Coisas Que Diferem - ou, Os Fundamentos do Dispensacionalismo (VI)
Muitas pessoas têm sido espantadas do dispensacionalismo devido ao comprimento da própria palavra, especialmente desde que alguns que procuram dividir bem a Palavra de Deus têm sido rotulados de Ultradispensacionalistas! Contudo a raiz desta palavra enorme possui um significado muito simples, pois a palavra dispensar apenas quer dizer distribuir. A palavra dispensação, portanto, significa o acto de dispensar ou de distribuir, ou aquilo que é dispensado ou distribuído. Existem por exemplo dispensários médicos onde os medicamentos são dispensados aos pobres. Por vezes essas dispensações são conduzidas num dia particular de cada semana. Ora tal dispensação de medicamentos pode durar umas doze horas completas cada semana, porém isso não quer dizer que uma dispensação seja um período de doze horas! Ainda assim e apesar disso há alguns que quando pensam em dispensações não conseguem pensar em nada mais senão em períodos de tempo! Na verdade, um dos maiores ensinadores bíblicos da passada geração definiu uma dispensação como se segue: “Uma dispensação é um período de tempo durante o qual o homem é provado no que respeita à obediência a alguma revelação específica da vontade de Deus”.
Isso está incorrecto, pois uma dispensação não é um período de tempo, mas o acto de distribuir ou aquilo que é distribuído. O ensinador bíblico acima referido sem dúvida que queria dizer uma dispensação cobre um período de tempo.
A palavra dispensação não é um mero termo teológico. É muitas vezes usada na Bíblia, ainda que nem sempre seja assim traduzida. Em Efé. 3:2, por exemplo, Paulo escreve acerca da “dispensação da graça de Deus, que para convosco me foi dada”. Precisamente como a dispensação da lei fora confiada a Moisés (João 1:17), a dispensação da graça de Deus foi confiada a Paulo.
O significado orgânico da palavra “oikonomia” - palavra original donde vem a palavra dispensação - é a administração ou governo da casa. Esta palavra é traduzida algumas vezes por mordomia na nossa versão. Isto é interessante porque a palavra mordomo (oikonomos), em vez de significar servo, como alguns supõem, significa antes administrador ou governador da casa. O mordomo era o dirigente, o cérebro, aquele em cujas mãos o governo da casa era depositado. Era ele que distribuía o dinheiro para as necessidades da casa, dispensava a comida e o vestuário para os servos e para as crianças, pagava os salários, etc. Tudo lhe estava entregue para que dispensasse sábia e fielmente. Ele era o dispenseiro designado dos bens do seu senhor e dos negócios da casa.1
Deste modo lemos em Lucas 12:42:
“E disse o Senhor: Qual é pois o mordomo [oikonomos] fiel e prudente, a quem o senhor pôs sobre os seus servos, para lhes dar a tempo a ração?”
Em Lucas 16:1-2 onde as palavras oikonomos e oikonomia são novamente traduzidas por mordomo e por mordomia, temos a mesma ideia:
“E dizia também aos Seus discípulos: Havia um certo homem rico, o qual tinha um mordomo; e este foi acusado perante ele de dissipar os seus bens. E ele, chamando-o disse-lhe: Que é isto que ouço de ti? Dá contas da tua mordomia, porque já não poderás ser mais meu mordomo”.
Em I Cor. 9:16-17 esta mesma palavra é novamente traduzida por dispensação, e uma vez mais exprime o mesmo pensamento:
“Porque, se anuncio o evangelho não tenho de que me gloriar, pois ME É IMPOSTA ESSA OBRIGAÇÃO; e ai de mim se não anunciar o evangelho! E por isso se o faço de boa mente, terei prémio; mas, (mesmo) se de má vontade (EU DEVO FAZÊ-LO, pois) APENAS UMA DISPENSAÇÃO ME É CONFIADA”.
Notemos que em cada um desses casos a ideia de responsabilidade está envolvida. Foi um “mordomo fiel e prudente” que o Senhor procurou colocar sobre a Sua casa. O homem rico despediu o seu mordomo porque ele dissipou os seus bens. A responsabilidade pesava sobre Paulo porque “uma dispensação do evangelho” lhe tinha sido confiada.
Uma da passagens mais claras nesta relação é encontrada em I Cor. 4:1-2 onde o apóstolo Paulo diz:
“QUE OS HOMENS NOS CONSIDEREM COMO MINISTROS (SERVOS) DE CRISTO, E DISPENSEIROS DOS MISTÉRIOS DE DEUS. ALÉM DISSO, REQUER-SE NOS DISPENSEIROS DE DEUS QUE CADA UM SE ACHE FIEL”.
Mantenhamos claramente fixo nas nossas mentes este significado da palavra dispensação. Ao constatarmos que uma dispensação envolve e denota mais responsabilidade que um mero período de tempo, se sinceramente desejarmos estar na vontade de Deus, procuraremos compreender com clareza e levar a cabo fielmente, a dispensação da graça de Deus que nos foi confiada.
1 Eliezer e José eram mordomos deste tipo (Gén. 15:2; 24:2; 39:4).



