Qual é a nossa Grande Comissão? (IX)

Cornelius R. Stam

O QUE ESTA COMISSÃO DIZ E NÃO DIZ

CAPÍTULO III

UMA CONSIDERAÇÃO IMPORTANTE

     Na sua juventude o autor ouviu muitas mensagens sobre a chamada “grande comissão”, mas eram todas devocionais ou inspirativas, por carácter. Apesar de desde a sua mais tenra juventude ter estado em contacto com grandes homens de Deus de longe e de perto, e de se regozijar na luz que derramavam sobre a então recentemente redescoberta verdade do retorno eminente do Senhor, não se recorda de uma única exposição da comissão como um todo, ou duma série de estudos bíblicos, em que fosse explicado com exactidão o que o Senhor disse e não disse nesta comissão.

     Contudo não demorou muito tempo a ver que a comissão dada aos onze não se harmoniza com a nossa mensagem e ministério dados por Deus, como mais tarde revelou a Paulo e resumiu nas suas epístolas.


O QUE ESTA COMISSÃO DIZ

     Quando consideramos todos os registos daquilo que o Senhor disse na Sua comissão aos onze, é impossível concluir que esta comissão pertença à dispensação sob a qual nós vivemos.


MATEUS 28:18-20
O SENHOR COMO REI

Observemos como o primeiro registo desta “grande comissão” principia:

     “É-me dado todo o poder no céu e na terra” (Mat.28:18). Certamente que, por “poder”, o Senhor não se referia à força física ou à influência política, mas à autoridade que Lhe foi confiada por Seu Pai. “É-Me dada toda a autoridade no céu e na terra”.1

     “Portanto ide …” Esta declaração de abertura da comissão do Senhor aos Seus onze apóstolos não associa o Seu ministério imediatamente ao Seu reino e ao Seu direito de reinar? (Cf., Actos 2:29-31; 3:19-21).

     Assim a passagem continua:

     “Portanto ide, ensinai todas as nações2   … “ (Ver.19).


ENSINANDO-AS A GUARDAR TODAS AS COISAS

     Mas que deveria ser ensinado às nações? Qual seria a mensagem dos apóstolos para elas? O versículo seguinte dá-nos, pelo menos, parte da resposta – uma parte importante:

     “Ensinando-as guardar todas as coisas que Eu vos tenho mandado” (Ver.20). Será que obedecemos a este mandamento específico da comissão do Senhor aos onze? Se obedecêssemos decerto que amarraríamos os nossos ouvintes, pés e mãos, à lei de Moisés, à sua observância do sábado, aos seus sacrifícios e a todas as outras cerimónias.

     Gál. 4:4 declara claramente que o Senhor, quando na terra, nasceu “sob a lei”, e os registos do Seu ministério terreno confirmam esse facto. Na realidade, como vimos, o Senhor mandou os Seus discípulos aos escribas e Fariseus porque ocupavam a cadeira de Moisés (Mat.23:1-3).

     Nesta relação é interessante notar que o discípulo que baptizou Paulo era um “varão piedoso conforme a lei” (Actos 22:12) e que ainda em Actos 21:20 os que tinham estado a operar sob a chamada “grande comissão” disseram a Paulo: “Bem vês, irmão, quantos milhares de Judeus há que crêem, e todos são zeladores da lei”.

     Será, então, que poderemos levar a cabo a comissão dada aos onze sem subjugarmos os nossos ouvintes à lei de Moisés e sem contradizermos tudo o que Paulo, por revelação divina, ensinou mais tarde acerca da lei e acerca da salvação pela graça, por meio da fé, completamente aparte da lei?

     Mas este mandamento envolve aqui mais coisas, pois no Seu Sermão da Montanha e ao longo de todo o Seu ministério o Senhor deu aos Seus discípulos muitos mandamentos para além dos contidos na lei de Moisés. Citaremos alguns:

     Mat.5:42: “Dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes”.

     Mat.6:25,26: “Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem, quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestido?

     Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam nem ajuntam em celeiros; o vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas?”

     Alguns têm neutralizado a força desta última passagem ao interpretarem a frase “não andeis “cuidadosos” como significando “não andeis inquietos” ou “não andeis ansiosos”, mas isso desvirtua e torce o significado do versículo seguinte, onde o Senhor chama a atenção dos Seus discípulos para “as aves do céu”, e diz: “elas não semeiam, nem segam nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas?” O versículo 25, assim, ergue-se tal e qual como é. Como Seus seguidores eles deveriam dar gratuitamente aos necessitados, não deveriam armazenar para o futuro uma vez que o seu Pai celestial, que até das aves nos ares cuida, decerto cuidaria deles.

     Não é de admirar que o Sermão da Montanha seja chamado “a magna carta do reino”, pois no reino milenial do Senhor o Seu povo cuidará espontaneamente dos outros e não de si – como na verdade aconteceu no antegosto Pentecostal do Seu reino.

     O Senhor utilizou palavras fortes ao referir-se à importância da obediência a estes mandamentos, Quando Ele terminou este grande sermão disse:

     “E aquele que ouve estas Minhas palavras, e as não cumpre, compará-lo-ei ao homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia;

     “E desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e caiu, e foi grande a sua queda” (Mat.26,27)

     Quando o jovem mancebo rico interrogou o Senhor a respeito da vida eterna e perguntou, “Que me falta ainda?”, o Senhor retorquiu:

     “Se queres ser perfeito, vai VENDE TUDO O QUE TENS, E DÁ-O AOS POBRES, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me” (Mat.19:21).

     Isto também tem sido neutralizado pela sugestão de que o Senhor disse isto ao jovem mancebo porque Ele sabia que as suas riquezas obstruíam o caminho para a sua salvação. Mas o Senhor instruiu os Seus apóstolos a fazerem o mesmo!

     Mat.10:8-10: “…DE GRAÇA RECEBESTES, DE GRAÇA DAI.

     “Não possuais ouro, nem prata, nem cobre, em vossos cintos,

     “Nem alforges para o caminho, nem duas túnicas, nem alparcas, nem bordão; porque digno é o operário do seu alimento”.

     Será segundo este padrão que devemos enviar os nossos missionários hoje em dia?

     Na verdade, o Senhor até deu um mandamento semelhante a todos os Seus discípulos.

     Lucas 12:33: “VENDEI O QUE TENDES, E DAI ESMOLAS. Fazei para vós bolsas que não se envelheçam; tesouro nos céus que nunca acabe, aonde não chega ladrão e a traça não rói.”

     Assim, o Senhor deu as mesmas instruções àquele homem, ao Seus doze apóstolos, e a todos os Seus seguidores. Assim como eles oravam pelo estabelecimento do Seu reino (Mat. 6:10), e pregavam que ele tinha “chegado” (Mt.10:7), assim também deveriam praticá-lo, não armazenando para si, mas pelo contrário, cuidando dos outros e esperando em Deus como seu Provedor (Mat.10:8-10). Seria este o modo de vida no reino profético.

     Se, então, devemos operar sob a comissão dada aos onze, ensinando os homens a observar tudo o que Cristo mandou aos Seus seguidores, não deveríamos fechas as nossas contas bancárias, liquidar todos os nossos activos, e distribuir tudo pelos pobres? Certamente que Mat.28:20 é uma parte importante da chamada “grande-comissão” que hoje não está a ser obedecida. Já veremos que ela não pode e não deve ser praticada durante “este presente século mau”.


1 “Céu e terra”, porque o reino, ou governo do céu seria estabelecido na terra (Mat.5:3,5; 6:10; cf, Dan. 2:44).

2 A palavra Grega ethne, ou nações, significa geralmente Gentios quando em contraste com os Judeus. Contudo, João Ferreira de Almeida traduziu-a aqui correctamente por nações, uma vez que os apóstolos iriam fazer discípulos de todas as nações, incluindo Israel. Na realidade, Israel seria a primeira nação que os apóstolos deveriam trazer aos pés do Messias (Ver Lucas 24:47; Actos 1:8; cf., Actos 3:25,26; 13:46).

(Continua)
C. R. Stam

 

Ver anteriores: 

Qual é a nossa Grande Comissão? (XXXV)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XXXIV)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XXXIII)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XXXII)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XXXI)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XXX)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XXIX)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XXVII
I)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XXVII)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XXVI)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XXV)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XXIV)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XXIII)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XXII)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XXI)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XX)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XIX)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XVIII)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XVII)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XVI)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XV)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XIV)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XIII)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XII)
Qual é a nossa Grande Comissão? (XI)
Qual é a nossa Grande Comissão? (X)
Qual é a nossa Grande Comissão? (IX)
Qual é a nossa Grande Comissão? (VIII)
Qual é a nossa Grande Comissão? (VII)

Qual é a nossa Grande Comissão? (VI)
Qual é a nossa Grande Comissão? (V)
Qual é a nossa Grande Comissão? (IV)
Qual é a nossa Grande Comissão? (III)
Qual é a nossa Grande Comissão? (II)
Qual é a nossa Grande Comissão? (I)

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