Arrependimento e graça - Pregando correctamente


Cornelius R. Stam     Nenhum estudioso cuidadoso das Escrituras negará que a salvação de um pecador é impossível sem arrependimento, pela simples razão de que o arrependimento, no sentido do Novo Testamento, significava simplesmente uma mudança de mente (especialmente moralmente).
 

    
Quando o pecador é convencido pelo Espírito Santo da gravidade do pecado e do juízo, e clama ao Senhor para o salvar, ele tem-se, naturalmente, arrependido, ou seja, mudado a sua mente.

     Muitos dos servos de Deus, porém, considerando apenas o facto de que os pecadores necessitam de uma mudança de mente, concluem que a forma de produzir os melhores resultados no seu ministério é salientando o arrependimento.

     Aqueles que fazem hoje do arrependimento o seu tema, fazem-no porque falharam em aprender a lição que Deus demonstrou historicamente. Clamam aos homens para mudarem as suas mentes e corações, esquecendo-se que a benignidade de Deus leva ao arrependimento (Rm 2:4). Deus demonstrou, historicamente, o facto de que quando aos homens são dadas leis santas para guardarem eles só as quebram, e quando são chamados a arrepender-se das suas transgressões eles só se tornam irados. O que o homem, portanto, precisa é da graça de Deus, não só para esta efectuar a sua salvação por ele, mas também para lhe tocar no seu coração e torná-lo disposto a recebê-la. É por isso que defendemos que em todas as dispensações o homem foi salvo, essencialmente, pela graça mediante a fé, apesar disto não ter sido manifestado senão "a seu tempo", através do apóstolo Paulo (I Tm. 2:6,7).

     Uma coisa é certa: esses evangelistas que nos levam de volta aos Evangelhos e a Pentecostes, que insistem que o arrependimento é a mensagem para agora, devem deixar de falar apenas em generalidades e devem ousar pregá-la como foi pregada, quando estava em vigor.

     Quando João Batista pregou o arrependimento, ele foi específico. Ele tratou dos pecados particulares dos publicanos, dos soldados e do povo comum. Ele afastou os Fariseus e os Saduceus do seu batismo, chamando-os de "raça de víboras" e exigindo "frutos dignos de arrependimento". Enfrentou até mesmo o rei Herodes, repreendendo-o por viver com a mulher do seu irmão e por todos os males que tinha feito.

     Quando o nosso Senhor pregou o arrependimento Ele também foi específico, avisando as pessoas contra os próprios líderes dos Seus dias e pronunciando sobre eles ais nas suas caras, listando pecados particulares de que eram culpados (Mt 23).

     Quando Pedro pregou o arrependimento no dia de Pentecostes, ele também foi específico, acusando Israel e, especialmente, os seus governantes, da crucificação de Cristo.

     Tudo isto está em impressionante contraste com o que alguns dos nossos evangelistas mais populares estão a fazer hoje, quando pregam um pouco de graça e um pouco de arrependimento; sem verdadeiro poder espiritual. Aqueles que supostamente estão a "chamar a América ao arrependimento" são muito cuidadosos em não ser muito específicos. Um deles, falando em Washington, DC, disse: "Nós não apontamos o dedo a ninguém." Se hoje o plano de Deus é chamar as nações, e esta nação particular, ao arrependimento, Washington seria certamente um lugar para se ser específico.

     Nós não negamos que alguns que enfatizam o arrependimento levem pessoas à salvação, mas nós insistimos que eles não estão a conseguir que elas sejam salvas pela pregação do arrependimento, mas por algo do Evangelho da graça que a sua mensagem possa conter.

     Vamos, então, tomar o nosso lugar com o apóstolo Paulo, para quem os doze, através dos seus líderes, transferiram o seu ministério Gentílico (Gal. 2:2-9). Ele disse por inspiração divina:

      "Porque convosco falo, Gentios, que, enquanto for apóstolo dos gentios, glorificarei o meu ministério" (Rom. 11:13).

     Certamente que Satanás se nos opõe e nos oprime por pregarmos a mensagem de Deus aos pecadores hoje, o puro, não adulterado Evangelho da graça de Deus, mas ao fazê-lo, unamo-nos novamente a Paulo dizendo com todo o nosso coração:

     "Mas em nada tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do Evangelho da graça de Deus" (Atos 20:24).

     E, ao fazermos isso fielmente, os pecadores arrepender-se-ão; mudarão as suas mentes, não porque o exijamos deles ou mesmo os exortemos a fazê-lo, mas porque, ao pregarmos a glória da obra consumada de Cristo e do admirável amor e graça de Deus, o Espírito Santo abrir-lhes-á os olhos para verem, e os seus corações para receberem.
 
Cornelius R. Stam
 

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