Coisas Que Diferem - ou, Os Fundamentos do Dispensacionalismo (XXIV)

crstam.jpgO SEGREDO DO EVANGELHO NÃO REVELADO ANTES DE PAULO

     Nós devemos ter o cuidado de não assumirmos as predições a respeito da crucificação como sendo o mesmo que “a pregação da cruz” ou que “a pregação da cruz” não tem nada a ver com o mistério só porque a crucificação foi profetizada.

      Numerosas passagens do Velho Testamento, assim como também os quatro registos do ministério terreno do Senhor predizem a morte de Cristo, porém nunca os méritos da morte de Cristo foram proclamados como fundamento da salvação, antes de Paulo.  A dificuldade com muitos é lerem nessas passagens o que lá não se encontra.

     O que é que, por exemplo, poderiam Adão e Eva ter compreendido acerca do plano da salvação na declaração registada em Génesis 3:15?  Se a partir dessa passagem eles compreendessem que o Redentor que havia de vir morreria, compreenderiam mais que os doze apóstolos 4000 anos mais tarde quando operaram com o próprio Senhor e pregaram “o evangelho do reino” (Lucas 9:1-6; 18:31-34).  1

     Suporá algum leitor que o plano da salvação deve ter sido explicado a Adão e Eva?  Uma tal suposição seria inteiramente gratuita.  De facto, o registo indica precisamente o oposto.

     Agora é claro que o Espírito Santo tinha em mente a morte de Cristo no Salmo 22, mas antes de Cristo ter morrido quem teria sonhado que ele retratava a Sua crucificação ou que o brado de abertura era o do nosso Salvador crucificado?  Na realidade, a passagem nem fora escrita na forma duma predição!

     E que diremos de Isaías 53?  Cristo não é aqui retractado a levar os pecados do mundo?  Os que assim supõem têm de novo lido algo na passagem que não se encontra lá.  O versículo 6 diz:  “Todos NÓS andamos desgarrados como ovelhas ... mas o Senhor fez cair sobre Ele a iniquidade de NÓS todos."

     Uma vez que o profeta diz “todos nós”, o estudante inteligente das Escrituras inquirirá naturalmente, “todos, quem?”, e descobrirá no versículo 8 que Isaías fala como um profeta Hebreu a respeito do seu próprio povo:

     “Pela transgressão do MEU POVO foi Ele atingido”.

     Assim, primeiro de tudo, o profeta fala aqui da morte do Messias apenas no seu relacionamento com a nação de Israel 2 

     É certo que também é verdade que nós Gentios temos igualmente andado desgarrados e que o Senhor colocou igualmente as nossas iniquidades sobre Cristo, mas não é isso que está aqui em causa.

     O tom de Isaías 53 é um outro factor que não deve ser olvidado.  O profeta não proclama a morte de Cristo como boas novas, nem oferece a salvação por meio dos Seus méritos, como é nossa alegria fazermos hoje.  Pelo contrário, ele principia com um tom de desapontamento.  “Quem crerá na sua pregação? ...como renovo ... como raiz duma terra seca ... não tinha parecer nem formosura ... nenhuma beleza víamos para que O desejássemos ... desprezado ... rejeitado ... homem de dores, e experimentado nos trabalhos”.

     Quem quer renovos ou raízes de terra seca?  Vistamos um homem com um traje magnificente, coloquemos-lhe uma coroa na cabeça, atribuamos-lhe um trono num palácio com mil divisões, e os homens virão dos confins da terra para lhe beijar os pés.  Porém um tal carácter descrito por Isaías receberá o preito de quem?

     Mas, continua o profeta, Ele leva os nossos pecados.  Nós somos os únicos culpados, ainda assim e apesar disso Ele vai como um cordeiro para o matadouro.

     Notemos que em toda a predição de Isaías não há nada acerca da confiança nos méritos do Crucificado para a salvação.  Há substituição, é certo, (que alguns considerem o apogeu da verdade Cristã) mas, em si, a substituição não é boas novas.  Muitas vítimas inocentes têm suportado injustamente a condenação dos crimes de outrém.  Será isso motivo de regozijo ou de glória?

     Na verdade Isaías salienta que quando o Messias viesse seria rejeitado e morto, levando sobre si a culpa dos pecados de Israel, e isto é bastante diferente da proclamação dos méritos da morte de Cristo numa oferta de salvação a ser aceite pela fé. 3

     Finalmente, lembramos os nossos leitores que esta passagem se tratava duma predição, que obviamente o próprio profeta não compreendia (I Pedro 1:10-12) ou de certo teria enchido o seu livro com a alegre mensagem.

     Também João Baptista não conhecia o segredo do Evangelho quando disse de Cristo:

     “Eis o Cordeiro de Deus, que tira (sustenta) o pecado do mundo”  (João 1:29).

     Se conhecia, porque é que então proclamou “o baptismo do arrependimento para a remissão de pecados”?  (Marcos 1:4).

     Em Mateus 3:1-2 é-nos dado o tema da mensagem de João:

     “E, naqueles dias, apareceu João Baptista pregando no deserto da Judéia,   E dizendo: ARREPENDEI-VOS, PORQUE É CHEGADO O REINO DOS CÉUS”.

     Se João compreendia o que agora nós compreendemos acerca da morte de Cristo, porque é que não era esse o seu tema?

     Nós não nos devemos esquecer do fundo de João 1:29.  João tinha estado a baptizar pecadores arrependidos, e Jesus tinha vindo entre eles, para também ser baptizado.

     “Mas João opunha-se-Lhe, dizendo: Eu careço de ser baptizado por Ti e vens Tu a mim?”  (Mateus 3:14).

     Porém Jesus insistiu em ser baptizado.  Ainda que sem pecado algum, Ele veio como pecador e foi “numerado com os transgressores”.  Será de admirar que João, que estava consciente que tanto ele como a multidão eram os únicos que necessitavam de arrependimento e de purificação, descreva Cristo como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo?

     Uma vez mais dizemos que se João Baptista soubesse que Cristo morreria ele saberia mais que aquilo que os doze sabiam depois destes terem operado com Cristo durante a maior parte do Seu ministério terreno.  Porém, o facto de João ter pregado o que pregou, indica que ele não sabia mais do que eles.

     Mesmo depois da crucificação, os apóstolos não viram imediatamente a morte de Cristo como o segredo do Evangelho.  Pedro, como vimos, referiu-se à crucificação, porém não a ofereceu para a salvação.  Ele culpou os seus ouvintes pela morte de Cristo e exigiu arrependimento e o baptismo na água para a remissão dos seus pecados (Actos 2:36, 38).

     Nem mesmo Filipe pregou a cruz ao eunuco como o segredo do Evangelho.  O eunuco tinha estado a ler Isaías 53.  Filipe pregou então Cristo dessa passagem, provando a partir dela que o crucificado Jesus era o Messias que Isaías predissera que viria.

     Leiamos o registo cuidadosamente.  Em parte alguma lemos que Filipe tivesse instruído o eunuco que Cristo tinha morrido por ele, ou que o eunuco devia confiar na Sua morte para sua salvação.  Filipe identificou simplesmente Jesus como o Messias pela passagem em questão, e baptizou o eunuco quando ele confessou:

     “Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus” (Actos 8:37).

     Porém pode ainda ser objectado: Paulo não disse, “Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras”?  Sim, a morte de Cristo pelo pecado foi segundo as Escrituras, mas nós insistimos que não foi antes de Paulo que a Sua morte pelo pecado foi proclamada como boas novas e vista como o segredo de todas as boas novas que tinham sido anunciadas antes.  O facto simples é que a morte profetizada de Cristo tornou-se no segredo do Evangelho.

     Assim o facto da morte de Cristo pelos pecados doutros foi “testificada anteriormente” (I Pedro 1:11), contudo Paulo, por revelação, torna muito claro que o eterno propósito de Deus nessa morte e na oferta de salvação a todos por meio dos seus méritos seria

     “... TESTIFICADA A SEU TEMPO, para o que fui constituído pregador, e apóstolo ...” (I Tim. 2:6-7).

     Enquanto Pedro em Pentecostes acusara os seus ouvintes de terem crucificado Cristo e exigira arrependimento e baptismo para a remissão de pecados (Actos 2:23, 36, 38), Paulo proclamou a crucificação de Cristo como boas notícias (I Cor. 1:18).  Com Pedro em Pentecostes a cruz era um motivo de vergonha; Paulo gloriava-se nela (Gál. 6:14).

     Foi por meio de Paulo, e não por alguém antes de Paulo, que Cristo foi apresentado como “propiciação PELA FÉ NO SEU SANGUE” (Romanos 3:25).

     Foi Paulo que primeiro explicou como os homens estavam

     “... guardados debaixo da lei, e encerrados para AQUELA FÉ QUE SE HAVIA DE MANIFESTAR” (Gál. 3:23).

     E foi Paulo que foi primeiramente enviado a proclamar essa fé.

     Foi Paulo quem primeiro disse:

     “MAS AGORA se manifestou sem a lei a justiça de Deus ...”

     “Para demonstração da Sua justiça NESTE TEMPO PRESENTE, para que Ele seja Justo e Justificador daquele que tem fé em Jesus”  (Rom. 3:21, 26).

     Foi Paulo que disse primeiro:

     “... Um morreu por todos ... Assim que DAQUI POR DIANTE A NINGUÉM CONHECEMOS SEGUNDO A CARNE ...” (II Cor. 5:14, 16).

     Paulo, o principal dos pecadores, salvo pela graça, oferece a cruz como única base de remissão (Rom. 3:24); gloria-se nela (Gál. 6:14); exclama: “(Ele) amou-ME e entregou-Se a Si mesmo por MIM!” (Gál. 2:20),  “(Ele) amou A IGREJA e a Si mesmo Se entregou por ela!” (Ef. 5:25), “O amor de Cristo constrange-nos ... Ele morreu por todos” II Cor. 5:14-15).


1 Tem sido dito que o Senhor censurou dois dos Seus seguidores por não crerem em tudo o que os profetas tinham escrito respeitantemente à Sua morte e ressurreição, porém isso aconteceu depois da Sua ressurreição.  Além disso, os profetas não tinham predito a pregação da cruz para a remissão de pecados.

2 Para se ver a forma como a crucificação de Cristo trará a salvação de Israel ver o livro do autor intitulado, O Duplo Propósito de Deus.

3 A frase “Com o Seu conhecimento o Meu Servo, o Justo, justificará a muitos” (versículo 11) é traduzida na Versão de Darby. “Com o Seu conhecimento o Meu Servo, o Justo, instruirá muitos na justiça”
 
CORNELIUS  R.  STAM
 
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