depois de Pentecostes, o sumo-sacerdote acusou:
“… eis que enchestes Jerusalém dessa vossa doutrina, e quereis lançar sobre nós o sangue desse homem” (Atos 5:28).
Os apóstolos podiam muito bem fazer lembrar a resposta do sumo-sacerdote ao apelo de Pilatos, mas em vez disso eles disseram de Cristo:
“Deus com a Sua destra O elevou a Príncipe e Salvador, para dar a Israel o arrependimento e remissão dos pecados” (Ver. 31).
O Cristo crucificado, ressuscitado, exaltado, tinha-Se tornado Cidade de Refúgio de Israel. Precisamente Aquele que eles tinham assassinado erguia-Se agora disposto a recebê-los e protegê-los. Ele próprio tinha apelado para que a acusação fosse alterada de homicídio voluntário para homicídio involuntário!
As antigas cidades de refúgio foram colocadas de modo a serem acessíveis a todo o Israel. Foram construídas estradas em Canaã para que elas estivessem ao alcance de todos. Ao longo dessas estradas, dizem-nos historiadores antigos, havia placas de sinalização que diziam: “Escapa!”
No entanto aquelas cidades não eram mais acessíveis para a nação culpada do que era Cristo, o seu Príncipe e Salvador, agora exaltado “para dar a Israel o arrependimento e remissão dos pecados”.
E, escapando eles para Ele a fim de obter refúgio, por quanto tempo estariam em segurança? Para sempre!
O homicida involuntário poderia permanecer seguro na cidade de refúgio “até à morte do sumo-sacerdote” (Núm. 35:25). Isto era justamente típico de Cristo, que é representado tanto pela cidade como pelo sumo-sacerdote. Quando morrerá este grande Sumo-sacerdote? Deixemos que Heb. 7:23-25 responda:
“E, na verdade, aqueles foram feitos sacerdotes em grande número, porque pela morte foram impedidos de permanecer,
“Mas Este, porque permanece eternamente, tem um sacerdócio perpétuo.
“Portanto, pode também salvar perfeitamente os que por Ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles”.
Portanto o povo de Israel podia ter encontrado – e alguns encontraram – refúgio eterno n’Aquele que eles tinham assassinado.
É por isso que na Sua grande comissão aos onze, o nosso Senhor deu a amorosa instrução para começarem por Jerusalém ( Luc. 24:47; Atos 1:8).
Contrariamente à tradição antibíblica que inicia a presente dispensação e o Corpo de Cristo com essa “grande comissão”, o nosso Senhor mostrou claramente aqui que Ele ainda não estava disposto a pôr de parte Israel.
Como Cidade de Refúgio divina de Israel Ele estava novamente a oferecer a salvação ao Seu povo, e a dizer: “… o que vem a Mim de maneira nenhuma o lançarei fora” (João 637).
O MISTÉRIO
Mas Cristo não é também a nossa “Cidade de refúgio”? Sim, mas mais – muito mais.
É verdade que nós também assassinámos um homem “inconscientemente”, pois os nossos pecados ajudaram a crucificá-Lo no madeiro do Calvário. Nós devemos confessar juntamente com Paulo que éramos inimigos de Cristo, apesar de, como ele, também podermos dizer: “… o fiz ignorantemente, na incredulidade” (1 Tim. 1:13).
Mas prossigamos com as palavras de Paulo aqui:
“E a graça de nosso Senhor superabundou com a fé e amor que há em Jesus Cristo.
“Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores; dos quais eu sou o principal.
“Mas por isso alcancei misericórdia, para que em mim, que sou o principal, Jesus Cristo mostrasse toda a Sua longanimidade, para exemplo dos que haviam de crer n’Ele para a vida eterna” (1 Tim. 1:14-16).
Notemos que aqui não é sequer uma questão de se a acusação deve ser de homicídio voluntário ou de homicídio involuntário.
Uma outra acusação é feita. O “[vós]o fizestes” da primeira parte dos Atos é alterado para “Ele o fez” das epístola de Paulo. Este “Ele o fez”, proclamado como mensagem, é parte do grande mistério e dispensação da graça.
Paulo nunca trata com o grau de culpabilidade do homem na oferta da salvação. Pelo contrário, ele proclama a graça de Deus na “pregação da cruz”.
“… Deus prova o Seu amor para connosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rom. 5:8).
“Para louvor e glória da sua graça, pela qual nos fez agradáveis a Si no Amado.
“Em Quem temos a redenção pelo Seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da Sua graça.
“Que Ele fez abundar para connosco …” (Efé. 1:6-8). “Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho.
“Mas, se o viver na carne me der fruto da minha obra, não sei então o que deva escolher” (Col. 1:21,22).
QUEM O FEZ
Israel fê-lo. Nós fizemo-lo. Ainda assim, apesar disso, Deus nem sequer nos acusa desse nosso horrendo crime. “Eu fi-lo”, diz o Pai. “Eu fi-lo”, diz o Filho.
“Àquele que não conheceu pecado, O fez pecado por nós; para que n’Ele fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Cor. 5:21).
“[Cristo] … havendo feito por Si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-Se à destra da Majestade nas alturas” (Heb. 1:3).
E Pedro, tendo aprendido desta revelação adicional do “nosso amado irmão Paulo”, acrescentou mais tarde o seu testemunho:
“Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus …” (1 Ped. 3:18).
— Cornelius R. Stam
(FIM)
O homicídio involuntário, o homicídio voluntário e o mistério - abundante graça (1)



