Coisas Que Diferem - ou, Os Fundamentos do Dispensacionalismo (VIII)
A carta a seguir não pretende indicar o término de qualquer dispensação, mas antes as mudanças ou avanços nos tratos de Deus para com os homens, pois algumas das dispensações ainda não terminaram. Por exemplo: apesar da chamada de Abraão ter introduzido a dispensação da promessa, não trouxe a dispensação anterior a um fim, pois o governo humano ainda hoje se encontra em vigor.Notemos cuidadosamente que apesar de hoje Deus recusar obras para a salvação requereu-as contudo sob outras dispensações. Isto não aconteceu, como já explicámos, porque as obras em si mesmas pudessem salvar, mas porque elas eram a expressão de fé necessária quando assim requeridas.
A tradição diz que os homens foram sempre salvos por meio da fé no sangue derramado de Cristo; que mesmo aqueles que viveram antes da cruz tiveram de olhar pela fé, para diante, para a morte de um Cristo que havia de vir, para a salvação.
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ADÃO Criado à Imagem de Deus Gén. 1:26-27
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ADÃO Caído Em Pecado Rom. 5:12
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NOÉ Primeiro Govern-ador Civil Gén. 9:1-7
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ABRAÃO Pai dos Crentes Rom. 4:9-12 |
MOISÉS O Dador da Lei João 1:17 |
PAULO Principal dos Pec- dores Salvo I Tim. 1.13-6 |
CRISTO O Pastor Rei Jer. 23:5-6
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OS P R I N C Í P I O S DE DEUS ETERNOS E IMUTÁVEIS Salvação sempre essencialmente pela graça por meio da fé
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| A DISPEN-SAÇÃO da INOCÊNCIA Gén 2:8-17; 2:25
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A DISPEN-SAÇÃO da CONSCIÊNCIA Gén 3:8-10; Rom 2:11-15
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A DISPEN-SAÇÃO Do GOVERNO HUMANO Gén 9:6; Rom 13:1 |
A DISPEN-SAÇÃO da PROMESSA Gén 12:1-3; 22:17-18
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A DISPEN-SAÇÃO da LEI Êx 20:1-26; Gál 3:19
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A DISPEN-SAÇÃO da GRAÇA Rom 5:20-21; Ef 3:1-4
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A DISPEN-SAÇÃO do REINO Is 9:6-7; 2:1-9
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É tempo dessa falsa noção, tão profundamente enraizada nas mentes até de crentes sinceros, ser despedaçada, pois não tem a mínima base bíblica.
Não compreendamos mal. É verdade que todos os santos dos séculos passados foram salvos por meio dos méritos do sangue derramado de Cristo, mas não por meio da sua fé nesse sangue derramado. Aos santos dos séculos passados só lhes era requerido crerem no que Deus tinha revelado até eles, ou no que Ele lhes tinha revelado a eles. Por outras palavras, eles eram salvos simplesmente porque confiavam em Deus e criam no que Ele dizia. O plano pleno da salvação foi revelado desde então, mas as Escrituras tornam claro como a água cristalina que esses crentes foram salvos sem mesmo terem compreendido que Cristo morreria por eles.
I Pedro 1: 10-11, apenas torna isto claro:
“DA QUAL SALVAÇÃO INQUIRIRAM E TRATARAM DILIGENTE-MENTE OS PROFETAS que profetizaram da graça que vos foi dada, INDAGANDA QUE ou que ocasião de tempo O ESPÍRITO DE CRISTO, QUE ESTAVA NELES, INDICAVA, ANTERIOR-MENTE TESTIFICANDO OS SOFRIMENTOS QUE A CRISTO HAVIAM DE VIR, E A GLÓRIA QUE SE LHES HAVIA DE SEGUIR”.
Notemos bem que eles não indagaram meramente a respeito da “ocasião de tempo”, isto é, do carácter dos tempos, durante os quais essas coisas transpirariam. Eles indagaram e inquiriram diligentemente a fim de descobrirem “O QUE ... o Espírito ... indicava”, isto é, o que Ele queria dizer, quando de antemão testificou “os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir”. E o versículo a seguir continua a explicar que Deus revelou-lhes que eles estavam a ministrar, não a si mesmos mas aos dum tempo futuro.
Poderia alguma coisa clarificar mais isto, que o facto de que nem eles mesmo compreendiam o que o Espírito queria dizer quando Ele predisse os sofrimentos de Cristo? Como é que então eles poderiam ter sido salvos por meio da fé no Seu sangue derramado?
Um indignado oponente do dispensacionalismo perguntou-nos uma vez: “Quereis dizer-nos que Moisés mandou edificar o tabernáculo com a sua porta, as suas cortinas, o seu altar e pia de cobre, a sua mesa dos pães da proposição, o seu castiçal e altar de incenso, a sua arca do concerto e propiciatório, e não lhes disse que todas estas coisas eram típicas de Cristo e da Sua obra consumada?
A nossa réplica foi simplesmente, “O que dizem as Escrituras?” Há alguma indício, qualquer que seja, de que Moisés lhes disse que aquelas coisas apontavam para Cristo ou que ele próprio tinha alguma ideia acerca do seu significado? Nós agora sabemos que aquelas coisas eram típicas de Cristo e da Sua obra redentora, e regozijamo-nos ao vermos que Deus teve sempre isso em mente; que a cruz não constituiu nem um acidente nem um remédio, porém essa revelação encontra-se visivelmente ausente do registo do Velho Testamento. Não há qualquer indício de que mesmo Moisés soubesse, muito menos ensinasse, que aquelas coisas eram típicas de Cristo.1
Se é verdade que Moisés e os profetas conheciam e compreendiam algo acerca da morte futura de Cristo e tinham de confiar no Seu sangue derramado para a sua salvação, isso não deveria ser verdade também em relação aos doze apóstolos? Ainda assim e apesar de tudo, eles trabalharam com Cristo durante um tempo considerável, pregando o Evangelho do reino, antes mesmo que Ele principiasse a dizer-lhes que Ele deveria sofrer e morrer, e quando Ele lhes disse, Pedro repreendeu-O pela Sua atitude “derrotista”!
Mateus 16:21-21: “Desde então começou Jesus a mostrar aos Seus discípulos que convinha ir a Jerusalém, e padecer muito dos anciãos, e dos principais dos sacerdotes, e dos escribas, e ser morto e ressuscitar ao terceiro dia. E Pedro, tomando-O de parte, começou a repreendê-l'O, dizendo: Senhor, tem compaixão de Ti; de modo nenhum Te acontecerá isso”.
Mais tarde, quando Ele lhes disse de novo que essas coisas deveriam acontecer, como preditas pelos profetas, eles não tinham a mais leve ideia do que Ele lhes dizia. Este facto é imprimido em nós por meio de uma ênfase tripla em Lucas 18:34:
1. “E ELES NADA DISTO ENTENDIAM:
2. “E ESTA PALAVRA LHES ERA ENCOBERTA,
3. “NÃO PERCEBIAM O QUE SE LHES DIZIA.”
Nesta altura eles estavam associados a Cristo, pregando o Evangelho do reino e operando milagres, há pelo menos dois anos, ainda assim e apesar disso, não sabiam sequer que Ele havia de sofrer e morrer. Significará isto que nenhum deles estava salvo? Certamente que não. Simplesmente confirma o que Pedro diz acerca dos profetas inquirirem e tratarem diligentemente o que o Espírito, que falava por meio deles, queria dizer quando testificava de antemão os sofrimentos de Cristo e a glória que se lhes deveria seguir.
Pode surpreender alguns dos nossos leitores a descoberta de que mesmo após a ressurreição em Pentecostes, o próprio Pedro não viu na morte de Cristo o que nós hoje vemos nela. É certo que ele agora conhecia a crucificação como um facto histórico, mas ele não baseou qualquer oferta de salvação nesse facto. Na verdade, ele culpou Israel por isso e quando os seus ouvintes foram convencidos dos seus pecados e perguntaram o que deviam fazer, ele replicou:
“ARREPENDEI-VOS, E CADA UM DE VÓS SEJA BAPTIZADO EM NOME DE JESUS CRISTO, PARA PERDÃO DE PECADOS ...” (Actos 2:38).
Isto aconteceu porque ele se encontrava fora da vontade de Deus ou cego pela incredulidade? Não, ele estava “cheio do Espírito Santo” (Actos 2:4). Aconteceu simplesmente que “o tempo devido” ainda não tinha chegando para que essas coisas se tornassem conhecidas.
Isto leva-nos de novo à importância do reconhecimento do ministério distinto de Paulo. Não é antes de Paulo que temos aquilo que é propriamente chamado “a pregação da cruz”. É ele que diz primeiro:
“MAS AGORA SE MANIFESTOU SEM A LEI A JUSTIÇA DE DEUS ...
“Isto é a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos e sobre todos os que crêem ...
“SENDO JUSTIFICADOS GRATUITAMENTE PELA SUA GRAÇA, PELA REDENÇÃO QUE HÁ EM CRISTO JESUS,
“Ao qual Deus propôs para propiciação PELA FÉ NO SEU SANGUE, para demonstrar A SUA JUSTIÇA PELA REMISSÃO DOS PECADOS DANTES COMETIDOS, 2 sob a paciência de Deus;
“Para demonstração da Sua justiça NESTE TEMPO PRESENTE, para que Ele seja JUSTO E JUSTIFICADOR DAQUELES QUE TÊM FÉ EM JESUS” (Rom. 3:21-26).
Era a isto que Paulo se referia pela
“FÉ QUE SE HAVIA DE MANIFESTAR” (Gál. 3:23).
Era a isto que ele se referia quando escreveu de Cristo:
“O Qual se deu a Si mesmo em preço de redenção por todos, PARA SERVIR DE TESTEMUNHO A SEU TEMPO.
“PARA O QUE (DIGO A VERDADE EM CRISTO, NÃO MINTO) FUI CONSTITUÍDO PREGADOR, E APÓSTOLO, E DOUTOR DOS GENTIOS NA FÉ E NA VERDADE (I Tim. 2:6-7).
Contudo isto será discutido numa lição adiante. Tudo o que estamos a procurar estabelecer aqui é o facto da revelação progressiva e o completo anti-bíblicismo da tradição que diz que os que viveram antes de Cristo foram salvos por terem olhado para diante, em fé, para a Sua obra consumada.
Isto não é estabelecido nas Escrituras somente negativamente; também o é positivamente. Não é meramente tornado claro que os santos dos séculos passados não compreendiam nada acerca da morte de Cristo, mas em muitos casos é-nos dito exactamente o que eles sabiam e criam para encontrarem a aceitação de Deus.
Nós já declarámos que Hebreus 11 torna claro que a salvação tem sido sempre a recompensa da fé. Há uma constante que corre ao longo do capítulo: “Pela fé ... Pela fé ... Pela fé.” Na introdução à longa lista de actos de fé operados por indivíduos, lemos que “Por ela (fé) os antigos alcançaram testemunho” e que “sem fé é impossível agradar-Lhe (a Deus)” e a longa lista termina com a declaração: “Todos estes, tendo tido testemunho pela fé” (vers. 2, 6, 39).
Mas em Hebreus 11 também há inconstantes ou variáveis, pois em quase todos os casos estes heróis da fé creram numa revelação de Deus diferente e expressaram a sua fé diferentemente. Porém em parte alguma desta lista de santos lemos de alguém que fosse salvo pela fé na morte de um Cristo que havia de vir. Somos nós que agora sabemos que eles foram salvos por meio da morte de Cristo. E quando Cristo nos é pregado, nós revelamos a nossa fé cessando as nossas obras e aceitando com humilde gratidão o que Ele fez por nós.
1 É algumas vezes presumido de Deut. 18:15-19 que Moisés deve ter tido um bom grau de conhecimento acerca do redentor que havia de vir, mas isto é acrescentar às Escrituras. Aqui não há nada acerca dum Redentor. Esta passagem declara meramente que Deus deu a Israel um Profeta a quem eles deveriam dar ouvidos ou sofreriam as consequências. Deve ser disto assumido que Moisés ensinou o seu povo a confiar na futura morte de Cristo para a sua salvação? E se aos próprios profetas que mais tarde predisseram a morte de Cristo não lhes foi permitido compreenderem as suas próprias predições e as dos outros, havemos nós de supor que Moisés compreendeu mais do que aquilo que lhes foi revelado a eles? Tenhamos cuidado em assumirmos que os santos do Velho Testamento “devem ter compreendido” aquelas coisas, e perguntemos sempre, “O que dizem as Escrituras?”.
2 Isto é, “As transgressões que havia debaixo do primeiro testamento” (Heb. 9:15).
CORNELIUS R. STAM
Coisas Que Diferem - ou, Os Fundamentos do Dispensacionalismo (I)
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