Descalço no deserto, ou o moderno erro de Moisés
Há um certo número de anos atrás, o infame infiel Robert Ingersol viajou pelo mundo palestrando sobre “Os erros de Moisés”. Um santo amado, comentou: “Eu pagaria o dobro para ouvir Moisés palestrar sobre ‘Os erros de Ingersol’'!" Nós também.
Isto não quer dizer que Moisés não tivesse cometido erros - este artigo, de facto, centra-se num dos seus maiores erros. Infiéis, modernistas e liberais, semelhantemente, têm, no entanto, procurado há muito desacreditar a validade dos escritos de Moisés, apontando para supostas discrepâncias e erros nos primeiros cinco livros da Bíblia. Nós não temos nenhuma simpatia por esses esforços e lembramos os nossos leitores que todas essas tentativas falharam. Os escritos de Moisés têm, repetidas vezes, provado ser fiéis e verdadeiros.
Uma das grandes provas da inspiração das Escrituras é que estas registam as falhas e defeitos dos seus heróis, tanto as suas fraquezas, como os seus pontos fortes. Meros autores humanos dificilmente o fariam de forma tão aberta e consistente, como o fazem as Escrituras divinamente inspiradas.
Assim, quando olhamos para um erro que Moisés cometeu - um erro que muitos nos nossos dias continuam a cometer – não o fazemos para desacreditar quer Moisés quer os livros que ele escreveu. Antes desejamos aprender a lição que Moisés aprendeu e que Deus registou para nós nas páginas da Sua Palavra.
O ERRO DE MOISÉS
”E apascentava Moisés o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote em Midiã; e levou o rebanho atrás do deserto, e veio ao monte de Deus, a Horebe.
“E apareceu-lhe o anjo do Senhor em uma chama de fogo do meio duma sarça; e olhou, e eis que a sarça ardia no fogo, e a sarça não se consumia” (Êxo. 3:1,2).
É instrutivo observar que quando o Senhor confrontou Moisés na sarça-ardente, Ele encontrou-o "atrás do deserto". Moisés tinha completamente abandonado a sua nação, depois de ter sido rejeitado por eles como seu libertador cerca de quarenta anos antes.
Mesmo apesar de ele ter sido criado na casa de Faraó, treinado, educado e preparado durante 40 longos anos para ocupar uma posição de poder no império egípcio, Moisés fez antes a tremenda escolha de ficar com o seu povo:
“Pela fé Moisés, sendo já grande, recusou ser chamado filho da filha de Faraó,
“Escolhendo antes ser maltratado com o povo de Deus do que por um pouco de tempo ter o gozo do pecado;
“Pela fé deixou o Egito, não temendo a ira do rei …” (Heb. 11:24, 25, 27).
É indubitável que Moisés sabia que devia ser o libertador de Israel. Isto está claro na mensagem de Estêvão em Atos 7:
“E, quando completou a idade de quarenta anos, veio-lhe ao coração ir visitar seus irmãos, os filhos d’Israel.
“E, vendo maltratado um deles, o defendeu, e vingou o ofendido, matando o egípcio.
“E ele cuidava que seus irmãos entenderiam que Deus lhes havia de dar a liberdade pela sua mão ... "(Atos 7 :23-25).
Moisés ficou, no entanto, profundamente dececionado pois quando se deu a conhecer ao seu povo, eles rejeitaram-no, não compreendendo a sua missão, desprezando-o. A história é familiar: Tendo morto um egípcio que estava a abusar de um dos seus irmãos israelitas, Moisés supôs que agora a notícia se espalharia logo. Ela passaria como ele sendo realmente amigo deles. Ele não os havia abandonado pelo prestígio do Egito. Ele estava pronto para os libertar do cativeiro e tirá-los dali, por isso declarou-se abertamente a eles. Mas no dia seguinte, quando visitou os seus irmãos novamente, provavelmente para obter a sua reação ao seu primeiro ato de libertação, ele aproximou-se e deparou com dois israelitas a lutar:
“… e disse ao injusto: Por que feres a teu próximo?” (Êxo. 2:13).
Então deu-se o choque e espanto para Moisés, pois lemos:
"O qual [indivíduo a quem Moisés repreendeu] disse: Quem te tem posto a ti por maioral e juiz sobre nós? pensas matar-me, como mataste o egípcio? …" (Êxo.2:14).
Isto parece ter sido demais para o pobre Moisés. Ele não lhes tinha mostrado a eles que era seu amigo? Ele não tinha prejudicado a sua vida por defendê-los? E a paga agora era esta! Quase podemos ouvi-lo dizer: "Eis a vossa gratidão! Em vez de valorizardes o que eu vim fazer por vós, acusais-me de tentar assassinar os meus próprios irmãos."
Então Moisés, desiludido, ferido e dececionado, virou as costas à sua nação e foi para trás "do deserto." Ele permaneceu ali por mais 40 longos anos, contente por ser o pastor de um rebanho de ovelhas.
O QUE MOISÉS SE ESQUECEU
De alguma forma, ficamos surpreendidos que Moisés, que sabia do concerto de Deus com Israel, que sabia que eles eram o povo de Deus e que ele devia ser o seu libertador, se esquecesse tão cedo de tudo e os deixasse abandonados e sós. No entanto, realmente, não é assim tão difícil de compreender.
Moisés sabia do concerto de Deus com Abraão, mas ele esqueceu-se que o concerto era uma aliança incondicional, inquebrável e que nada que Israel fizesse poderia fazer com que Deus abandonasse o Seu concerto. Mesmo apesar de Israel se ter esquecido de Deus, apesar de terem rejeitado o libertador e salvador escolhido por Deus, o concerto de Deus ainda estava de pé.
Moisés parece ter perdido totalmente este facto. Ele supunha que por causa da desobediência de lsrael e de Israel o ter rejeitado, que o Senhor agora acabaria com eles e já não estaria vinculado pelo Seu juramento aos seus pais. Assim, ao abandonar o seu país e ao fugir para trás do deserto, Moisés estava como que, essencialmente, a dizer: "Este povo não é digno da misericórdia de Deus. Eles perderam o direito de ser libertados. Deus acabará com eles. Deixá-los-á morrer no Egito. É exatamente isso que eles merecem e eu não tenho mais nada a ver com eles!"
Porém Deus não havia abandonado o Seu povo e depois de quarenta anos no deserto, Ele encontra Moisés na sarça ardente para lhe ensinar a grande lição de que a infidelidade do Seu povo não pode afetar ou alterar a fidelidade de Deus.
O QUE MOISÉS APRENDEU
Na sarça ardente, Moisés é confrontado com um quadro dramático da nação que ele havia abandonado (e que, indubitavelmente, cria que Deus havia abandonado). O facto de Moisés não ter circuncidado o seu filho indicava que ele já não considerava o Concerto Abraâmico como estando em vigor - pelo menos no que lhe dizia respeito (Êxo. 4:24-26), por causa da indignidade deles. O quadro da história de Israel é apresentado a Moisés sob o símbolo da sarça-ardente - um arbusto a arder em chamas, ainda que simultaneamente incólume e preservado de modo seguro.
No registo, o encontro de Moisés na sarça-ardente situa-se entre as duas afirmações do concerto de Deus com Abraão e as lembranças da sua fidelidade (2:24, 25 e 3:6-8). Ao Moisés estar diante da sarça-ardente ele aprendeu que Deus cumpre as Suas promessas, apesar de toda a indignidade e infidelidade dos outros. Eles poderiam sofrer pelos seus pecados, mas Deus não permitiria que eles fossem destruídos; Ele preservá-los-ia e, acabaria por os libertar.
A sarça-ardente é um retrato da nação de Israel, ardendo na fornalha da aflição, perseguição e escravidão, mas sem ser consumida. Ardendo, ardendo, ardendo, mas sem ser consumida. Este é o símbolo de Deus da nação de Israel. (O verdadeiro símbolo da nação de Israel não são as seis pontas da chamada "Estrela de David", que na realidade é a estrela satânica do demónio Renfã (Atos 7:43), mas a sarça-ardente).
A sarça-ardente não é só um retrato da nação de Israel no Egito durante os dias de Moisés mas, profeticamente, torna-se numa pré-visualização de toda a história da nação desde o seu princípio na fornalha do Egito (Deut 4:20) até ao fim, à libertação final, quando o Messias vier para pôr fim à sua opressão e conduzi-los à Terra Prometida, em completo cumprimento das promessas feitas a Abraão. Assim, a sarça-ardente retrata Israel no meio da aflição ardente, mas preservada pela presença do Senhor (Malaquias 3:6, Isa. 63:9)
Tudo isto impressionou Moisés da forma mais enfática e inesquecível:
“E Moisés disse: Agora me virarei para lá, e verei esta grande visão, porque a sarça se não queima.
“E vendo o Senhor que se virava para lá a ver, bradou Deus a ele do meio da sarça, e disse: Moisés, Moisés. E ele disse: Eis-me aqui.
“E disse: Não te chegues para cá; TIRA OS TEUS SAPATOS DE TEUS PÉS; porque o lugar em que tu estás é terra santa” (Êxo. 3:3-5).
O mandamento para remover os seus sapatos tem sido muito mal interpretado. Todo este incidente foi uma lição gráfica objetiva para Moisés. Ser obrigado a tirar os sapatos era uma repreensão amarga para o seu terrível fracasso e erro relativamente ao seu dever para com os seus irmãos.
Devemos entender que este mandamento ia para além do simples facto de Moisés estar na presença de Deus. Pense nisto por um momento: Um animal teria sem dúvida dado a sua vida para fornecer os sapatos que cobririam a carne pecaminosa dos pés de Moisés. Por isso, teria sido melhor se tivessem permanecido cobertos na presença de um Deus santo (Gén 3:21, Isa. 6:2). Isso seria melhor do que expor a sua carne pecaminosa! Não, aqui há mais do que isso.
Nas Escrituras, a remoção dos sapatos era um sinal de desgraça. Era exigido aos que falhavam na sua obrigação para com os seus irmãos. Era uma repreensão severa por infidelidade a um dever (ver Deut. 25:5, 7-10, Rute 4:6-8).
Os irmãos de Moisés estavam a sofrer no Egito, enquanto ele, seu libertador designado por Deus, estava na parte detrás do deserto. Tira os teus sapatos, Moisés, e volta para o lugar onde Deus quer que estejas, de volta ao Egito e aos teus irmãos que sofrem! Não admira que depois desta repreensão, leiamos:
"E Moisés encobriu o seu rosto, porque temeu olhar para Deus" (3:6).
Assim, os sapatos foram removidos, Moisés foi repreendido e Deus começou a mostrar-lhe como ele deveria voltar ao lugar de onde ele tinha fugido e libertar Israel de acordo com o plano e propósito original de Deus. Sugerimos que leia o equilíbrio de Êxodo 3 e todo o capítulo 4 para ver a paciência do compassivo Deus a lidar com o seu servo. Ele insta com ele e, apesar de todas as muitas, muitas objeções de Moisés continua a suportá-lo até que, finalmente, ele se levanta e regressa à terra do Egito, aos seus irmãos desprezados e ao lugar do dever.
O ERRO MODERNO
O erro que Moisés cometeu ainda é o erro que está a ser cometido por muita, se não a maioria, da Cristandade professa hoje. O ensinamento de que Deus acabará com a nação de Israel, que eles nunca serão restaurados à terra da Palestina novamente, mas que agora a Igreja é Israel e tomou o seu lugar e, assim, todas as promessas feitas à nação devem ser espiritualizadas e dadas à Igreja - isto é simplesmente uma repetição do erro de Moisés.
O ensino moderno - que porque a nação de Israel rejeitou o Profeta Maior do que Moisés e falhou em reconhecê-Lo quando Ele veio da primeira vez, Deus se liberta das Suas promessas do Concerto feito com eles - é um erro tão grande, quanto o que o próprio Moisés cometeu.
Infelizmente a Cristandade ainda tem de aprender a lição que Moisés teve de aprender. E assim como o erro de Moisés mandou-o para "o lado detrás do deserto," isto pode indubitavelmente explicar porque razão a Igreja professa se encontra, espiritualmente falando, na mesma condição, vazia, estéril: ocupada, mas estéril.
Romanos 11:25-27 diz-nos claramente:
"Porque não quero, irmãos, que ignoreis este segredo (para que não presumais de vós mesmos): que o endurecimento veio em parte sobre Israel, até que a plenitude dos Gentios haja entrado.
“E assim todo o Israel será salvo, como está escrito: De Sião virá o Libertador, e desviará de Jacó as impiedades.
“E este será o Meu concerto com eles, quando eu tirar os seus pecados".
Duas coisas são muito claras nesta passagem:
Primeiro, Deus não “acabará com Israel” de modo algum. Houve uma interrupção temporária no Seu programa com a nação de Israel, mas esse programa de maneira nenhuma foi cancelado ou alterado.
Segundo, o Corpo de Cristo - a Igreja de hoje - não é Israel nem somos a substituição de Israel. A expressão "sábio aos seus próprios olhos" é a ideia de se pensar que se é algo ou alguém que não se é. É exatamente isto que aqueles que não conseguem ver "este mistério", revelado através de Paulo têm feito: eles usurparam a posição, promessas e programa dados à nação de Israel. Eles têm cometido "O erro moderno de Moisés."
- Richard Jordan



