O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXIV) - As Beatitudes 12
Que os Apóstolos se regozijaram nos seus sofrimentos por Cristo é verificado no registo dos Atos.
Nos últimos versículos de Atos 5 lemos como os líderes religiosos baixaram ao nível dos comuns valentões, quando não encontrando qualquer razão justa para condenar os apóstolos, os espancaram e ordenaram depois que não falassem em nome de Jesus antes de os soltar.
Mas, os chicotes não trouxeram apenas sofrimento e dor, pois não iriam os apóstolos aguentar aquilo pelo bendito Messias, com quem esperavam estar a reinar em breve? Assim, o registo continua:
“Retiraram-se pois da presença do conselho, regozijando-se de terem sido julgados dignos de padecer afronta pelo nome de Jesus.
“E todos os dias, no templo e nas casas, não cessavam de ensinar, e de anunciar a Jesus Cristo (Atos 5:41,42).
Não admira que o registo continue:
“Ora naqueles dias, crescendo o número dos discípulos … E crescia a Palavra de Deus, e em Jerusalém se multiplicava muito o número dos discípulos (Atos 6:1-7).
Mas quando chegamos às epístolas de Paulo, o sofrimento do crente assume completamente uma nova dimensão. É chamado de ''a comunhão dos Seus sofrimentos". De facto, em Filipenses 3:10 Paulo expressa o seu desejo:
"Para conhecê-Lo, e à virtude da Sua ressurreição, e à comunicação [ou, comunhão] de Suas aflições [ou, Seus sofrimentos], sendo feito conforme à Sua morte".
Talvez esta frase, "a comunhão dos seus sofrimentos", possa ser melhor explicada comparando-a com outra passagem, na qual o Apóstolo declara:
"Regozijo-me agora no que padeço por vós, e na minha carne cumpro o resto das aflições de Cristo, pelo Seu corpo, que é a igreja;" (Col. 1:24).
O que é que o Apóstolo quer dizer aqui por "cumpro o resto1 das aflições de Cristo"? Os sofrimentos de nosso Senhor não cessaram? Será que Ele não pagou o preço total pelos nossos pecados no Calvário?
A resposta encontra-se no "mistério", que era o tema da mensagem de Paulo. De acordo com as Escrituras proféticas o nosso Senhor ascenderia para tomar o Seu lugar à mão direita do Pai até que os Seus inimigos fossem feitos escabelo de Seus pés (Sl 110:1). À rejeição de Cristo por parte de Israel no dia de Pentecostes seguir-se-ia o julgamento de Deus na Grande Tribulação, e não havia nada na profecia que indicasse que este não se seguisse imediatamente àquela (Joel 2:28-32; Cf Atos 2:16 - 21).
Contudo, em insondável misericórdia e amor Deus prorrogou o "até" do Salmo 110:1, inaugurando a presente dispensação da graça. O Senhor rejeitado, em vez de voltar "para julgar e guerrear", envia agora aos Seus inimigos uma mensagem de "graça e paz", permanecendo voluntariamente no Exílio Real, enquanto os ímpios em massa continuam a rejeitá-Lo, a blasfemar do seu nome e a perseguir os Seus seguidores. E quem é que realmente suporta a presente inimizade dos homens contra Cristo? A resposta é: nós - ou deveríamos. Quando o nosso Senhor levantou Paulo isso já se tornara claro. Paulo, então Saulo, tinha conduzido Israel e o mundo em rebelião contra Deus e o Seu Cristo, e levou muitos (homens e mulheres, Atos 9:2; 22:4) a sofrer e a morrer pelo nome de Cristo. E agora, em vez de esmagar a rebelião - e Saulo -, o Senhor permitiu que esta continuasse, salvando Saulo e enviando-o com uma oferta de reconciliação, por graça, apenas por meio da fé, com base no facto de Deus ter feito Cristo ser pecado por nós, para que nós pudéssemos ser feitos justiça de Deus n’Ele. Isto implicaria muito sofrimento.
Assim, o nosso Senhor disse a Ananias, a respeito de Paulo:
"E Eu lhe mostrarei quanto deve padecer pelo Meu nome" (Atos 9:16).
E assim Paulo sofreu perseguição e prisões e morte como um Embaixador do Cristo rejeitado. Mas este sofrimento para ele era doce pois não foi apenas por Cristo que ele sofreu; foi mais do que isso, pois ele agora suportava os sofrimentos que o próprio Senhor teria suportado se Ele agora estivesse na Terra. II Coríntios 5:20 explica claramente que Paulo tomou o lugar do nosso Senhor ao rogar que os homens se reconciliassem: "Rogamos-vos pois da parte de Cristo".
Como Cristo tinha ido ao Calvário no lugar de Paulo, assim Paulo estava agora diante dos homens no lugar de Cristo - e ele é o nosso exemplo; como Cristo foi ao Calvário em nosso lugar nós rogamos aos homens em Seu lugar, para que se reconciliem com Deus. Nós somos os Seus representantes pessoais na Sua ausência.
O homem declarou, em termos inequívocos, o corte de relações com Cristo, mas Cristo ainda não cortou relações com o homem. Ele ainda ama os homens e anseia que eles se salvem, tendo vindo expressamente à Terra para morrer pelos seus pecados.
Assim, Paulo, como embaixador de Cristo, chama agora aos seus sofrimentos "a comunhão dos Seus sofrimentos" e regozija-se por cumprir "o resto das aflições de Cristo".
E ainda hoje o Senhor do amor e da glória continua Exilado do seu próprio mundo. E Ele ainda envia embaixadores – nós - para rogarmos aos homens no Seu lugar para que se reconciliem com Deus (II Coríntios. 5:18-19). E aqueles que O servem fielmente nesta capacidade ainda devem estar prontos para sofrer por isso. Ah, mas este é o sofrimento mais doce que o homem pode suportar: “a comunhão dos Seus sofrimentos".
Os crentes todos experimentam “a comunhão dos Seus sofrimentos"? Não. Não mais do que todos os discípulos em Atos sofreram por Cristo.
Mas note-se: em Fil. 3:10 o Apóstolo Paulo coloca "o poder da sua ressurreição" antes "da comunhão dos seus sofrimentos". "O poder da Sua ressurreição" não deveria seguir-se à "comunhão dos Seus sofrimentos"?
Na realidade, o apóstolo está a dizer aqui exatamente o oposto. Ele diz que entramos na comunhão dos sofrimentos de Cristo apenas quando experimentamos o poder da Sua ressurreição.
Em Ef. 1:19-21 aprendemos que Deus quer que cada crente saiba:
“… qual a sobrexcelente grandeza do Seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do Seu poder,
“Que manifestou em Cristo, ressuscitando-O dos mortos, e pondo-O à Sua direita nos céus.
“Acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro”.
É na medida em que entramos neste grande verdade e deixamos que as nossas vidas sejam revolucionadas por ela, e nessa medida apenas, que o Seu poder será demonstrado no nosso ministério e, assim, e somente assim, experimentaremos o resto das aflições de Cristo e a doce "comunhão dos Seus sofrimentos". Satanás tem pouca inclinação para se incomodar com aqueles que não demonstram o poder da ressurreição.
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1 Ou, o que ainda falta.
— Cornelius R. Stam
(Continua)
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (I) - Prefácio
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (II) - Introdução 1
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (III) - Introdução 2
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (IV) - REVELAÇÃO PROGRESSIVA 1
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (V) - REVELAÇÃO PROGRESSIVA 2
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (VI) - REVELAÇÃO PROGRESSIVA 3
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (VII) - A LEI DE MOISÉS 1
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (VIII) - A LEI DE MOISÉS 2
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (IX) - A LEI DE MOISÉS 3
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (X) - A LEI DE MOISÉS 4
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XI) - A LEI E OS PROFETAS 1
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XII) - A LEI E OS PROFETAS 2
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XIII) - AS BEATITUDES 1
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XIV) - AS BEATITUDES 2
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XV) - AS BEATITUDES 3
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XVI) - AS BEATITUDES 4
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XVII) - AS BEATITUDES 5
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XVIII) - AS BEATITUDES 6
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XIX) - AS BEATITUDES 7
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XX) - AS BEATITUDES 8
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXI) - AS BEATITUDES 9
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXII) - AS BEATITUDES 10
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXIII) - AS BEATITUDES 11
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXIV) - AS BEATITUDES 12
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXV) - AS BEATITUDES 13
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXVI) - AS SUAS FINANÇAS 1
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXVII) - AS SUAS FINANÇAS 2
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXVIII) - AS SUAS FINANÇAS 3
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXIX) - UMA ORAÇÃO MODELO 1
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXX) - UMA ORAÇÃO MODELO 2
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXXI) - UMA ORAÇÃO MODELO 3
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXXII) - UMA ORAÇÃO MODELO 4
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXXIII) - UMA ORAÇÃO MODELO 5
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXXIV) - UMA ORAÇÃO MODELO 6
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O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXXVI) - UMA ORAÇÃO MODELO 8
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXXVII) - UMA ORAÇÃO MODELO 9
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXXVIII) - Condiderações finais 1
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XXXIX) - Considerações finais 2
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XL) - Considerações finais 3
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XLI) - Considerações finais 4
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XLII) - Considerações finais 5
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XLIII) - Considerações finais 6
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XLIV) - Considerações finais 7
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XLV) - Considerações finais 8
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XLVI) - Considerações finais 9
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XLVII) - Considerações finais 10
O Sermão da Montanha e o Evangelho da Graça de Deus (XLVII) - Considerações finais 11



